Essas coisas vivas --- Maria Amélia Mano



Só a poesia possui as coisas vivas.
Mário Quintana


Mais de vinte anos depois e me banho no mesmo verde, busco a espuma do mar que me leva de volta para os 15 anos, para a vida mais leve, para o mundo mais distante das coisas ruins, das crueldades e das palavras duras...

Água transparente e o novo batismo, ritual de se tornar duas: adulta e adolescente, com a vivência e a inocência, a harmonia e a confusão de desejos, de inseguranças que bate forte como a onda salgada feito lágrima.

Quente feito a gente, o mar me faz esquecer o cotidiano, o trabalho distante no sul, mas ao olhar para areia da praia, me vem o pedido da Helena: "gosto de conchas".

Helena é negra e tem a minha idade, mas parece ter cem anos de alma, de vida, de sofrimento, de desespero, de sobriedades e de recaídas... Primeiro foi o álcool, depois "a pedra" e com ele, o crack, a prostituição, a humilhação, a rua e o vírus.

Atendo Helena em suas confissões e silêncios, respeitando seus tempos, suas ausências, seus sumiços e suas buscas, suas urgências, seus medos, suas violências e sua ternura, sua carência...

Antes de sair de férias ela me encontra na sala de espera da Unidade de Saúde e me deseja boas férias. "Vou para a praia!", compartilho. Ela sorri e me pede uma concha. Só isso.

Dias depois estou imersa no verde-azul da infância, da adolescência, do sonho... Busco a concha, mas ela é impossível e o que vejo é um pequeno búzio marrom e bege, "sem gracinha", mas o primeiro... Poderia ter comprado uma concha. Havia várias nas feiras. Mas guardei só aquele pequeno troféu daquele primeiro banho de retorno, de recomeço.

Mais alguns dias e estou de volta. Helena me busca pela insônia. A noite é dura quando se tem muitos fantasmas de muitos tempos. A escuridão sem sol, sem praia, sem azul. A mulher que pede por uma concha.

Ofereço o búzio, tão humildezinho! Justifico. Era o primeiro banho de mar e a primeira onda, os primeiros passos nas praias do Ceará, onde nasci. O primeiro toque após mais de 20 anos. Contei que lembrei dela, Helena, ao olhar a areia. Contei que busquei aquele primeiro búzio, este mesmo que depositava,  carinhosamente na mão dela.

Ela sorri com seu sorriso branco, largo e, antes de qualquer coisa, segurando o búzio me diz: "está vivo!"

Sorrio em resposta e repito sua frase: "sim, está vivo..."

Só então Helena me agradece e me agradece mais de uma vez. Com um abraço, nos despedimos e fico com a sensação de me voltar o mar aos olhos. Fico perdida nas minhas águas, nas minhas surpresas, nos presentes da vida, estes que a gente agarra ou deixa fugir.

Helena que tanto partilhou e partilha seus momentos comigo. Helena que tanto fala, tanto conta. Helena, me ouviu e partilhou o meu momento, meu retorno, minha história, minhas lembranças, minhas pequenas magias. Com o sorriso e o olhar, nos encontramos, cúmplices e quase irmãs em nossos caminhos tão diversos.

Fomos, por instantes, duas mulheres de brilho igual nos olhos, duas meninas de 15 anos, caminhando em uma praia distante de mares verdes, encantadas em torno de um búzio pequeno, o primeiro encontrado...

Duas meninas que, apesar dos lugares, das cores, das dores, acreditam na magia dos retornos, dos encontros, na esperança da primeira vez, na alma das pequenas histórias partilhadas, no  coração que  viaja, sonha e cuida, afaga.

Obrigada, Helena, por dar vida ao meu búzio e torná-lo verso acariciado na poesia das ondas do mar e nascido do encontro do  teu  sorriso com a minha lágrima.

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