A MINHA PARTE COM OS POBRES E OPRIMIDOS

Ernande Valentin do Prado


Eu devia estar contente
Por ter conseguido tudo o que eu quis 
Mas confesso abestalhado 
Que eu estou decepcionado
                           Raul Seixas

A questão que Eymard propôs no grupo [dialogando_] (Meu envolvimento inicial com o mundo popular) deixou-me intrigado e com dúvidas. Quando foi que comecei a dedicar-me a trabalhar com os pobres e oprimidos? Não consegui encontrar realmente a origem, o dia e lugar onde tudo começou, por isso vou divagar um pouco (se me permitem).
Lembro-me que entre os 12 e 15 anos (fazendo o ensino ginasial – como se chamava na época), o meu maior sonho, lá em Apucarana, norte do Paraná, era libertar a América, refazer os passos de Tchê Guevara (não lembro exatamente como conheci essa história, mas acho que tem a ver com um professor de língua portuguesa que contava como foi preso e torturado no Congresso da UNE pela ditadura). Eu sabia que a gente vivia oprimido, sendo roubado em nossa dignidade, que alguns ganhavam muito, outros passavam fome. Meus amigos sonhavam em comprar uma moto para ganhar as meninas e isso não era fácil como hoje (vivemos uma epidemia de motos e acidentes de motos – acho que deve ser pior do que o crack, mas é uma indústria legalizada, então não chama tanta atenção).
O meu sentimento é que não trabalho para pobres e oprimidos e nem com eles, mais que sou um deles (apesar de que neste momento estou em um hotel em Brasília pago pelo Ministério da Saúde e o café da manhã foi farto – como não tem em casa todo dia). Defino-me melhor como militante do Sistema Único de Saúde (SUS), mas não de qualquer SUS e sim esse que é encarnado. Existe efetivamente mais de um SUS, assim como existe mais de um "deus". Sinto que cada igreja criou seu "deus" particular e ministros, políticos, secretários e até grande parte de trabalhadores criam o seu SUS, que lhes beneficiam com horários flexíveis, favores políticos, venda de facilidades, subfinanciamento para algumas áreas, opulências e favorecimento para outras. Não defendo esse SUS, mas um mais humano, onde as pessoas podem se encontrar, conhecer-se, criar laços e vínculos de verdade e vivenciar a equidade.
Mas vamos retroceder um pouco mais para entender de onde vem esse sentimento: meu pai tem alma de pescador e hoje, depois dos 60 anos, mora em frente a um grande rio, onde pode pescar (sua casa foi inundada esses dias pela cheia do rio que acontece todo ano, e ele me ligou animado com isso, pode?). Mas o orçamento não fecha com os vencimentos da aposentadoria (direito que adquiriu por trabalhar desde os seis anos de idade), por isso também trabalha como pedreiro. Já trabalhou com muita coisa (só não foi ladrão e imitador do Ney Mato Grosso em boates especializadas – como diz um amigo de infância): agricultor, tratorista, motorista, inventor, marceneiro, eletricista, encanador, pedreiro e pescador. Lê muito pouco, escreve menos ainda, mas, junto com minha irmã mais velha, são os maiores gênios da família e os maiores que conheço, não há nada que não saibam fazer, não há problema que não deem jeito, só não sabem ganhar dinheiro (defeito comum na família).
Não nasci com o talento de meu pai, que minhas irmãs herdaram. Sou mais parecido com minha mãe, mais pé no chão, sem grandes saltos, sem coragem de largar tudo e encarar o mundo de peito aberto. Quando moleque fui vendedor de frutas de porta em porta, engraxei sapatos na rodoviária de Campinha da Lagoa (uma das coisas que mais lembro de ter gostado de fazer), fui entregador de supermercado (naquele tempo que a gente usava bicicletas), atendente de balcão em mercearia e lanchonete, garçom e vendedor de sapato em loja chique (uma das coisas que mais detestei. Só não foi pior do que trabalhar em UTI). Também fui metalúrgico e tentei ser pedreiro. Quando vi que estava fabricando carros que nunca chegaria a comprar  e não via o sol (entrava na fábrica no escuro e saía no escuro), mas ser pedreiro, embora muitos ache uma coisa sem “saber”, exige um conhecimento especializado e um fazer refinado (quem já precisou fazer uma obra ou reforma, por menor que seja, já deve ter percebido isso). Não consegui dominar esse saber/fazer bem e não gosto de fazer sem conseguir fazer bem feito (aprendi com minha mãe).
Um belo dia, um amigo, meu sócio num trabalho de "pedreragem" mal sucedida (é um dos caras mais inteligentes e mais entendidos de literatura que conheci na vida)  chegou com a ideia de fazermos um curso de Auxiliar de Enfermagem. Segundo ele, o curso durava um ano e três meses e seria financiado pela prefeitura. O aluno receberia uma bolsa de um salário mínimo mensal (R$ 100,00 na época, mas não lembro se já era real e mais vale transporte). Achei uma péssima ideia (pensava em sangue, em curativo, em pessoas com diarreia, fralda suja, sofrimento sem fim, hospital com cheiro de remédio, gente morrendo), mas vendo o risco das paredes que havíamos acabado de levantar cairem, achei que era melhor  tentar (até hoje a casa esta em pé). Acabamos ficando com as duas últimas vagas do curso (a colega que nos avisou não passou na seleção e tornou-se uma excelente professora algum tempo depois).
O curso foi oferecido pela prefeitura para suprir a falta de mão de obra no setor. Faltavam auxiliares e enfermeiros. Havia empregos em todo lugar e o salário, embora não fosse bom, não era tão ruim quanto hoje, quando há uma escola de enfermagem em cada esquina e emprego, quase sempre quando se compromete em ser cabo eleitoral .
Mais ou menos um ano e meio depois, fui fazer a graduação por “pirraça”, por desentendimento com uma enfermeira (minha chefe). Trabalhava no hospital mais mal afamado da cidade, por opção, pois achei que lá estariam as pessoas que pagaram para eu estudar. O hospital era administrado por uma Universidade e eles ofereciam bolsa de estudo generosa (75% de desconto na mensalidade). No meio do curso fui demitido e perdi a bolsa, mas o serviço de assistência social chamou-me no fim do semestre e disseram que eu não teria como pagar aquele curso, que estavam preocupados comigo, mas como eu tinha boas notas e não faltava, estavam  oferecendo-me uma bolsa de 50%,que eu não teria que reembolsar no fim do curso. Isso desde que me comprometesse a não faltar, continuar tendo boas notas e não contar para ninguém que esta bolsa existia. Claro que aceitei, mas contei para uma colega que também não tinha como pagar o curso e ela reivindicou e conseguiu a mesma bolsa.
Sabia que não se tratava de bondade, mas de um olhar atento do serviço social (que agradeço todos os dias até hoje, sem eles minha vida teria sido muito mais dura). A instituição era beneficente e tinha uma cota de bolsa a preencher para justificar a isenção fiscal. Por isso, assim como no curso de Auxiliar de Enfermagem que havia feito antes, sabia que no final das contas quem pagava para que eu pudesse estudar era a população. Prometi para mim mesmo, assim como fiz no curso de Auxiliar, que depois de formado iria trabalhar onde a população precisasse, fosse onde fosse.
Ninguém me pediu para fazer (o que acho um erro, todos que têm o beneficio de estudar com bolsa ou em instituições pública, deveriam ter o dever de devolver um pouco do que receberam). Sinto que tenho a obrigação de devolver um pouco do que recebi. Sou enfermeiro graças ao investimento do Estado, da população que pagou com impostos minha bolsa. Fiz minha parte, aproveitando o curso, levando a sério, investindo horas e recurso, sendo o primeiro a chegar à biblioteca para não ter que comprar fotocópias ou os livros, mas mesmo assim sempre tive o sentimento de que deveria fazer mais, ir aonde não quisessem ir, fazer tudo que estivesse ao meu alcance para que o SUS fosse como deveria ser.
Por conta desse sentimento abandonei o concurso na UFPR (Hospital de Clínicas de Curitiba – o melhor hospital onde já trabalhei), Secretaria Estadual de Saúde do Paraná (que não cheguei a assumir, pois era para trabalhar em hospital e minha vida estava direcionada à Estratégia Saúde da Família), Prefeitura Municipal de Curitiba (que não cheguei assumir o concurso, pois não acredito no modelo de saúde que se praticava nesta época, onde o Enfermeiro ficava longe das pessoas e envolto em burocracias sem sentido) e Campo Largo (onde não suportei a desorganização e a intencionalidade de só fazer política eleitoral e não de saúde). Trabalhei no Espirito Santo, Mato Grosso do Sul, Bahia, Sergipe. Fui, voltei, prometi não voltar mais e voltei. Hoje estou trabalhando como Apoiador Institucional na Bahia e como Apoio Pedagógico na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), no curso de Especialização em Saúde da Família em convênio com a Universidade Aberta do SUS (UNA-SUS/UFPel).
O meu sentimento é que continuo fazendo tudo que posso para que o SUS venha a ser cada vez mais como sonhou os militante da Reforma Sanitária nos anos de 1970, e cada vez menos o SUS real dos gabinetes chiques com ar condicionado e charutos cubanos.

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Revisão – Cecília Mano.
Este e todos os outros textos publicados por mim neste blog foram revisados de forma fundamental por Dona Cecília Mano. Um trabalho inestimável que já fez também no livro: Vivências de Educação Popular em Atenção Primária à Saúde: a realidade e a utopia.
Dona Cecília: meus sinceros agradecimentos.




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