De Passagem - Maria Amelia Medeiros Mano

DE PASSAGEM

Não tenho caminho novo
Tenho um novo jeito de caminhar
Thiago de Mello
(Parati, 04 de julho de 2013)

Isabel tem um ano a menos que eu. Entendo e me identifico com seus dilemas, suas dúvidas. Expectativas, sonhos, apostas, falhas, enganos, esperas e esperanças de mulheres exigidas pelos tempos, pelas circunstâncias e alguns medos comuns. Trajetórias diversas que se encontram em momento de escuta, cuidado, confissões e partilha de mundos. Por isso olho para o exame de Isabel e me calo. Ela aguarda uma palavra que não consigo dar. Por minutos que parecem séculos, tento, me esforço. Procuro a explicação que não há. Bala perdida, facas no ar que atingem, todas, o peito. Choramos juntas. Aquela história se dividia em antes e depois de 7 letras - linfoma - e mais de 7 mil significados.

Por meses, compartilhamos idas e vindas, decisões, grandes e importantes mudanças e algumas pequenas bobagens. Porque a vida vivida tem de tudo um pouco, do tenro e do profundo. E é dos temperos mais simples que os sabores se tornam inesquecíveis, tal qual a primeira folha de outono, o primeiro passo incerto da criança ou o verso feito sem querer, saído, arrancado dos dias comuns de sol que seca e perdoa a tempestade da noite anterior. Isabel sem cabelos, usando o lenço colorido que lhe compro, imaginando seu sorriso.
Isabel decide resgatar um amor de mãe, muito longe. Muda de cidade. Eu decido me arriscar em outras experiências. Mudo de unidade de saúde e de comunidade de atuação. Anos nos separam.

Viajo. Férias, feriados, folgas, fugas... Pequenas escapadas pela janela da realidade para buscar forças, inspirações, descansos e magia em amigos velhos e novos. Lugares velhos que amo e sempre volto, como um templo em que rezo e busco canções sagradas. E novos caminhos, alguns distantes, outros logo ali, uns fora e outros dentro de mim. Bom se perder e não ter passagem de volta. Esperar que alguns sinais te avisem que é hora de acordar. Pouca coisa na mala, uma lanterninha e um caderninho para palavras e desenhos, confissões e alguns desabafos. Saudades de casa.

De passagem. Lembro de um professor de literatura em Parati. Conversando, disse que era médica. Ele me disse que também era, radiologista, e que tinha largado tudo e seguido outra vida. Falei a ele: "quanta coragem, largar tudo!" e ele me respondeu: "é preciso mais coragem pra continuar". Converso com a moça sonhadora que me serve o café em Taubaté, a Crislaine. Ela fala dos viajantes e ri quando pergunto onde é o Sítio do Picapau Amarelo. Na rodoviária, sem rumo, compro um grilo feito de folha de bananeira pra ser meu companheiro. Em Soledade de Minas, quando a Maria Fumaça passa, uma menininha se apronta na plataforma, pulando, mostra o caderno do colégio, o desenho de um sol amarelo tão luminoso quanto seu olhar. Quer mostrar sua arte, mesmo para os que estão chegando e se despedindo. Tento tirar uma foto, faço um desenho...

De passagem. Em São Lourenço, faço um amigo que precisa aprender a se aventurar, navegar na vida. Deixo o grilo de bananeira de presente, como uma passagem, um abrir de porteiras. Blecaute na cidade e guio as pessoas com a lanterninha. Na parada de ônibus pra Caxambu, encontro uma velhinha que me oferece uma bala de goma, a minha predileta. Encontro no parque das águas, um coração desenhado em uma pedra e dentro, um nome: Crislaine. Seria a mesma de Taubaté? Ou seria o sopro de um anjo me alertando que o melhor das viagens são as pessoas? Já era hora de voltar.

De passagem. Admiro os belos nomes das cidades, vistos nos ônibus, de partida da rodoviária: Uruburetama, Itapipoca... Sento no coreto da praça e lembro de sonhos e paixões antigas. Abraço a mangueira de Baturité, a figueira de Florianópolis e sinto todo o carinho da terra, da seiva e dos ventos. Em uma esquina fria do extremo sul do Brasil, um velhinho encurvado de poncho negro passa por uma casa verde forte. Quase peço para parar o carro, pra registrar a imagem que resume a solidão e a eternidade do pampa. Sim, as viagens também são feitas de fotos que não tiramos. As que ficam para desenhos em alguma tarde de inspiração, saudade e chuva.

De passagem. Faço um poeminha com nomes de ruas e as ruas me lembram poeminhas de Cora Coralina, Fernando Pessoa, Vinícius, Leminski... Mário Quintana, sexta-feira, minha cidade. Mais uma pequena jornada. Pergunto ao motorista se o ônibus vai até a rodoviária. Ele responde que sim e uma moça também me afirma, com a cabeça, que sim. É Isabel. Sorriso de sempre. No pequeno trajeto, ela me falou que estava de volta, que a vida deu uma virada, que havia se desprendido de muitas coisas, que estava feliz. Quanto tempo? Quantas coisas vividas? Ah, nem dá pra falar assim, balançando em um ônibus em plena sexta, viagem marcada, de passagem... Despedidas de viajantes em suas próprias terras.

Semana seguinte. Fila ziguezagueante para a recarga do cartão das passagens urbanas. Olho para o lado: Isabel. Nossos olhares se encontram novamente e sorrimos. "Estamos nos encontrando demais, não acha?", digo. E ela me responde: "é o destino!". De novo, no meio do turbilhão, indo-vindo, na espiral da fila, do tempo, da vida. Saio com o cartão cheio de passagens e a alma vazia, com a sempre sensação de não ter dito algo, não ter abraçado, não ter batido a foto. Sei que vou entrar no próximo ônibus e continuar a viagem cotidiana. Sei que não haverá palavra, imagem, traço, ideia que possa traduzir o brilho de vê-la, comprando passagem pra seguir viagem, vivendo, vivendo...

Escrevo para me desculpar, me redimir de vazios, fotos não tiradas, abraços não dados, encontros e despedidas que desejo guardar. É preciso mais coragem para continuar, me disse o professor. E enquanto continuo, Crislaine me desperta com seu café e o nome escrito na pedra. O sabor da bala de goma da velhinha me vem com a lembrança do meu amigo que herdou o grilo de bananeira e a minha esperança de vê-lo mais liberto de si. Meus personagens saem da esquina fria do pampa, da praça, da estrada, das paradas, dos trilhos, das ruas, do poema, do coração. A menina do trem, do sol, me acena, orgulhosa e terna. Ao lembrá-la sumindo, sumindo, sumindo na estrada, tenho a certeza de que estamos sempre de passagem. Nossos caminhos, filas, espirais, estão aí, nas rodoviárias da vida, nas esperas, nas viagens, nas pessoas que encontramos e perdemos e nessas palavras aqui, que são, na verdade, resgate, tentativa do abraço, do traço, do desenho, da linha do sorriso de Isabel.

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