Três grandes inspiradores: Jesus, Marx e Paulo Freire


Uma perspectiva ampliada de trabalho em saúde exige visões panorâmicas da realidade que permitam situá-lo no contexto da história humana de luta pela emancipação e felicidade. Querer orientá-lo apenas com saberes técnicos operativos induz a um grande empobrecimento de suas possibilidades. Este empobrecimento simplificador é útil para os que querem apenas usar a ação em saúde com objetivos comerciais ou como instrumento de dominação política. Trabalhadores alienados são muito úteis para operar instituições, cujos fins últimos não podem ser revelados publicamente. Para isto, se adorna as propostas de trabalho com palavras bonitas e cheias de boas intensões e se foge do debate mais amplo com as análises bem estruturadas sobre a realidade social presentes nas tradições históricas de espiritualidade, na filosofia e nas ciências humanas e sociais. Não basta se entregar ao trabalho em saúde com paixão e boa intensão; é preciso também de uma visão crítica consistente. Para isto, é preciso estudo e debate.

O cuidado da saúde é um dos trabalhos mais antigos da humanidade. Seus trabalhadores, em todas as épocas da história, tiveram uma enorme relevância social. Alguns deles se destacaram e se tornaram referências simbólicas importantes na cultura de seus povos. Em geral, eram pessoas que se preocupavam muito com leituras e discussões filosóficas, religiosas e políticas, além do estudo dos detalhes técnicos de seu trabalho. Esta tradição milenar de grandeza profissional precisa ser continuada neste momento da história de crescimento, nunca antes visto, do individualismo voltado para o consumo compulsivo de mercadorias, o gozo privado de prazeres e a obsessão pela diferenciação e distinção pessoal em relação aos outros. O sentido comunitário ficou encoberto pela glorificação do sentido individual. Trata-se de um momento histórico em que enormes instituições empresariais e governamentais conseguiram construir sistemas de controle ideológico complexos e sutis, que deixam os interesses de lucro e domínio mostrarem-se mascarados, adocicados e desejados pela inculcação e difusão de sonhos individualistas, através dos meios de informação e de difusão cultural financeiramente controlados. A dominação ficou parcialmente adocicada e é atraída pelo anzol da sedução das infinitas e mirabolantes promessas de consumo e prestígio, oferecidas para indivíduos competitivos e espertos. Mais do que nunca, é preciso valorizar visões ampliadas e críticas que possibilitem vislumbrar o sentido histórico do trabalho em saúde. Isto tem exigido muito esforço e enfrentamento.

Nos centros formadores de profissionais de saúde e nos centros de pesquisa de novas práticas e tecnologias de assistência, tem sido usual o banimento de estudos filosóficos e sociológicos sobre a realidade de saúde. O debate crítico sobre os propósitos das instituições, o sentido das práticas assistenciais e os interesses subjacentes ficam fora dos espaços planejados e apoiados de ensino e pesquisa. Soam como perda de tempo e energia. O importante seria se concentrar apenas nos detalhes técnicos do trabalho em saúde e sobre o que é imediatamente operacional. Mesmo a saúde coletiva está dominada por discussões sobre conhecimentos instrumentais para gestão institucional. Expulsaram as grandes teorias e os grandes pensadores pela porta principal destes centros formadores e de pesquisa. No vazio do debate filosófico e sociológico mais amplo, criou-se um ambiente propício para o domínio da ideologia comercial e política do comando institucional. Ideologia é a justificativa, com aparência racional, de interesses não muito explícitos. Essa ideologia vai entrando pelas portas dos fundos e gretas das paredes destas instituições e pelas leituras que cada profissional vai fazendo nos meios de comunicação dominados financeiramente pelos mesmos interesses.  Assim, o pensamento dos profissionais de saúde foi ficando dominado, de forma semiconsciente, por conceitos preconceituosos e mesquinhos sobre a realidade. E o trabalho em saúde foi perdendo sua beleza, sua audácia e o seu sentido mais amplo.

Muitos profissionais de saúde resistem e lutam contra esta tendência. Buscam se inspirar nos grandes pensadores da história da humanidade. Priorizam o debate crítico sobre suas práticas e sobre a realidade em que atuam. Participam de movimentos sociais voltados para a difusão deste debate e das ideias que acreditam importantes. Surgiram, então, vários grupos teóricos e entidades que muito têm ajudado nesta luta contra o empobrecimento do trabalho em saúde pela sua submissão parcialmente escondida a interesses comerciais e de legitimação política dos grupos dominantes.
Vários grandes pensadores vêm sendo valorizados por este movimento de resistência. É esta ampla diversidade que assegura um debate mais amplo e envolvente. As ideias presentes neste conjunto de textos estão francamente influenciadas por três destes pensadores: Jesus, Marx e Paulo Freire. Nenhum deles era profissional de saúde, mas forneceram perspectivas ampliadas para o entendimento do trabalho em saúde.
Jesus, entre outras coisas, trouxe para o trabalho em saúde uma perspectiva nova de amor: o amor ágape voltado para quem é apenas próximo, ou seja, aquele que não é nem amante, nem familiar e nem amigo. É algo muito importante para entender o envolvimento de coração que muitos trabalhadores de saúde têm com seus pacientes e suas comunidades. Marx muito contribuiu para o entendimento da dimensão política e econômica do trabalho em saúde e para apontar uma perspectiva de seu engajamento na superação das estruturas sociais reprodutoras da injustiça e da desigualdade. Mostrou a importância do enfrentamento, não apenas de situações individuais e comunitárias, mas também de modos de organização da produção da riqueza econômica e da política para a conquista da saúde. Paulo Freire sistematizou um caminho de integração entre as contribuições de Jesus e Marx e refinou os caminhos da ação pedagógica necessária para a emancipação. As contribuições de cada um serão discutidas em textos seguintes.

Outros grandes pensadores, como Michel Foucault, Deleuze, Espinosa, Freud, Jung, Martin Buber, Edgar Morin, Habermas e Boaventura de Sousa Santos, têm sido valorizados no setor saúde. Explicitar estas referências teóricas mais amplas ajuda a tornar o debate mais franco e produtivo. Os grandes teóricos conseguem explicitar, de forma mais ampla e organizada, uma determinada perspectiva de análise da realidade. Mencionar a centralidade do pensamento de um ou mais destes teóricos, em sua prática, ajuda a tornar mais compreensível e clara a perspectiva que a orienta, contribuindo no diálogo entre os vários profissionais de saúde.

Além dos grandes pensadores que conseguiram criar perspectivas de análises da realidade e de intervenção amplas e articuladas, temos ainda intelectuais que vem pensando a aplicação destas perspectivas para contextos específicos de prática. Muitos sanitaristas e outros profissionais de saúde têm feito este trabalho. Em cada região ou instituição há ainda profissionais mais vocacionados para o trabalho intelectual que atuam como mediadores entre os questionamentos locais e as discussões teóricas mais amplas. Alguns professores, lideranças de movimentos sociais, profissionais locais, pastores, comunicadores, familiares, ativistas culturais fazem este trabalho para públicos menores. Na verdade, todo trabalho pedagógico é também uma mediação entre as ideias mais articuladas de leitura da realidade e as questões emergentes no cotidiano da vida.
O ser humano tem fome de entender amplamente a realidade. Não quer apenas curtir, sobreviver, interagir socialmente, ser amado, formar família e transformar a realidade próxima; é um ser curioso que carece situar sua vida particular diante de sistemas de ideias que lhe permitem ter um entendimento amplo da realidade. Mas nem todos têm condições e facilidade para investir no trabalho de organizar o pensamento. Este é o trabalho dos intelectuais, mestres e dos sábios existentes nas comunidades. É um trabalho exigente, muitas vezes não reconhecido. Educar e lutar pela justiça, liberdade e democracia é também ampliar este processo de elaboração e organização do pensar para toda a sociedade, principalmente para os mais pobres, oprimidos e marginalizados. O entendimento amplo da realidade é imprescindível para o ativo protagonismo de cada cidadão na reconstrução da nação.

Eymard Vasconcelos, agosto de 2013Este e outros textos meus estão sendo discutidos na lista de discussão http://br.groups.yahoo.com/group/dialogando_/


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