10 HISTÓRIAS SEM FIM (FICÇÃO, MAS NEM TANTO)

Ernande Valentin do Prado




1.
- Alô...
- Oi, quanto tempo.
- Pois é... Sonhei com você essa noite...
- Conta...
- Eu pedalava e passei em frente da sua casa. Você estava no quintal e me chamou para entrar.
- ...
- Quando acordei, uma coisa não me saiu da cabeça.
- O quê?
- Por que você me chamou para entrar?
- Eu não faria isso, você sabe...

2.
Honestamente?
Às vezes não sei se ainda acredito mesmo.

3.
Se eu fosse capaz de levar desaforo para casa,
sinto que seria mais fácil.
Não seria confundido
nem julgado apressadamente.
Se eu fosse capaz de me calar,
de aceitar que a injustiça é inevitável,
seria mais aceito.
Não me mudaria tanto de terreiro.
Sei não,
talvez eu não fosse eu
e não fosse reconhecido em casa,
no trabalho
e nem nas fotografias.
Meu estômago doeria,
não me olharia no espelho.
Talvez se eu não tivesse tanta urgência,
tanto medo de ser confundido com qualquer outro,
não me confundiriam tanto.
Talvez, (só talvez), pudesse sorrir mais,
passar despercebido,
até ser confundido.
Mas eu não seria eu,
talvez um outro,
mais aceito, mais sorridente,
mais feliz (talvez), mais conformado (talvez),
mas não eu.
Talvez, (mas só talvez).

4.
O dente doeu a noite toda.
Quando o dia amanheceu, ela não aguentava mais. Precisava cortar os pulsos (de alguém).

5.
Pensou no suicídio como solução, mas era óbvio demais.
Tudo bem se matar, mas ser óbvio é inaceitável, (pensou enquanto caminhava até o consultório).

6.
Ela ateou fogo ao próprio corpo, depois se atirou no mar azul (lindo até não poder mais).

7.


8
Minha filha de cinco anos volta da escola. Pergunto:
- O que aprendeu hoje?
Muito séria, responde:
Aprendi a ficar quieta e não bagunçar para poder brincar no recreio.

9.
Uma vez eu vi, (ninguém em contou), meninos que viviam na rua tomando banho no chafariz da Boca Maldita (Curitiba).
Um menino de apartamento ficou olhando (com inveja) e quando não aguentou mais, tirou a roupa e foi brincar com eles.
Algumas vezes o encontro acontece e crianças podem ser só crianças (por alguns minutos ou horas).
Fiquei lá olhando, morrendo de inveja por não ser mais só criança.

10.
O ponto de partida é a casa. Não a foto da casa, mas a casa abandonada.
A CASA
A casa foi erguida há muitos anos por Sibilino de Oliveira, que após passar 25 anos em Santos, comprou as terras de Frederico Paiva, ex-patrão de seu pai.
Sibilino ainda lembra o dia em que, com cinco anos, disse a seu pai:
- Ainda vou ser dono destas terras.
O pai, seu Pedro da Cabaça, não era muito de rir, mas teria rido do sonho do filho. Dava graças a Deus todo dia por não passar fome. Sonho de possuir uma terra já teve, mas não lembrava mais quando foi exatamente.
Sibilino cresceu, foi para o sudeste, onde não se sabe exatamente o que fez para juntar o dinheiro. O que foi apurado, diz respeito a sua volta, em um dia que choveu no sertão. O caminhão estacionou em frente a casa e descarregaram tudo que tinha, o que não era muita coisa.
A esposa não parecia muito contente, mas os três filhos faziam festa com as poucas cabras que rondavam o quintal e com o cachorro Curisco.

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