Dos buracos de Coelho e das Espirais. Julio Wong Un




Sempre que nos guarnecemos de tormentas e de dias áridos sabemos onde mesmo procurar. Na passagem entre mundos que é o buraco feito pelos coelhos de gravata. Sem esquecer o relógio e os óculos delicados de metal. 

Mas essa certeza, essa sabedoria arejada só veio a ser viva depois dos 50 anos. A idade onde tudo recomeça. E onde sentimos esse nascimento dentro da gente, a mão que se estende do nada para o todo. 

E a imagem clara se desenha dourada na Rocha negra. Uma toca, um buraco, uma história completa. 

E ai, distraídos, andamos pelas ruas sem nome, catamos cores e instantes desarmados. A forma amorosa do mundo, tão esquiva como os animais se extinguindo da Terra, se revela como ao velho meditativo - que quando se distrai, alcança. 

A mão roça os dedos. Dentro da pele infinitas estruturas. A espiral do mundo converge a um respiro unificado. 

Se abrisse o livro na descrição do beijo encontraria a página amarelada e vazia - com a pequena exceção de canto inferior soturno: "faz". 

E sim. Certo. A tarde da fotografia era dourada. E essa luz carícia todo desenhava. Luz de Klimt, brinquedo de Matisse, palavra de Gauguin, rede descanso de Tarsila. E por ai vai. 

Ate que o buraco negro nos surpreenda de novo e fiquemos sem outra saída (muito desejada) que pular sem fim através dele. Uma e outra vez. Assim mesmo há de ser. 




Rio de Janeiro: porque o corpo dói e a alma canta. 
Setembro 2013.

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