A Dias D'Ávila (2) - De certo que o tempo pára aqui...

Muitos anos atrás, adolescente talvez, eu li um conto. Um conto do peruano Julio Ramón Ribeyro. Que morava naquela época em Paris. Para um escritor jovem - candidato a poeta, discípulo de leituras e autores amados - todo esse romantismo francês, bohémio e literário era um fator de desejo e motor de escrita. Anos depois, já perto da minha vinda temporária ao Brasil (ainda, depois de 20 anos, eu sinto que é temporária, tão forte ainda é a minha relação com certas paissagens espirituais peruanas) eu conheci brevemente ele. Já com o câncer de pulmão que o mataria, com o fígado meio estragado e pequeno, ele passou de bicicleta - eu tinha lido que ele passeava de bicicleta pelo bairro de Barranco desde que tinha decidido voltar ao Peru para, talvez, se despedir melhor dos amigos e familiares. Pequenino, magro de doer, cabelo espetado, olhar vivaz, Julio Ramón olhou rapidamente para mim e sorriu. E depois sumiu na noite do bairro. 

Eu esperava Mercedes (Meche) que dava aulas com o olhar da utopia da cor verde amarelo dos gatos. Olhar que ainda hoje transforma o mundo na medida que ela passa. Imagino como os seus estudantes na época - ela de 28 anos - eram tocados pela empolgação e pela seriedade dessa jovem que nesse tempo eu amava - e sobre quem hoje só sinto gratidão e afeto. Quando ela saiu deu pouca importância à minha empolgação. Conheci Ribeyro. Caraca. E dai?

O conto era sobre o desespero do personagem - que na verdade era a própria cidade - em relação a uma onda de calor e de ausência de vento ou brisa nenhuma que levaria a coisas terríveis que, acho, não aconteceram dentro do conto. Conto tenso, conto bem de peruano migrante, outsider eterno, como eu sou agora neste país gigante; e que é tão complexo que os próprios nascidos aqui renunciam rapidamente à ambição ou sequer sonho de comprender ele, de abranger ele, de mergulhar nele e suas quase que infinitas culturas. Acho um pecado enorme. Mas entendo. O universo cega e destrói. E o Brasil é um universo. Já o era o Peru, que eu amo e amei, descubri e ainda espero redescobrir.

Eu, faz 19 anos, me dedico no meio do meu cáos pessoal, a uma compreensão poética deste país. Meus empregos, meu engajamento frágil mas amoroso com a educação popular, e o acaso e os passeios, me permitiram viajar quase todo este país como na canção doce do Luiz Gonzaga.

Mas.... o conto. O conto vem a tona nesta noite primeira em Dias D'Ávila. Na casa da família do Prado, que nos acolhe com amor grande. A longa casa como serpente. A casa ao lado dos galos, das galinhas, do campo aberto e do cavalo cansado. A casa com um gato dengoso que persegue o olhar dos humanos, a possibilidade sempre existente de um afago, de um carinho. A casa recheada de belas fotos da família e sua caminhada, em molduras feitas com criatividade e delicadeza pelo Ernande e todos. Casa que eles transformaram em lar de forma rápida, como rápidos são os tempos de mudança deles.

As cadeiras de metal balançam (ninam) com ruído imperceptível. Nelas sentamos. Nelas sentimos o ar sonoroso e quente da cidade. Dentro é mais quente que fora. Mas fora tem mais mosquitos. Diz apocalíptico o Ernande.

O único pedido da Larissa (doce, suave, fraco, quase uma prece) é dar um jeito no Ernande. Eu? Quem sou? Só um chinês meio perdido. Um migrante como vocês. E peruanos e bolivianos somos os nordestinos da América Latina. Junto aos colombianos somos os mais destratados pelos funcionários de imigração do mundo todo. Claro que a cara de chinês - só cara, mas ninguém acredita.... até as pessoas mais próximas dizem: o chinês... e eu.... chinês por onde?

Falar ao Ernande. Ser escutado pelo Ernande. Dizer ao Ernande. Convencer que a paciência é uma das maiores virtudes. Entretanto paciência e alienação são meio difíceis de serem diferenciadas. Mas há uma diferença fundamental: o amor pelos outros. Construir a paciência, não por nós mas pelo nosso amor profundo pelos outros. Parece papo eymardiano mas não. É simples constatação cotidiana. E a paciência traz as continuidades. E a paciência permite ver o brilho na aparente opacidade. Nossas raivas e lutas heróicas devem ser moderadas, domadas, enxergadas no seu real tamanho, pela doçura dos que amamos, pelo bem-estar das crianças, pelo compartilhar do simples cotidiano melhorado (uma tarde juntos, um pequeno passeio, uma brincadeira, admirar o crescimento de todos).

O cotidiano é mágico. E nós sentimos isso em Dias D'Ávila. Nesse primeiro dia. Na presença de luz da Alice. Na doçura da Larissa. Na energia espiritual sobrenatural da Beatriz. No olhar de utopia - misto de mau humor e esperança - do Ernande. Nas pessoas que nos olham e saúdam na rua.... apesar da sensação de depredação e deterioro da cidade, da proliferação assustadora de barzinhos, as pessoas são amáveis, tem gestos simples de simpatia...

O calor oprime. O calor anunciado por todos. Eu, bobo, decido, fechar as janelas e a porta e acender uma vela de citronela. Acordo no meio da noite com o grande calor. Apago a vela. Lembro o conto do Julio Ramón - e mesmo o seu sorriso de adeus nesse passado nebuloso peruano. Abro com medo a janela. O ar é fresco. Ele invade o quarto. Fim da asfixia, fim da angústia, fim da dúvida de mundo e de cosmos. 

Dias D'Ávila ensina. No olhar profundo e cuidadoso. No construir pequenas coisas para que perdurem. Nas conversas ao redor do café delicioso da Larissa; e das maravilhas simples que saem das suas mãos -- nessa cozinha que é seu orgulho. No mundo complexo e cândido das crianças. Na presença dos que amamos, sempre perto, sempre presentes. Nas imágens que caçamos. Nos instantes transformados em fotografia.

Abro a janela. Perco o medo aos mosquitos. O calor acaba. E o conto, aquele da minha adolescência, também acaba. Respiro a Bahia. E a pele do mundo é a pele que amo.



Porto Alegre, 07 de Outubro de 2013.

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