Do criar e destruir (ou: de como o que termina renasce)


Acompanho uma jornada de três dias de pesquisas e reflexões sobre Saúde Bucal Coletiva. Campo que pouco conheço, mas sempre intui interessante e difícil. Difícil pelo desafio de distanciar os dentistas das suas tecnologias perforantes e obturativas. Ou de mexer com as formas e lugares de dentes e maxilares. Enfim. Desafio. Mas me surpreendo gratamente a cada conversa.

Na hora do café - intervalo que sempre traz o melhor que qualquer evento - me aborda um dos professores. Vindo de Curitiba. Uma pessoa singular e interessante. Depois de conversas preliminares logo me pergunta: o que vai ser da Educação Popular? Com sua crise e seu final de lista e tal....

Vou logo me defendendo: olha, digo; acho que está perguntando à pessoa errada. Eu tenho opiniões que são conflitantes à corrente principal. E, pior, eu terminei com a lista, coisa que deixou muitos zangados; e que, indiretamente, tem me levado a uma certa exclusão de processos mais recentes, como cursos e etc. Exclusão  que, sinceramente, me deixa feliz.

Ele sorriu e disse: eu via a decadência desses diálogos e da Educação Popular faz tempo e ficava pensando: quando alguém irá por ordem nisso? Alguém que tivesse relação com a tradição e com a origem dessa lista. Dai você veio e mandou aquela mensagem que eu gostei muito e acabou com a lista.

Eu pensei. Como não soube disso? Quantos aprovaram? Como e por que aprovaram? Cabeça cheia de perguntas e dúvidas. E, ainda: quais foram as conseqüências? Acertei?

Comento rapidamente a ele: fiz isso depois de uma apendicectomia. Na convalescência, depois de uma crise simbólica que a Janaina - amiga e médica transpessoal - me disse que era própria das grandes viradas da juventude, das mudanças intensas. E acho que ela, como sempre, acertou.

Enfim. Eu faz tempo nem lia essa lista da edpopsaude, de tão mesmice e tão chatice que ela se tornou. Quando um dispositivo (palavra dos colegas pós pós pós) gera sofrimento e permite que o pior das pessoas se manifeste, estamos na frente de um certo fascismo à flor da pele. E o pior tipo de fascismo é aquele que não tem rosto, não tem vilão, não tem ninguém para ser "amoroso contra".

Mas a doença nos faz repensar, revisar, revisitar, reinventar. Doença - quando vai embora vagarosa - nos faz ser ousados e saudosos ao mesmo tempo. E li.

Coincidência, fadada ou não, estava tendo uma série de pugilismos de baixo calão - golpe baixo, ao dizer do boxe, esporte meio fora de moda e pouco massacrante se compararmos com os novos que são as fontes atuais de lucro das corporações.

Lembrei da memória. Das risadas. Da idéia espiritual de espaço de diálogo virtual como casa e como lar. Foram 13 anos os 4 últimos muito chatos. Terminei com a lista.

Volta e meia esse fato vem à tona. Alguém me diz: você é o Júlio da Educação Popular né? E a lista? Ou: você é amigo do Zé Ivo? E a lista?

A lista foi-se embora. Renasceu na forma de uma pequena lista que não sei quem criou nem sei quem participa (isso porque por erro de principiante isso foi ocultado na página do grupo no yahoo). Sei que tem umas 40 pessoas. Uma mensagem por semana no máximo.

Ao que isso irá levar? Só deus sabe. E se o leitor não acredita em Deus: só a patafísica sabe (aquela física dos acasos e das coincidências inexplicáveis). Mas o certo é que, como no final do filme de Alan Parker, The Wall, depois da queda do muro, as pessoas começam a sair dos abrigos antiaéreos e a se reconhecer.

Confio no poder dos jovens - seja qual for a idade desses jovens, de 10 a 90 anos. Confio na esperança das misturas não domesticadas. Não essas misturas medíocres ao serviço da imagem e da propaganda de formas autoritárias de gerir o mundo da saúde. Mas de formas inesperadas, vindas dos ventos, dos rios grandes ou pequenos, da pessoazinha mais inesperada, a que era a caladinha na festa, a que parecia que não mas que sim.

A perspicácia de jovens e crianças é insuperável. Alice, a pequena filha do Ernande e da Larissa, que fez 6 anos quando visitamos eles no meio da Bahia, nunca tinha escutado sotaque tão estranho quanto o meu. Ficou intrigada, é claro. Era algo que ela não podia controlar nem explicar. Depois de muitas tentativas e perguntas, algumas sedutoras, algumas francamente zangadas, ela concluiu com sabedoria: você fala português mas finge que está falando espanhol, para nos enganar.

E ficou tranquila. Ela não acreditava que eu falava espanhol, porque as Chiquititas cantavam diferente. E ela não acreditava que eu falava português, porque nunca tinha escutado tamanha distorção de acento e sotaque.

A conclusão dela foi genial. A usarei muitas vezes para que as pessoas me desculpem ou riam comigo. Rir de mim mesmo, sem ser solene, sem pensar em estúpidas superioridades, me faz bem.

Escrevo isto desde a cidade que mais amo, que me faz mais feliz pelas paissagens, lugares e encontros. Pela magia das suas pessoas tão diversas de mim - brancas, loiras - mas tão mais acostumadas com os fingidores de espanhol.

Aqui, no meu micro mundo, renovo a minha esperança nos renascimentos e transmigrações. Quero depois ser caramujo. Ou beijo. 


















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