Textos Velhos (JWU): Do Centro de Porto Alegre e das Coxas


Lá eu, me doendo de mim mesmo, enfiado no quarto de hotel. E recebo a dica do Regis: show pocket 12:15 na rua dos Cata-ventos.

Amo cata-ventos. Soprar neles. Ver as cores se mexer. O encantamento que eles produzem nas crianças. O sorriso dessas. O olhar além do objeto. Tudo o que o adulto persegue com tanta angústia. A criança e o cata-vento.

Jogo a preguiça, a ressaca, as dores profundas do espírito ingênuo... cata-ventos, Mario Quintana, passarinhos...

Rua dos Andradas velozmente. Cheio de portoalegrenses. Poucos outsiders como eu. Quem sabe por trás desse olhar desconfiado exista um camarada.

Ao chegar, pés doloridos de sapatos novos, quatro mesas, cadeiras e um palco pequenino, adaptado. Sons, ecos, familiaridades, poesia deixada por acaso - enganando bem a urdimbre cuidadosa da palavra - música latino-americanas. Afinal, sou isso, acredito. Não um chinês anônimo nem dono de pastelaria nem outra coisa... um latino apaixonado pelo que o continente tem de melhor: sons, poemas, sensações delicadas... risos e piadas... beijos extensos.

E, no meio da pequena multidão fumante e chimarrante... aquelas coxas intermináveis de uma mulher interminável. Tão bela que ninguém iria imaginar transar com ela, tão perfeita e pirua, tão de outra dimensão que o show ficou silencioso e ninguém podia fazer mais nada do que pensar nela. Homens, mulheres, bichos... as pernas perdidas como colunas, fazendo parte da Casa da Cultura.

Ela comendo sorvete picolé, os outros rodando com canções e tempos.

Ficou registrada nas memórias. Do lado do palco, comendo picolé, vestida como candidata a executiva de sucesso, altos saltos dolorosos, e o corpo que talvez fosse presente da espécie ou de algum deus que se esconde nos desejos.

No fim de tudo, discos autografados, fotos e vídeos e conversa em castelhano com Sebastian Jantos, fui-me embora... lento... fazendo tempo para esperar o tempo do meu amigo Regis que sempre é tempo Outro, tempo entre os tempos....

No meio da Rua dos Andradas a mulher gigantesca, estátua de templo perdido, tão extraordinária que ninguém ousava transformar em desejo real... mostrando a saia colada e a bunda que a coroava como ser de mitologia, quase uma aparição digna dos sonhos do Quintana.

E eu, perdido em ressacas, constatações de finais e estupidezes de cálculo minhas, fui sorrindo e escutando blues pela cidade toda....

Assim, visões do sobrenatural, mesmo que não seja o religioso ou o sagrado convencional, tem o poder de nos transformar.

Agradeço os pedaços de fetiche e à dona temporária deles.

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