Textos Velhos (JWU): dos tempos portoalegrenses e Amélia (10/05/2012)

10/5 20:00

Vindo à cidade mágica de Porto Alegre fico à espera do tempo da troca. Da conversa amada e amorosa. Dos papos críticos, lúcidos e inspirados. Da companhia bela e especial. Das caminhadas lentas onde criamos e recriamos o mundo da noite.

Isso tudo veio com a Amélia. E eu já sabia. Ando às voltas com a re-descoberta consciente de uma habilidade pessoal minha, longamente alimentada e cuidada (desde os 13 anos pelo menos), de afinar a intuição sobre a Beleza do Mundo e das Pessoas. Não acho essa prática especial nem exclusiva. Muitos têm; e muitos têm esse senso de beleza do mundo mais afinado.

Mas o fato de ter re-descoberto ele recentemente, me deixa mais atento ao mundo. Brinquedinho recuperado, doce de infância degustado novamente.

Nas idas e vindas, distâncias e proximidades no mundo social da Educação em Saúde - especialmente a que aqui na América Latina chamamos com militância e memória de Educação Popular - eu tenho identificado, com esse senso de intuição que a prática cotidiana da arte me trouxe, pessoas extraordinárias. Elas, usualmente, discordam: eu sou tão simples, eu sou tão fácil de ser lido, eu sou transparente, meu cotidiano é tão chatinho, etc. Isso faz delas mais extraordinárias. A Amélia, como eu esperava, discordou.

A dimensão estética do Ser e do Viver é dimensão abafada. Produzir beleza no cotidiano foge à consciência. Mas se manifesta em textos, em sons, em cores, em cheiros, em desejos, em pequenas e imperceptíveis formas de ir transformando o mundo - desde o invisível, passando pelo microscópico, até dimensões mais largas - mas não mais complexas nem mais importantes. Atender 12 pacientes na Vila Dique é tão surpreendente como ajudar a escrever uma Política Nacional para o SUS. Alguém discorda? E, é claro (muito intensamente) nas pessoas populares, nossas mestres, se manifestam nos gestos, nas ternuras, nas lucidezes, nas ecologias amorosas. Não são todas. Generalizar é empobrecer o mundo e suas surpresas encantadoras. Mas são, e estamos bem servidos, acredito.

20:04. Saindo da UFRGS (que se pronuncia guturalmente, engraçado) os parques nos abraçam. As luzes da cidade e dos carros formam imagens brilhantes. Recentemente também comecei a amar novamente a noite. E a noite combina bem com a Amélia.

De taxi veloz e rabugento chegamos ao bairro dela, a Cidade Baixa, onde tem bloco de carnaval, onde tem pessoas e lugares especiais, livrarias ecológicas, onde ela é saudada e querida. O bairro, neste caso, é também a pessoa. O bairro que me acolhe é a pessoa que me acolhe. 

20:40. Parangolé. Uns senhores muito idosos irão fazer músicas de antigamente. A conversa corre solta, leve. Depois fica dura, de amigos que confiam os desencantos, as lutas que magoaram, os sonhos partidos. E depois também a re-invenção da utopia, a renovação do acreditar, a busca por dimensões mais delicadas e complexas do fazer da Educação Popular, muito além dos estereótipos que nos empobrecem e nos colocam em pequenos cubículos e nos impedem o sentido fundamental da clarividência crítica.

A Renata se une a nós, cansada mas sempre bem humorada. Muitas coisas boas e únicas aconteceram confirmando minhas intuições.

Eu, que ando meio desligado, com dificuldade para entender certas feridas não cuidadas ou aprofundadas, e desgostando das meias palavras, das meias lealdades, das meias utopias, fui renovando esperanças e acreditando no instante da criação de projetos de futuro.

Essas moças ultrapassaram em muito intuições e expectativas, instauram um tempo outro para a Educação Popular. Aliam sensibilidade e criticidade.

Mas isso é só opinião pessoal, simples e encantada. Por tanto, não generalizável e menos ainda serve para impor nada a ninguém. Eis a agonia boa do poeta.

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