A colcha de retalhos


    Chega um momento da faculdade que você percebe quase todos ao seu redor infelizes, tristes com o curso, com o ser médico, abatidos porque estão internados, porque são pacientes. Gira um certo descontentamento por todos os motivos desde a dor até a carga horária. A felicidade é estar no lugar certo e poder ser sem fazer o tempo inteiro. E foi nessa felicidade original que cada um constrói para si que decidi fazer da medicina meu autoconhecimento, não que eu consiga fazer isso o tempo inteiro, mas é a minha tentativa.

    Caso contrário a vida é muito curta para ser pequena. Sempre vai faltar alguma coisa, o que importa é saber se isso, mesmo depois de suprir essa falta, irá me fazer plena ou deixar-me mais vazia. Eu preciso transbordar. Hoje, a Liga de Educação em Saúde estava lá junto com a comunidade para o anúncio da implementação da Estratégia de Saúde da Família na Comunidade da Barra.

    Estava um dia de sol, mas de vento gelado, como são a maioria dos dias da Barra. Chegamos (eu e a Clarissa) cedo e encontramos o enfermeiro Beto e sua esposa Rosane no CTG – Xirú da comunidade. Apesar de dias de cansaço e de certo desanimo, porque somos todos humanos, sempre tem aquela força e energia para encontrar pessoas especiais que tem um sentido muito mais profundo do que apenas ter, mas de fazer diferente. Sair do mundo de concreto e diretrizes médicas é revigorante. Já chegamos e começamos a organizar o espaço, varrer todo o salão central, carregar os bancos, organizar o local para a recepção da Secretaria de Saúde e dos representantes da Estratégia de Saúde da Família.
Foto: Clarissa Côrrea
     Sabe, mesmo que a ciência queira subdividir as patologias, sistematizar o corpo humano, o ser humano não nasceu com manual de instruções. A comunidade não tem manual de instruções e é esse eterno desvendar é que faz o tempo valer a pena. A parte mais marcante da reunião foi certamente a Suzi (líder dos Grupos de Artesã da Barra) perguntando e cobrando sobre a Construção do Conselho Local de Saúde e saber que essa movimentação que começamos com conversas sobre o Sistema Único de Saúde e a tentativa de construção do Conselho Local de Saúde influenciaram na decisão da implementação da Estratégia de Saúde da Família na Barra.
Foto: Clarissa Côrrea
     Essa vontade de ser mais de cada um é o que faz não sentir medo de ser feliz, de poder estar completo junto com os outros, de compreender que mesmo completamente diferentes e originais, somos muito iguais, independente de formação, faculdade, graduação, MBA, mestrado, doutorado, alfabetização. Não é essa educação de níveis que nos faz saber mais ou menos, é perceber as nossa pluralidade humana. No final da reunião me perguntaram (o pessoal da prefeitura) se eu morava na comunidade, eu disse que não, mas é absolutamente incrível perceber que eu faço parte dela, mesmo morando a 20km de distância. Afinal, todos fazemos, mas nem sempre nos damos conta.
    Fazemos parte da mesma linha que costuram os pedaços de nós em uma colcha infinita de retalhos. E devemos parar de deixar a felicidade para a próxima parada, vou ser feliz depois que o ano letivo terminar, depois que eu me formar, depois que eu comprar um carro, depois que eu tiver dinheiro, depois que meus filhos crescerem, depois que eu me aposentar. Deixamos a vida para a próxima estação, enquanto ela se desdobra, como se desdobram as ondas da lagoa na Barra, como se enrola a linha que a artesã costura para formar nossa colcha de retalhos. A felicidade está na Barra, na medicina e por onde os meus pés me levarem, sem paradas ou estações. 

Reunião para conversar sobre a tireoide depois da reunião com a secretaria, nós segurando as colchas de retalho que servirão para a capa do Livro de vivências da Liga de Educação em Saúde.
Voam abraços,

Mayara Floss

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