Anos tempos ciclos








Este é o último texto do ano. Não foram muitos. Mas foram mais dos que usualmente escrevo. Menos, talvez, dos que nasceram em 2012 (2012 foi um bom ano para textos - e para acordar, em geral). 

Mas neste ano, que acaba amanhã, foram melhores, muito bons e bem amados. Aos 51 anos tenho já o privilégio de poder amar o que escrevo. Sou duro com esses textos, muito mais do que anos há; mas sou bom pai deles também: cuido, paparico, estimulo seu crescimento e sua liberdade; me despeço; me desprendo; deixo andar. E não esqueço. Pelo menos tento. 

Posso medir a bondade dos meus anos pela quantidade de textos que produzi. Hoje são poucos. Há mais de 25 anos eram muitos. Densidade e velocidade invejáveis. Eram quase um torrente impensado. Media minha felicidade pelo número de poemas, diálogos, peças de teatro, crônicas, cartas, reflexões, caderninhos cheios de recortes e fotos e notícias que misturava com textos meus. Criar era fundamental.

Vivia caçando vivências para poder, depois, escrever a partir delas. 

Traduzir. Decantar. Destilar. Processos químico-literários. Vida intensa.

Outro bom parâmetro nesse tempo era a quantidade de livros lidos no ano. Bobagem, sei. Mas era coisa de menino. Menino no fundo solitário e muito muito escondido dos outros e dele mesmo.

Além do fato de ser prolífico na produção de textos e nas leituras - devorador, rato, cupim de biblioteca - eu me importava com as datas simbólicas com que o comércio impõe e delimita - perverso - nossos ânimos e nossas esperanças. Achava bem legal o Natal, a passagem de Ano Novo.

Sempre, desde criança, teve concentração de afetos nesses tempos. Família, amigos, namoradas. E, desde adolescente, muita música. Morávamos em um país tenso e violento, com guerrilha maoista, abusos das forças armadas, e o céu cinza e poeirento que caracteriza a capital do Peru. Alguns anos novos ou natais a gente passava sem luz porque a guerrilha tinha explodido torres de eletricidade. Ou algum prédio. Ou carros. Havia toque de recolher. Sem luz, a cantoria continuava; até ficava mais forte no meio da noite. As poucas estrelas de Lima se mostravam. O tempo era lento e valioso.

Nunca nos interessamos muito por presentes, compras, vestidos novos, roupas brancas, fogos de artifício, aglomerações de pessoas, expressão maquiada do vácuo das vidas dos habitantes das cidades. O interessante era o encontro, simples, com músicas e com amigos artistas - ou médicos artistas, que é quase igual.

Minhas tribos eram isso: um som, um poema, um beijo, contar as poucas estrelas - e sonhar com o céu estrelado dos Andes, além do litoral, pensar na próxima empreitada de criação.

No Brasil, parei de buscar. Fiquei adulto. Fiquei escondido no meio dos rituais e das ansiedades de fim de ano, fantasiadas de alegria. Tanto, que hoje não ligo a mínima para esses ciclos. As pessoas me parabenizam. Retribuo por cortesia. Aguento as reuniões, os tumultos, as luzes falsas, os nórdicos suados no trópico.

Mas, depois de alguns anos de inércia e de "ser adulto", procuro reinventar-me. É tão bom acordar, mesmo que o tempo seja de desafios - muito mais complexo do que tocar músicas e inventar percursos poéticos na cidade, como foi nesses tempos.

Mas os anos não pesam. Eles tem sido bondosos. Tais como a vida em geral. Bondade exagerada. Sorte grande. Encontros com pessoas que admirava e admiro. 

Por isso, pela descrença dessas datas, este texto não é balanço, nem é texto de ano novo ou natalino tardio. Simplesmente coincide com o dia último do ano. E, com o pretexto, gostei de lembrar como eu via o mundo nesses tempos, como a cidade sem luz se cobria de sons baixos (rádios de pilha) ou violões e vozes esganitadas, as nossas.

Então, este ano foi muito bondoso, apesar dos relativamente poucos textos. Uma quantidade imensa de experiências e mudanças (interiores, as mais importantes) apareceram com sua luz, seu desafio, seu gozo e sua dor. Mudanças não me invadem; brotam de dentro de mim. E os textos, a palavra, são hoje mais vozes interiores ditas do que invenções.

Os textos voltaram. Eu voltei. As vozes que me habitam e que são eu, o eu que prezo e valoro, e que estavam bem adormecidas, agora são moças saltitantes e recheadas de planos e sonhos. Eu, mais experiente que no Peru dos anos 80, sou mais cuidadoso, cauteloso. Procuro andar sem magoar, ou magoando minimamente. Afinal, profissional da saúde, tento cuidar no profundo.

Mas eu sou e ando. Ando e me reinvento. As metamorfoses dos insetos me representam. O som dos riachos mineiros ou dos vales andinos, cantam minhas músicas. E os textos continuarão a florir.




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