Competência comunicativa intercultural



                A primeira vez que eu tive contato com esse termo “Competência comunicativa intercultural” foi em 2011 no 11º Congresso Brasileiro de Medicina de Família e Comunidade. Estava muito feliz de poder estar em Brasília, mesmo com pouquíssimo dinheiro e ficando na casa de amigos dos amigos da família. O apartamento dos amigos na verdade deu muito certo porque fui parar em um lugar que não posso encontrar outra palavra para descrever se não “abençoado”, porque era um casal vegetariano (e eu liguei avisando antes de embarcar no avião preocupada que não comia carne) que já tinha vivido e rodado o mundo, com muita abertura para conversar e de manhã quando levantávamos já cansados para dar conta dos afazeres eles faziam yoga. Nem preciso dizer que estava em casa e a noite dormi facilmente em uma rede. No último dia, ainda me levaram passear para conhecer rapidamente Brasília.
                Eu estava no segundo ano da faculdade de medicina, o ano semiológico (estudos dos sinais e sintomas), que pode-se referir como a bruxa correndo solta da maioria dos estudantes. E o pior o evento era no final do semestre e eu mesmo assim decidi largar a minha educação bancária para ir para o congresso e levar dois pôsteres sobre a Liga de Educação em Saúde que tínhamos organizado. Evidentemente, que depois isso contribuiu no meu péssimo rendimento nas provas do final do semestre, voltei mais questionadora e insatisfeita com a forma e o que estávamos aprendendo.
                Participei de várias palestras, era algo muito dinâmico para uma acadêmica do segundo ano da faculdade de medicina. Salas simultâneas, temas clínicos, organizações, medicina alternativa. Fiz um cronograma para participar um pouquinho de cada coisa que acontecia ao meu redor. E também estava muito feliz por ter dois textos selecionados para o Cardápio literário do congresso. Tive dois textos selecionados porque pensei, bom vou inscrever dois com pseudônimos diferentes, vai ver um chega lá, e acabaram chegando os dois.

11º Congresso Sul Brasileiro de Medicina de Família e Comunidade - Brasília (2011)
                Era muita coisa para absorver em pouquíssimo tempo. Bebi das várias fontes diferentes como se nunca fosse terminar a minha sede e ainda me lembro com muita alegria e frescor aqueles dias (talvez porque experimentei o tal do cupuaçu e gostei muito). Mas uma coisas que me pescou e carreguei definitivamente para a minha formação foi a palestra sobre Competência Comunicativa Intercultural. Primeiro um médico, que eu sinceramente não me lembro o nome, que trabalhava na Amazônia falou da sua experiência com os índios, das diferenças culturais, do porquê, por exemplo, de uma pessoa picada por uma cobra não poder passar perto de uma mulher grávida, que eles explicou que caso fosse um índio picado pela cobra ele poderia sofrer por sentir que estava amaldiçoando o bebê que iria nascer e se fosse uma índia grávida que visse isso poderia culturalmente influenciar negativamente no futuro da criança e que por isso seria fundamental um tratamento diferente nesses momentos.
                Depois o Igor Claber Siqueira de Minas Gerais fez uma palestra leve e divertida sobre as “folk illness” ou em uma tradução forçada “doenças populares” e eu devo confessar achei muito interessante (isso acabou me levando a coordenar uma pesquisa sobre isso no ano seguinte). Trocamos e-mails e ele me ajudou a coordenar tudo a distância. Com o tempo fui lendo muito sobre o assunto, comprando livros, buscando na internet. E, principalmente, me interessando profundamente sobre o que as pessoas queriam comunicar. O termo apesar de ser longo não foge muito do que pode-se inferir nele “Competência Comunicativa Intercultural” fala sobre a Competência que nós temos que ter para nos comunicar em culturas diferentes, como uma via de mão dupla de troca cultural.
                Quando alguém me dizia “doutora eu tenho tireoide!” eu não queria rir como vejo muitas vezes e queria compreender mais sobre o que a pessoa compreendia por “ter tireoide”, porque por mais que eu saiba onde a glândula se localiza eu não sabia o que era “ter tireoide”. Não foi só a tireoide, foi a “espinhela caída”, a “gastura”, a “boca amarga”. Eles vivenciavam a doença e eu tinha apenas um conhecimento biomédico que mesmo tentando descrever uma dor, não era como a dor que eu sentia. Foram conversas sinceras com benzedeiras e comunidade e o real interesse de compreender sobre o que elas estavam falando, sem deixar meu vocabulário médico esterilizado influenciar nisso (ou influenciar o menos possível). Afinal, mesmo que essas doenças populares possam se basear em premissas “erradas” do ponto de vista biomédico elas geralmente tem uma lógica e ajudam o paciente a enfrentar e conviver com a doença.
                Comecei a criar minhas próprias analogias para tentar dividir o que estava aprendendo, assim como no consultório (e na vida também) cada um leva a sua bagagem (como uma “mala” mesmo cheia de vivências e histórias) e que quando sentamos juntos para conversar sobre uma determinada doença não fazemos nada mais do que abrir as nossas malas em cima de mesa e começar a trocar, é quase como: eu falando “olha só essas meias que legais, quem sabe você não usa?” E ele respondendo, “não sei não combina muito comigo, talvez essa camiseta fique melhor!  Mas acho que você pode querer essas sandálias para te ajudar no teu caminho”. Temos a terrível mania de pensarmos que sabemos tudo, ou ainda que “sabemos mais”, quando na realidade apenas sabemos diferente.

Cada um trás uma "bagagem" em uma consulta e podemos vivenciar isso como uma verdadeira "troca".
                Certo dia na comunidade estavam discutindo sobre peixes, e eu não sabia absolutamente nada, se fosse grego talvez entendesse melhor e riram (educadamente) de mim quando fiz uma pergunta e explicaram prontamente. Em algum momento esquecemos como foi difícil entender o sistema da regulação da pressão arterial e achamos que ninguém além de pessoas com formação em saúde pode entendê-lo. Quem não teve que sentar e estudar muito um livro de fisiologia? Ou que ainda se atrapalha para ler um eletrocardiograma? Em que momento isso ficou tão inexplicável que conseguimos explicar para um aluno do primeiro ano a fisiologia e muitas vezes achamos que “não vale a pena” explicar para um paciente.
                Um slide do Igor que anotei no meu caderno ainda me marca muito estava escrito: “Qual foi o Congresso que você foi que tinha ‘ruindade no corpo’ como tema? ‘Cabeça ruim’ como comunicação oral? Você já leu as Diretrizes para a ‘Congestão’?  Guidelin da ‘espinhela caída’? Você já participou do Minicurso ‘o paciente febre interna’ ou do ‘paciente que chora’? E do Simpósio sobre ‘quebra de resguardo’? E o Consenso Brasileiro de ‘Esquisiteza por dentro’? E da Conferência sobre ‘cobreiro e tremura na carne’? E o Grupo de discussão sobre o ‘paciente que sente gosto de sangue na boca’? Vocês já leram o Capítulo do livro de medicina interna sobre ‘boca amarga’?”. Esse slide me marcou profundamente, eu nunca li, nunca tinha lido e nem me interessado pelo que os pacientes se referem, só no que eu consigo encaixar na biomedicina.
                Isso se torna ainda mais profundo e complexo porque não conseguimos aferir “Esquisiteza por dentro”, mas conseguimos aferir pressão arterial, logo, pressão arterial é melhor e mais precisa do que “Esquisiteza por dentro” e bem, eu tenho um protocolo para lidar com hipertensão. Mas talvez um anti-hipertensivo não resolva uma “esquisiteza por dentro”. Então, como lidar com “febre interna”, “esquizitesas”, “espinhela caída”?
                Talvez seja mais fácil começar com um “como não lidar” o mais importante, na minha opinião, é não negar e tentar enquadrar automaticamente no meu raciocínio clínico, afinal deve ser muito ruim ter uma “congestão”. No começo quando comecei a estudar eu queria descobrir como encaixar uma “boca amarga” na nossa visão biomédica, hoje, acredito que nem todas as doenças populares correspondem a entidades clínicas conhecidas e isso não denota sofrimento menor para o paciente, nem que ele está com problemas psicológicos. Aprendi, assim, a velha receita de que devemos ouvir e a melhor forma de “lidar” é uma escuta atenta.
                Muitas vezes eu ouvi “o paciente é difícil a anamnese ficou ruim”, mas nunca escutei “Eu fui incapaz de reconstruir uma conversa lógica da doença, a partir da conversa com este  paciente. Nós não nos comunicamos bem” – e quando percebi isso no segundo ano da faculdade de medicina, percebi que já no segundo ano queriam que fossemos perfeitos, com anamneses perfeitas, quase nunca erramos na faculdade. E “facilmente” começamos a etiquetar os pacientes: “o paciente que não fala direito”, “o paciente ruim” e definitivamente o pior adjetivo que já escutei na universidade “o paciente tigre”. E isso em parte é a nossa incompetência comunicativa intercultural que encontra uma forma de defesa nos adjetivos preconceituosos.
    Ai entramos também em algo que todos usam para justificar a sua competência (ou a falta dela) que é o tal do “bom senso”, assim podemos estudar muitos aspectos técnicos e aferíveis biomédicos e nos poupar de  estudar questões como comunicação clínica, afinal isso é intrínseco do ser humano e é uma questão de “bom senso”. Essa é uma das piores coisas que posso escutar no meu dia-a-dia pois posso perceber claramente que “bom senso” passa longe de muitos profissionais. Também podemos aprender com “a experiência”, mas eu não entendo se existem técnicas de comunicação e formas de estudar competência comunicativa intercultural porque aprendemos só a inspecionar, palpar, percutir e auscultar.  
                Ao longo desses anos, eu consegui manter minha mente inquieta em uma busca constante dessa competência comunicativa intercultural. Hoje, em geral, quando consigo atender sozinha e ficar mais tempo com os pacientes recebo abraços de gratidão pela atenção e até algumas expressões como: “essa foi a melhor consulta da minha vida”. Sinceramente, não acredito que isso se deva ao meu bom senso, muito menos a minha experiência (que ainda é pouca), mas sim em muitas horas de estudo de algo que não cai nas minhas provas técnicas. Foi ser humilde para estar disposta a aprender com um paciente analfabeto, por exemplo, que tem algo sempre a me ensinar. Poder aprender com os meus colegas e poder ser sincera nos meus erros, conseguir analisar meus acertos e falhas.
                Os aspectos da saúde e da doença vão além da superficialidade da medicina, precisamos mergulhar para chegarmos perto de descobrir, porque entender de fato jamais conseguiremos – porém temos caminhos, entre eles a antropologia, a linguagem corporal, os nossos ouvidos. Esses ensinamentos em geral não cabem na minha formação acadêmica e nem melhoraram minha nota em semiologia, por exemplo, mas me permitiram abrir minha bagagem em uma consulta para trocar e não empurrar tudo para o paciente e esperar que “sirva” na bagagem dele.  

Voam abraços,
Mayara Floss

Comentários

  1. Adorei o texto Mayara!
    Me identifiquei em várias passagens do teu texto, sobre a perfeição da anamnese, a imagem feita dos pacientes...e o quanto aprendemos a desprezar as expressões deles ao tentar enquadrá-las aos termos médicos.

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    1. Olá Jussemara! Que bom que você gostou do texto, acho que é uma busca constante o equilíbrio entre os termos médicos e estar "abertos" para a compreensão do que os pacientes dizem.

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