O DIA EM QUE DESCOBRI QUE EXISTIAM RICOS E POBRES E QUE EU ERA POBRE

Ernande Valentin do Prado

Quando era pequeno, meu pai sempre trabalhou na Fazenda do Nego, até onde me lembro. No início, morávamos na fazenda que ficava no Município de Doutor Camargo. Depois, fomos para Campina da Lagoa, ambas no Paraná. Em Campina da Lagoa morávamos na cidade, não sei se porque não tinha casa na fazenda para nós ou porque era desejo de minha mãe que fôssemos para a escola. Eu deveria ter uns sete anos nessa época.
Com a chegada do Natal, eu me preparei para receber os presentes de sempre e fazia planos. Indaguei certa vez ao meu pai: o que será que Papai Noel vai trazer neste natal?
Ele disse, não sei não. Acho que Papai Noel está sem dinheiro e vai trazer só balas neste Natal.
Na minha cabeça aquela ideia era absurda, afinal de contas, balas não eram presentes. Disse isso para ele e o assunto morreu.
Na véspera de Natal, eu e minhas irmãs colocamos os sapatos na janela e fomos dormir bem tarde tentando ver o Papai Noel trazer os presentes, mas finalmente dormimos, até porque meu pai disse que papai Noel só vem se as crianças dormirem e era melhor não arriscar ficar sem presente.
No dia seguinte, fui o primeiro a levantar e correr na janela para ver meus presentes, mas meu sapato estava cheio de balas. Muitas balas, tantas que até pareciam presentes, encheram o “conga”.
Fiquei muito decepcionado, afinal de contas, balas não era presente de jeito nenhum e Papai Noel não tinha o direito de fazer aquilo comigo e com minhas irmãs.
Pensei em acordar todo mundo e protestar. Lembrei-me da história de Papai Noel achar a casa dos vizinhos do morro muito longe para ir até lá e fiquei com mais raiva ainda dele.
Voltei para cama, mas não dormi mais. Fiquei acordado pensando em presentes, em Papai Noel e no que poderia fazer para mudar aquela situação.
Em frente minha casa, tinha um predinho (sobrado) de alvenaria de dois andares, coisa que só conheci na cidade. Na fazenda, todas as casas eram de madeira e baixas e, na cidade, a minha casa era de madeira. Nele moravam duas crianças. Elas tinham brinquedos “de pilha”, as roupas eram de cores vivas e não tinham furos nem remendos. Cada um tinha mais de um tênis e sapatos, usavam calça comprida para ir à aula e à missa, tinham dinheiro para comprar doce na venda e figurinhas para os álbuns. Na casa deles, que parecia enorme, tinha geladeira de duas portas e TV em cores.
Lembrei que, na hora do almoço, minha mãe fazia suco de pacotinho (daqueles que um frasco dava uns cinco litros) e eu ia pedir gelo na casa do vizinho, que não ficava muito feliz.
Estava na cama pensando em tudo isso e tive vontade de chorar.
Um mundo novo se abria para mim e não era melhor do que o mundo onde eu vivia.
Não tive raiva de meus pais por não ser rico, mas achei aquilo muito injusto, afinal deveríamos ter tudo que os vizinhos tinham. Naquele momento, descobri que Papai Noel não existia, só poderia ser meu próprio pai, afinal como ele saberia das balas antes de Papai Noel entregá-las?
Fiquei conformado e com pena de meu pai por não poder nos dar brinquedos aquele ano. Fiquei com raiva do mundo por ter gente que não podia ter brinquedos e por Papai Noel não existir. Igualmente fiquei aliviado de saber que, afinal, Papai Noel não era (um filho da puta) preguiçoso, que não foi na casa do vizinho por achar longe. Entendi que meu pai não iria dar presentes para o vizinho, pois cada pai faria isso por seus filhos.
Quando minhas irmãs acordaram, eu disse que tinha balas nos sapatos, mas que eram balas muito boas, que valiam a pena ganhar. No almoço, minha mãe assou uma galinha inteira e fez maionese que enfeitava com tomate, alface e ovos em forma de flores (achava isso a coisa mais linda do mundo). Abriu-se uma garrafa de tubaína (que só tomávamos no domingo) e eu busquei gelo no vizinho, que não ficou feliz com isso. Mas aquele Natal foi especial e triste para mim. Chupei balas a semana toda. E contava para todo o mundo que Papai Noel tinha me dado balas por que estava sem dinheiro.
No ano seguinte, ganhei o caminhão de puxar cavalos , um monte de cavalinhos e um caminhão Mercedes azul igual aos de verdade. Eu mesmo escolhi uma semana antes e meu pai comprou e fingiu ser Papai Noel.
Será que eu não seria mais feliz sem consciência dessas coisas? Será que precisava descobrir isso tão cedo ou desse jeito?
Agora (estes dias) fui a casa de uma senhora que mora com três filhos em um barraco de pau- a- pique. Dois ambientes. Sem piso. Uma cama para todo mundo. As crianças sujas andando no chão e subindo na cama cheia de roupa. Vinte um anos,três filhos. Fiquei pensando como a miséria aumentou e se aprofundou nestes anos que separam minha infância do meu presente.
Perguntei para uma das crianças se tinha escova de dentes e ela respondeu: “meu pai tá desempregado por isso não comprou, mas vai comprar assim que tiver dinheiro”.
Hoje, as crianças ficam sem escovas de dentes e sem Papai Noel.

Ver também:

PAPAI NOEL
Revisão: Cecília Mano.



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