Senna, arvorezinhas e a vida

    Com o acidente do Schumacher eu lembrei de uma passagem do Ayrton Senna na minha vida.

    Sabe, lembra-se da primeira vez que disseram que as coisas acabavam? Que o mundo morria, que o todos “subiam para o próximo andar”? Estava pensando e lembrei das primeiras vezes que tive que lidar com a morte.

     Minhas manhãs de domingo no auge dos meus dois-três anos de idade eram carros de fórmula um. Todas as manhãs eu acordava mais tarde, mas quando era domingo levantava antes das oito horas da manhã para tirar meu pai da cama, porque tinha “Fórmulalalaum”. E eu queria ver na televisão, assim como gostava de ver o Amarelinho da copa em 94 que fazia “E-leleô-leleô-leleô Brasil”. 

Ayrton Senna (Imagem: googleimagens)
     Nunca fui muito fã de bonecas, gostava mais dos carrinhos, que colecionava com muito carinho e sem muito dó também, porque eles era protagonistas das pistas mais perigosas que a sala de estar permitia, saltos e grandes acrobacias. Tinha um de fricção que lembrava um carro de corrida e soltava faíscas dentro do brinquedo quando andava, eu acabei com ele para descobrir qual era o segredo dos fogos de artifício dentro do meu carrinho. Mas foi uma descoberta interessante o sistema das faíscas.

    Mas então Senna morreu, a rede Globo dedicou horas da sua programação para passar o enterro e mostrar as corridas, enfim todo o sentimentalismo com a música que era muito animada de quando ele ganhava as corridas, tocada de uma maneira triste. Eu não entendia porque tanto tempo da programação infantil foi retirada da televisão para passar o enterro do Senna. E aí minha mãe começou a chorar, eu realmente não entendia o clima de “enterro” da minha casa. Fiquei indignada, não fazia sentido minha mãe chorar.

    Aí, na minha sabedoria de quatro anos expliquei para a minha mãe que ele iria descansar um pouco, que ele estava cansado de correr, e ia voltar ainda melhor. Lembro ainda que eu estava nas escadas do prédio segurando a mão da minha mãe e expliquei no final do dia: “Mãe, não se preocupe que eles estão plantando, ele vai nascer de novo como uma arvorezinha”.

    Eu devo ter pensado nas sementinhas de feijão que eu adorava plantar no algodão e mesmo parecendo sementinhas mortas, elas viravam plantinhas no algodão e se transformavam em vários feijões (sempre replantei minhas plantinhas no terreno da minha avó, o que acabou rendendo inclusive pinheiro que teve que ser derrubado depois de um tempo de tão grande que ficou). 

O feijão no algodão (Imagem do blog: Pedagógico)
     Mas o Senna não voltou, não correu novamente, e aí a morte se transformou em vários “nãos”. Nos meus dez anos (que com muito orgulho consegui encher todos os dedos das minhas mãos com a minha idade) minha bisavó faleceu, e aí eu já estava maior e entendia um pouco mais, eu não poderia mais abraça-la, não poderia mais sentar no seu colo. E para me consolar me disseram que ela iria para o céu, eu chorei um pouquinho enquanto um neto dela cantava “Anunciação” no violão – “Na bruma leve das paixões que vem de dentro...”. Mas acredito que chorei porque todos estavam chorando. A minha irmã, que nasceu depois e não viu o Senna morrer teve uma atitude um tanto sensata quando falaram que a “Bisa” morreu, deu um chute na canela da minha mãe e não se conformou com “ela foi para o céu”.

    Então, me contaram que as crianças morriam de fome na África. Bom, aí eu realmente não entendia “elas iam para o céu por que tinham fome”. Eu nunca passei fome, inclusive sempre tive alguns quilos a mais, mal entendia o que era fome, imagina “morrer de fome”. Eu olhava aquelas fotos tristes, de crianças barrigudinhas e com os braços magrinhos, e pensava “mas tem tanta comida no mercado, porque eles morrem de fome?” e hoje ainda sim, essa realidade é intangível.

Mercado municipal de São Paulo (Imagem: googleimagens)

    Mas desde o Senna, a minha bisavó, as crianças africanas e depois a minha avó, tio, com o tempo foram muitas mortes que foram se enredando na minha teia da vida. Na faculdade ainda mais, todas as vezes que falam “salvamos uma vida”, penso “apenas adiamos a morte” e talvez não com tanta leveza de uma “arvorezinha” nos meus quatro anos, mas compreendendo que morrer faz parte desse ciclo de viver (mas completamente descontente com as prateleiras do mercado cheias, e muitas barrigas vazias).

Voam abraços,
Mayara

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