Mudança


Luan e Júlio carregando o minha estante pelas ruas riograndinas, agora ela vai ocupar a casa do Júlio

     Se eu deixar que meus sonhos antigos se tornem besteiras, então isso só pode ser um nítido sinal de envelhecimento. Pouso o lápis na escrivaninha e fito a janela de infindáveis vidas que me espreitam. A vida muda, os tempos mudam e os desejos também. Mas talvez se olhar para trás e ver que tem muitas coisas ficando porque é mais confortável seguir assim, algo está errado. Está certo, tenho o conforto, a casa, a televisão, mas o que de tudo isso me vale frente a vida que se desdobra?
    Hoje meus amigos carregaram a estante, o sofá, estou emprestando os pedaços da minha casa para ocupar outros lares. Olho para o apartamento mais vazio, mas lembro dos sorrisos, penso que alguém vai lavar roupas na máquina de lavar, e eu vou lavar a minha roupa em outros lugares. Me conformo ao sentar cansada depois de empacotar várias caixas e ter que estudar para uma prova. A vida é dinâmica, penso. Divido os livros, a impressora, o rádio.
    Simplesmente não posso continuar com tudo tão bem organizado para seguir a ordem por seguir. Porque a vida tem os seus dissabores, e até um dedo cortado vem preencher a minha noite e o meu apartamento vazio.  Mas na balança vamos equilibrando as coisas boas e ruins, deixando pesar mais as coisas boas. Por isso a bagunça, as malas, as caixas, e a sensação inevitável de “estou esquecendo alguma coisa”. Aliás, estou esquecendo vários pedaços de mim, me reinventando.
    Bom, muitos falam “que loucura”, mas perdoem-me os normais, acho que enlouqueci para não seguir o caminho mais acertado. Está feito então, vou organizando uma pequena mochila, um notebook, alguns kgs de erva-mate (para o chimarrão me acompanhar nas noites solitas), um caderno peruano que ganhei de presente para anotações e as minhas vivências que frente a esse mundão parecem um quê de nada. Mas é preciso partir.

Voam abraços,

Mayara Floss

[Mayara Floss publica na Rua Balsa das 10 às 4as-feiras]

Comentários

  1. Mayara, olha do outro lado da tela do computador e veja caixas com livros, discos de vinil que amo, caixas e mais caixas (na caixa de som Sony, que roube de Larissa, Zeca Baleiro diz: “de você sei quase nada, de onde veio ou porque veio” – mas não é bem verdade). Estou levando minha casa embora (ao menos o que restou dela). De verdade minha casa (Larissa e as crianças) já se foi tem quase 15 dias. O que restou são paredes que ficarão apenas nas lembranças e nas fotografias e as coisas (de valor financeiro ou não) que define quem somos. Estas vão em um caminhão já contratado no sábado. Larissa disse que vou passar 24 horas na estrada. De companhia vai o motorista, que já fez outra mudança para mim e o gato. Larissa também disse que seu texto lhe emocionou demais. A mim também, pois estamos vivendo coisas diferentes, mas muito parecidas. Eu vou me reinventar e toda minha família vai se reinventar comigo na Paraíba, você na Irlanda. Mas estamos todos indo. O que sinto é que não estou deixando nada, não estou esquecendo nada (talvez seja a prática de me mudar sempre). Amei ter estado aqui, amei cada dia e cada dor ou delícia, mas tenho que seguir em frente (ao menos é o que todos me dizem). Não vou me despedir de ninguém e pedi que ninguém se despeça de mim. Quero sair do trabalho às 17 horas como em qualquer sexta-feira e levar todas comigo (ao menos no meu coração).
    Obrigado por ter escrito esse texto.

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    Respostas
    1. Ernande, o difícil é deixar a "família" de amigos, pensar que quando eu voltar vai ser diferente... Mas a vida é assim, de mudança e dinâmica. A saudades sempre fica em cada espaço. E seguimos assim, nos reinventando...

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