O House depois que entrei na medicina

 O Herói

"— Papai, o que é um herói?
Eu pergunto porque tenho grande vontade
De ser herói também ...

Será que posso ser herói sem entrar numa guerra?
Será que posso ser herói sem odiar os homens
E sem matar alguém?"

O homem que já sofrera as mais fundas angústias
E as mais feias misérias
Trabalhando a aridez de uma terra infecunda
Para que não faltasse o pão no pequenino lar;
O homem que as mais humildes ilusões perdera
No seu cotidiano e ingrato labutar;
Aquele homem, ao ouvir a pergunta do filho:
— "Papai, o que é um herói?"
Nada soube dizer, nada pôde explicar...

Tomou de uma peneira
E cantando saiu, outra vez, a semear!

  Judas Isgorogota

    Aparentemente, para muitos acadêmicos de medicina não há glória maior do que ser comparado ao House do seriado. Não só acadêmicos, mas professores também. E aí eu penso porque o House? E sublinho esse pensamento, porque me entristece profundamente.

    Antes de entrar na faculdade eu gostava do seriado, mas não precisei passar do início do segundo ano para ver que a medicina precisa de toque e envolvimento. No House se quer eles examinam o paciente. E o protagonista da série nunca toca, ausculta, e principalmente mal conversa. Ele sabe tudo sobre qualquer diagnóstico clínico, mas pouco conhece daqueles que cuida. Realmente o seriado é envolvente, a clínica e as discussões interessantes (com aquele toque de ação para prender os espectadores). Mas, sempre pensei que ficava claro que ele não era um bom exemplo: frustrado, sem conseguir se relacionar e cercado de diagnósticos brilhantes.

Foto: André François no livro "Cuidar"

    Porém, “meu sonho é ser como o House” é o que escuto nos corredores do hospital. Claro, existe aquela visão hospitalocêntrica da medicina, porém penso nessa ideia de ser um médico House: sem tocar, sem examinar, sem conversar – mas, pasmem, com grandes diagnósticos. Recordo do trecho que li do livro da Elisabeth Kübler-Ross de uma paciente no quarto de um hospital: "Lembro de uma mulher que praticamente gritou: - Tudo que meu médico quer é discutir o tamanho de meu fígado. A essa altura o que me interessa saber qual é o tamanho do meu fígado? Tenho cinco filhos em casa que precisam de alguém para cuidar deles. É isso que está me matando. E ninguém fala comigo sobre esse assunto! (...)".

    E aí, todos saem de peito estufado caminhando pelos corredores de jaleco branco. Já vi muitos pacientes com diagnósticos brilhantes, exames que fecharam tudo, e até pacientes sem diagnóstico, mas que estavam perdidos sem entender o que tinham, que medicamento tomavam, sem alguém para conversar. Aliás, não sei o que acontece com a medicina, mas até o gesto humano de chorar muitas vezes é repelido, quando o paciente chora, vira-se as costas “para dar um tempo”, ao invés de acolher. Desaprendemos a lidar até com as lágrimas.

Foto: André François no livro "Cuidar"
     Ai você vê alunos com pupilas brilhantes, coração aberto no primeiro ano da faculdade de medicina que “endurecem”: tem vontade de chorar, mas não choram; tem vontade de conversar, mas não conversam; tem vontade de questionar, mas seguem o bonde. Também, pouco é dada a chance de errar, temos vergonha de errar. Certa vez questionei meu professor sobre isso, me atrevi a perguntar se ele errava, e aí ele me tranquilizou: “Quando me formei comecei a trabalhar fazendo exames para piscina, quando chegou meu primeiro caso de micose e eu não sabia tratar cheguei em casa decepcionado e fui estudar”.

    Tenho a impressão que se criaram então algumas “regras” para “ser humano” na medicina, uma se destaca que usarei como exemplo: ao invés de se referir ao número do leito do paciente se fala o nome do paciente. Mas, saber o nome não basta se continuar se discutindo apenas o tamanho do fígado. Devo frisar que não estou fazendo uma apologia a médicos com pouca técnica ou que não sabem diagnosticar, examinar, fazer procedimentos, mas sim, falando da medicina que só vê pedaços, órgãos, sistemas, e não pessoas. Aliás, ainda, pouco se fala em técnicas de comunicação, formas de perguntar e conversar. Descobri com o tempo e insatisfeita com o meu cuidado com os pacientes (que acreditava ser insuficiente) que existe outros caminhos para trilhar na medicina.

    Outro paradoxo são os pacientes que falam “Se o doutor House estivesse aqui já teria resolvido”, o que me remete a outro ponto que é fato da medicina não terminar no diagnóstico nem no procedimento. O seriado não fala do tratamento, dos antibióticos, medicamentos, da recuperação. Aparentemente a “saída” é o diagnóstico, e muitas vezes para a medicina também, o ponto final é o diagnóstico a prescrição e o tratamento. Mas existem mais coisas entre um diagnóstico e o paciente do que podemos compreender.

Foto: André François no livro "Cuidar"

    Inúmeras vezes escutei “Não há mais nada para fazer com esse paciente”, com os olhos derrotados e os ombros baixos – embora as vezes triunfantes por terem feito um diagnóstico. Porém, aprendi que sempre há o que fazer com o paciente, um abraço, um cuidado, conversas entre médico e paciente, trocas que nenhuma grande farmacêutica consegue imitar. Existem desejos que valem até burlar algumas regras e preparar uma cuia de chimarrão para o paciente que quer tomar um “mate amargo”. Aliás a cuia, a bomba e a erva, são os companheiros da solidão – até a solidão da morte.

    Entristece-me os futuros “Houses” onipotentes em seus diagnósticos, brilhantes nas suas análises, perfeitos na técnica, que decoraram o resultado do hemograma, saibam exatamente a interpretação da Ressonância Nuclear Magnética,  o próximo passo para o tratamento, o exame, mas que não saibam fazer outra coisa que não seja uma anamnese quadrada. Qual o seu nome? Idade? Cidade onde mora? Onde nasceu? Quantos filhos você tem? Porque veio para o Hospital?...

    Certa vez, um médico em um congresso falou: “Você descobre que se tornou um bom médico quando você consegue ter uma boa conversa com o seu paciente sem perceber que está fazendo a anamnese”. Talvez não seja House, mas seja daquele "heroísmo" simples de semear. Pode ser uma enfermeira que leva um lenço colorido para a moça que está fazendo quimioterapia, ou a assistente de serviços gerais que consegue um travesseiro pra senhora que dorme na cadeira ao lado do esposo doente ou o acadêmico que vai para um asilo para ouvir as histórias dos idosos. 

     A diferença é se preocupar com pessoas e não com diagnósticos. Com o brilho da alma humana, e não com o raciocínio brilhante.

Decidi colocar imagens que o fotógrafo André François lançou em 2006 em no livro "Cuidar" - Um documentário sobre a medicina humanizada no Brasil. Pode-se acessar mais imagens clicando aqui.A Maria Amélia Mano me ajudou com alguns toques especiais no texto.

Voam abraços,

Mayara Floss

[Mayara Floss publica na Rua Balsa das 10 às Quartas-feiras]

Comentários

  1. Fábio Lopes31/01/2014 01:44

    Parabéns Mayara !! Consegues perceber os detalhes, as nuances, as entrelinhas desta arte que é se relacionar com as pessoas que são os nossos pacientes, e não apenas com suas doenças. Tua crítica, tuas reflexões, teus questionamentos, tuas inquietações são muito importantes não só para o teu crescimento, mas também para o nosso. Gostei muito deste nosso curto convívio ambulatorial, fico com a impressão que ele deveria ter sido maior e que poderia ter sido melhor ( na discussão de temas como estes e naqueles que mal iniciamos a conversar...). Fica pra uma próxima...! Não sei se agradeço aquela parte... :) Abraços !!

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  2. Parabéns pelo excelente texto! Adorei seu ponto de vista, principalmente dos detalhes.

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