ONTEM, OLHEI E VI UMA MULHER (um texto de Estela Scandola)

Estela Márcia Rondina Scandola

                 Foto: Ernande (Guarda-Chuvas)

Ao chegar no quarto 218 da clínica Campo Grande, hospital que atende somente planos de saúde e particular,  deparei-me com dois homens entre 50-60 anos, ambos completamente dependentes dos equipamentos tecnológicos para sobrevida e dos cuidados de mulheres, aquelas de Atenas, que ouço sempre na voz do conterrâneo Ney.
Uma especialmente fiquei a conversar, nunca a tinha encontrado. Em torno de 35 anos, 13 de casada com um aeronáutico de 53 anos. Mecânico dos bons, 3 filhos de dois casamentos anteriores, era mentor das montagens de hangares de empresas aéreas aqui na cidade. 
Há um ano e meio descobriu um câncer no cérebro e iniciou a peleja. Dentre as mais difíceis, a guerra na família para saber quem "cuidava dos bens". Não foi uma discussão nova na família de mãe e irmãos dele. Vinham de outras brigas por casas, pensões, aluguéis. Quando viu-se enfraquecido em tomar grandes decisões, optou por pedir à esposa que fosse sua curadora. Assinou os documentos, todos em meio a choro - não entendi qual era a dor maior, da doença ou da briga na família - e tornou-se incapaz judicialmente. 
A esposa, de posse do documento, retirou o seguro, quitou a casa, saiu do serviço e passou a ser cuidadora 24 horas por dia. A pensão do INSS não permitia custear cuidadores, contava com um aqui outro acolá para uma tarde ou pedaço da noite ficar com ele. Mudava-se com ele aonde ia - hospital ou casa. Há 20 dias morava no hospital. Saiu duas vezes para tirar dinheiro e comprar coisas. 
Na minha 1 hora com ela, foi duas vezes à recepção da enfermagem. Tinha medo que o remédio da dor acabasse e as dores voltassem. Os gritos dele lhe doíam muito. A troca de plantão na enfermagem adiava todos os procedimentos e a quantia de profissionais que tinha não atendia a ala de tanta gente necessitada de atendimento emergencial, rápido, resolutivo de dores. 
Quando a técnica de enfermagem entrou para ver o medicamento para dor, logo falou: você não vai sumir, né? As outras que vem aqui, falam que vão voltar e demoram uma hora. Ele vai começar a gritar de dor. O que faltou dessa vez para ministrar o medicamento foi um adaptador para colocar 3 tomadas. 30 minutos depois chegou a técnica e o T de 3 para fazer a aparelhagem rodar. Ela relaxou e voltar a sentar na escada, feita de banco.
Conversamos frases curtas até que toca o telefone dela. Novamente busca de tomada para carregar o telefone. Começa a atender e vai logo dizendo: o quarto é ruim, tá pintado de novo, mas fica no fim do corredor e toda hora tem que chamar o pessoal. As cortinas são novas, mas a janela não dá prá lugar nenhum, não vejo nem a rua. Saiu e foi atender no corredor com a pouca carga de bateria que tinha conseguido. Voltou e falou que um amigo do marido tinha se disposto a dormir um dia com ele. Pensava em aceitar, mas tinha medo de dormir sozinha em casa. Não sabia mais como fazer isso. 
De repente, levantou-se ligeira e disse "vou ser chata" e saiu da sala. Quando voltou com a enfermagem novamente arrastava uma cadeira que regulava assento, tinha o escora-braços almofadado e era macia. Falou: " nossa, falei pro pessoal ´me ajuda, vai´. Eu to muito cansada. Eu não aguento mais aquelas cadeiras lá!" Arrasta daqui, tira mesa de lá, puxa escada prá cá e prá lá, instalou a cadeira aos pés da cama do marido. Nada comentou sobre o estofamento com pequenos rasgos e pés de ferro descascados. Verificou a regulagem e disse: vamos pegar a outra que está no quarto de lá e trazer prá vocês. 
As mulheres saíram, arrastaram, arrastaram mesas e armários e trocaram as cadeiras de quarto. Comentaram: bom, quem chegar novo aqui, fica na cadeira dura. Nós que já estamos há um tempo, ficamos com as macias.
Falava à mulher minha amiga: você tem que pegar a curatela dele, senão até prá enterrar você vai ter problema. Ninguém vem aqui cuidar, mas quando morrer, é problema na certa. Eu fiz tudo, eu tenho os documentos todos. Quando ele morrer, o difícil vai ser aguentar a família que ainda vai me processar, mas eu estou com os papeis... 
Fui saindo para jantar as 20h30 com minha amiga, olhei prá ela e disse: que as deusas lhe deem sabedoria para seguir. Ela estava sentada comodamente e o marido gemia baixo, os remédios de dor tinham resolvido.
Acordei hoje e soube: à meia noite, quando ela dormiu, ele parou de respirar. 

Estela Márcia Rondina Scandola
51 anos de aprendiz
[convidados escrevem no Rua Balsa das 10 aos sábados e domingos]

Comentários

  1. Estela, fiquei muito emocionado com o seu texto. Lembrei o tempo em que trabalhava em hospital e via isso todo dia o tempo todo e levava para casa as histórias. Ainda não as contava, como hoje.
    Não sei se lhe contei, mas trabalhando na gestão, trago os problemas para casa e sonho com eles e, algumas vezes, sonho com soluções.
    Por que somos assim? O sofrimento é tão grande que as vezes tenho vontade de desistir, se ainda aguento é porque sei que o “outro” (que sou eu mesmo) sofre ainda mais.
    Sua história me lembrou do juramente que fiz quando recebi meu diplomas, mas sobretudo o juramento que existia em mim antes. Eu acredito em cumprir o que se fala.

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  2. Fiquei pensando em como a solidariedade ultrapassa a caridade, de longe! Não se trata de sentir pena, de "ajudar". É só estar junto! Como diz o Paulo Freire, eu também sou uma inteireza... onde vou, levo comigo o trabalho, os amigos, a família... tudim!

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  3. Nossa professora, que texto emocionante! Retrata o que minha família e eu passamos um tempo atrás, só que num outro hospital aí em Campo Grande! Meu pai, voltando de Miranda para Aquidauana, no dia 17 de novembro, sofreu um grave acidente na BR 262, e teve politraumatismo nas duas pernas... foram 23 dias internado, acompanhado pela minha mãe e meu irmão (eu trabalho e moro em Miranda agora!). Lendo o texto lembrei-me dos momentos que passei com ele... é triste, é uma provação!

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