QUANDO AS BOMBAS CAIRAM (DEUSES DE KOBOL)

Ernande Valentin do Prado
foto: a hora h - Ernande.

Depois de 40 anos de trégua forçada, mas não desejada de fato, em um guerra sem vencedores, quase ninguém se preocupava muito e as vidas continuavam sua rotina implacável. Quando as bombas caíram, anunciando a hora da vingança, Cáprica, a mais próspera das 12 Colônias de Kobol, foi devastada em poucos minutos. Mas não foi só, outras 11 colônias humanas tiveram o mesmo destino e a raça humana entrou em extinção. O que aconteceu depois é fato fartamente documentado: uma caravana maltrapilha vagou no espaço em busca da 13ª colônia e de um recomeço.
Quando as bombas caíram o que estariam fazendo os habitantes de Cáprica? Pessoas anônimas perderam sua vida neste dia, pessoas não muito diferentes de nós, imagino. Os relatos aqui reunidos são fragmentos deste dia: estórias banais de pessoas vivendo suas vidas banais em um dia especial para humanidade. Esses fragmentos foram “inventados”, mas bem poderiam ser verdade, mudando um detalha ou outro, “assim dizemos todos”.

1. Gloria estava no banheiro escovando os dentes quando viu o primeiro “clarão”. Não teve tempo nem de ligar a TV para descobrir do que se tratava aquele brilho hipnotizante.

2. Mário rezava para os Deuses de Kobol ajoelhado para o nascer do sol e sentiu que estava diante de um sinal divino.

3. Clarisse estava em trabalho de parto. Não percebeu nada do que acontecia. Ainda teve tempo de amamentar Aline pela primeira e última vez.

4. Pedro cortava a grama da casa do avô de 96 anos, que estava eufórico com a visita do neto depois de dois anos de uma viagem de mochila pelo interior.

5. Alberico preparava um golpe na seguradora imobiliária em que trabalhava. Dinheiro suficiente para mudar sua vida. Iria transferir uma quantia imoral para sua conta e um “laranja”, Mário, padrinho de seu filho mais velho, levaria a culpa. Quando recebeu o impacto da primeira onda de calor, estava digitando os últimos códigos numéricos da transferência do dinheiro para um paraíso fiscal.

6. Zaqueu não chegou a ver as bombas caindo. No mesmo instante morria afogado em uma enchente. Porém salvou a vida da pequena Maria, que foi levada de sua casa pela enxurrada. Ela viveu apenas três meses de muita miséria ao lado de seus país viciados em drogas ilícitas.

7. Simonal, soldado de Gemini, uma das 12 Colônias, recebia instrução sobre como conseguir confissões do inimigo. Era sua primeira semana na Academia Militar de Cáprica. Pela janela panorâmica da escola de guerra viu dezenas de explosões antes de sentir o impacto da onda de calor. Seu instrutor, de costas, explicava que os solados inimigos também sentiam dor, assim como os humanos.

8. Cristino não dormiu na noite anterior ao fim, estava ocupado com o inicio da quimioterapia para tratamento do câncer de pulmão. Malditas fabricantes de tabaco, pensava ele enquanto sentia pena de si mesmo.

9. Sinval, de 14 anos, deu seu primeiro beijo em Anailda. Estava muito feliz, havia ensaiado para aquele momento muitas vezes. O coração batia tão acelerado que sentia medo dela perceber. Quando viu o clarão achou que era sua felicidade se desenhando no horizonte. 

10. Aluízio, ao ver a primeira explosão, pensou: é hora de fazer alguma coisa para salvar a raça humana, mas uma segunda explosão interrompeu seu pensamento.
Foto 2: Holocausto - Ernande.
                          [Ernande Valentin do Prado publica na Rua Balsa das 10 às 6tas-feiras]

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