Sonhar

The false mirror - Rene Magritte (1928)

    Sentada na frente do computador, devo escrever. Escolhi um tema em meio aos meus estudos de otorrinolaringologia. Decidi que iria escrever sobre sonhos.

    Ontem, estava conversando com uma fisioterapeuta e ela me disse “Meu sonho era fazer medicina”, e depois continuou falando que não tinha tempo, dinheiro, e como parar para estudar. Eu querendo remediar disse para ao menos tentar o Exame Nacional do Ensino Médio esse ano, vai que dá... O mote para chegarmos no assunto foi a vontade dela fazer mestrado e aí ela falou “Comecei a fazer meu curso, até que gostei e fui fazendo, mas se eu pudesse, hoje...”.

    Outro dia estava sentada e um colega meu falou: “Você está fazendo o que muitas pessoas não tem coragem de fazer” sobre a minha saída no Brasil para um intercâmbio de um ano e meio. Conversei para ele tentar se inscrever quem sabe ele consegue também, ele apenas assentiu com a cabeça com um sorriso para me consolar de que ele iria “pensar no assunto”. Começo a ver quantas pessoas estão ainda “pensando no assunto” e percebo esse pensar no assunto pode demorar a vida inteira. 

    Impossível não lembrar da “febre, hemoptise e suores noturnos” do Manoel Bandeira falando da sua vida de tuberculose, seguido pelo verso: “A vida inteira que podia ter sido e não foi”. Deixo-me afundar na ideia de: ir por ir, fazer por fazer, viver por viver, e sonhar por sonhar. Fico triste pelos sonhos abandonados, e começo a pensar nos meus sonhos que ficaram para trás, alguns contra a minha vontade, outros por escolhas.

    Às vezes eu sento e pego esses sonhos com carinho, olhando para trás. Não com arrependimento nem pensando na vida que poderia ter sido e não foi. Os sonhos tiveram que ser escolhidos e abriram espaços para outros, outras vivências, outros caminhos. Penso, que talvez não possa ser uma mulher de todos os sonhos, nem de todos os meus sonhos, mas isso não me impede de ser uma mulher que sonha. Abrir mão de alguns, certamente, me deu forças para abrir asas para outros voos.

    Só não consigo sonhar por sonhar. Estar sentada e dizer: “Eu queria tanto fazer isso”. Não consigo usar o pretérito imperfeito e continuar parada. Nunca foi com a arquitetura exata, nem com os melhores materiais, mas não deixei, nem deixo de construir os meus sonhos. Não é fácil, certamente, a vida mecânica com as coisas no seu lugar, com o que nos adaptamos: bom dia, banho, um beijo, café-da-manhã, trabalho, um beijo, almoço, tchau, trabalho, boa noite, janta, dormir, sonhar, acordar e repetir. O sonho fica perdido no meio da rotina do dia e da noite.

      Há pouco ouvi de um grande escritor que ele só chegou onde chegou porque tudo na sua vida deu errado. Mas mesmo dando tudo errado, ele sorri porque no meio do caminho surgiram outros sonhos, outras reinvenções de si. Para poder sonhar, e não deixar os sonhos envelhecendo na estante da vida, é preciso se reinventar, arriscar a rotina, colocar tudo a perder (menos os seus sonhos). Aliás, estou me reinventando.

     Espero nunca demorar a minha vida inteira pensando nisso. Talvez, seja a vida inteira que poderia ter sido e não foi. Mas, talvez, na arquitetura inexata da construção dos sonhos espero estar erguendo alguns pilares, e não cultivando um terreno baldio de sonhos e vazios. 

     Para embalar este texto deixo essa música do John Lennon  "Life is just what happens to you, while your busy making other plans":



Voam abraços,
Mayara Floss

[Mayara Floss publica na Rua Balsa das 10 às Quartas-feiras]

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