Caderninho III - Ciudad de las esperas






CADERNINHO DE VIAGEM III
CIUDAD DE LAS ESPERAS

En la pared de una fonda de Madrid hay un cartel que dice: prohibido el cante.
En la pared del aeropuerto de Rio de Janeiro hay un cartel que dice: prohibido jugar con los carritos porta-valijas.
O sea: todavía hay gente que canta, todavía hay gente que juega.
Eduardo Galeano

O piloto diz que chegamos a Buenos Aires, mas que não vamos pousar em Ezeiza até que seja permitido, por “questões internas”. E pode? Podemos ficar assim, pelos ares? Enfim, até gostei da ideia de não pousar. Deixa ficar voando, divagando. Seriam 20 minutos sobrevoando Buenos Aires. Imenso Rio da Prata, campos sem fim. Cidade imensa espalhada, densa, com muitos reflexos do sol de novembro criando uma primavera que se despede. Ficamos aqui mesmo, então, esperando, observando o caos, as violências e solidões.

Olho de longe, de cima, e a geografia com os recortes de terra e água me fazem lembrar os sulcos e giros do cérebro. A terra pensa lá embaixo. Medita, às vezes. Grita, às vezes. Sorri, às vezes. Chora, às vezes. As ilhas, mais alto, mais distante e a sensação daquelas “cenas” dos microscópios da histologia que nunca conseguia identificar direito: epitélios. A pele da terra. Os sentidos da terra. As sensações que nascem do toque. Terra-pele que se acarinha e toca, clara e escura, macia.

Mais longe ainda, rios como veias e artérias, rios sujos, rios livres, sangue. Galeano. Capilares levando fertilidade à terra. Cio da terra do Chico. Plantações: contraste reto e organizado frente à sinuosidade desorganizada dos rios. Estradas, estrados, estratos, como que dividindo novas geometrias de retas e curvas difíceis de calcular. E as chegadas chegam. A cidade esperada pousa, finalmente. Cá embaixo, Bel, a amiga que me espera para se aventurar de moto, vento no rosto pelos parques, praças e feiras.

Ciudad de las esperas, livro de fotografias, título que observo, curiosa, da vitrine de uma livraria fechada. Podia ter esperado abrir, mas não. Pouco tempo para viver a cidade e suas ruas. Espera é tempo fora do tempo, meio não planejado, não-instante em um não-lugar que desejamos somente passar, sem ficar. E as fotos pareciam falar desses tempos entre semáforos, salas de esperas, listas de esperas, aeroportos, estações de trem... E não eram só lugares, porque lugares não esperam. Eram pessoas, faces, expressões, vidas que esperam.

Alguma solidão transita na espera pelo caminho, pelo encontro que é só nosso. Ilhas sem palavras, olhos abrindo portas de futuros que se fazem “só” na próxima estação – que engano! Futuro é também esse aparente ócio, esses labirintos e batalhas cotidianas em pausas que não planejamos, “ese mecanismo implacable de perder las horas, de querer las horas” como diz Roitman, em uma “ciudad que nos pierde y donde nos perdemos”. Perdemos sim, e não raro, no meio do caminho, no ruído do ônibus ou dos ventos nas esquinas, me perco e me pergunto para onde vou mesmo?

A mãe que hoje pare, um dia esperou. Porque espera é gestação. É estação silenciosa antes do grito, do choro do nascimento, do parto que é também partida, largada, separação, corte de cordão. O que, um dia alimentou e fez crescer e viver por meses, é rompido e cai em dias. Mistério esse dos instantes e eternidades, das esperas angustiadas ou até, algumas, brincalhonas e irresponsáveis, repletas de risadas e descobertas, esperanças vestidas de flor, vestido longo, de festa...

E vestida de flor, a menininha índia, boliviana, imigrante, brinca na ponte em Buenos Aires. É noite em Puerto Madero, Puente de la Mujer. Uma moça linda vestida de noiva – um vestido muito rendado e enfeitado - faz pose para fotos. O noivo orgulhoso. Uma senhora que devia ser a mãe, impressionava pelo traje e pelas meias em uma noite tão quente. Todos pareciam da mesma família, juntos, comemorando, com suas melhores roupas e sorrisos.

Observo a menininha que brinca com a irmã mais velha. Desconfiadas, quase não deixam que eu me aproxime. Insisto, enternecida pela beleza e pelas risadas. Brincam com as luzes da ponte. Brincam com as luzes enquanto esperam a sessão de fotos dos amantes. Amantes que se unem em ponte-mulher, ponte que abraça e dá as mãos para as duas faces de uma cidade: a bela que acarinha, a feia que oprime. E no centro, no coração da ponte, duas menininhas brincam com luzes.

A cidade das esperas também é a cidade das esperanças e dos beijos nas pontes, dos encontros de amigas que falam de sonhos e amores, de crianças que descobrem luzes e brincam na noite. Noites de músicas distantes e esperas. E o tempo é igualmente contado no ventre materno, onde olhos, faces, mãos, carne e coração se formam, lentamente. Onde, em silêncio, em angústia, em dúvida, nasce um menino, uma menina, um mundo, uma imensidão. Imensidão feita de espera.

Que, sempre que o tempo deixar, sempre que a vida disser, intuir, inspirar, sussurrar, a espera, essa tão injustiçada pausa de instantes, seja gestação. Que o destino seja parte, praça; que o encontro seja pouso, pele, que a viagem seja ponte, poesia. E que a angústia seja brincadeira e que a vida seja uma luz, essas luzes que as crianças brincam e descobrem, pela primeira vez, maravilhadas, risonhas e ternas, em dias de festas, com as melhores roupas, esperando uma canção, um doce ou o doce versinho do poeta que toca de leve o coração.



www.laciudaddelaespera.com.ar
www.fotodoc.com.ar

[Maria Amélia Mano escreve na Rua Balsa das 10 às terças-feiras]

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