Padre Libanio

O cristo redentor desde a janela do HSVP. Fevereiro 02. 

No dia 30 de janeiro, faleceu o padre João Batista Libânio, meu mestre maior. Foi um dos precursores da Teologia da Libertação. Tive a oportunidade de começar a conviver com ele, aos 19 anos, a partir de um grupo de jovens cristãos em que me inseri. Morreu aos 81 anos, em pleno vigor físico. Pela manhã, nadou, como de costume, e foi fazer uma palestra (estava em Curitiba). No meio da palestra, deu um grito e caiu. Enfarto. Foi uma surpresa para todos. Um dos companheiros daquele antigo grupo de jovens, Faustino Teixeira, cientista da religião, escreveu estas linhas: 

Um dia denso, esse 30 de janeiro de 2014. Relia esses dias o grande Rilke, talvez pressentindo os toques do invisível. Nós diante dessa temporalidade que nos ajuda a entender que a vida é feita de chegadas e de partidas. Estamos mais acostumados às chegadas, mas diante das partidas manifesta-se toda nossa fragilidade. Mas a vida é assim: há os lindos momentos festivos, de êxtase e de vitalidade que encantam e de comunhão que irradia; mas há também a dura constatação de que aquilo que é nosso “flutua e desaparece”. Não há como escapar dessa “fluidez”diante da qual todos prestaremos contas. Apesar de toda dificuldade, creio que temos que aprender também a nos alegrar com as partidas, sobretudo com aquelas que traduzem uma vida de honestidade, de santidade, de beleza e transparência. É assim que vejo esse amigo querido, esse orientador singular, esse santo na exemplaridade: João Batista Libânio. Quero deixar sua presença bem viva junto a mim, sua alegria solar e sua fé contagiante. Esses valores ficam, e vencem a frágil fluidez. Rûmî, dentre meus místicos mais queridos, foi alguém que conseguiu lidar com a morte de forma mais doce e mais serena. E ele me vem agora à lembrança:

“Finalmente partiste para o invisível.

Estranho rumo seguiste para deixar este mundo.
A força de tuas asas rompeu a gaiola,
ganhastes os ares e voastes para o mundo da alma.

Eras o falcão favorito do rei
nas mãos de alguma anciã,
mas ao ouvir o tambor
escapaste para o não-lugar.
Era um rouxinol entre corujas
mas a fragrância das rosas te envolveu
e correste para o jardim (...)

Silêncio.
Liberta-te da dor da fala.
Não durmas, agora que encontraste abrigo
Junto ao amigo querido.”

Quem quiser conhecer mais sobre o Libânio e suas realizações na teologia brasileira, veja a entrevista de Faustino em

http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/527835-apoio-e-liberdade-na-construcao-dos-caminhos-entrevista-especial-com-faustino-teixeira-sobre-a-obra-de-padre-libanio

[Eymard Vasconcelos escreve na Rua Balsa das 10 às 5as-feiras]


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