Pequena História da Menina dos Arcos


Era uma vez um circo e uma menina que dançava em arcos no ar...

Das coisas que amava, das coisas que a habitavam, como habitam as pequenas flores em jarros de barro, pintados a mão, eram esses suspiro solitários das esperas. A espera pra entrar, pra encenar. O ensaio. A. angústia. A tensão. O suspense. A insegura certeza de nada, nem mesmo do aplauso. Ah, sim, isso ela, a menina dos arcos amava...

Amava a falta de rotina do palco, a pouca luz dos galpões e o cheiro de madeira antiga dos malabares, dos balanços, do teto, do piso que estremecia a cada salto. E amava o salto, o salto depois da pirueta, depois que o corpo voava. E amava o voo, tal qual pólen em pluma, semente prestes a fecundar uma flor ainda íntegra de ventos e outonos.

Confiante de que o perigo era pra sempre, um dia, se surpreendeu com um olhar. E achou o brilho no castanho escuro mais perigoso que todos os arcos que um dia já dançou. E entendeu que a emoção está no salto e no abraço, na curva do corpo que se arca para a cambalhota e para o beijo de amor. E, pela primeira vez, sentiu solidão, saudades e medos.

A partir daquele dia, não tinha mais uma noite em que sua dança não era para ele. Não sabia se ele via, se a sentia, se a admirava, se o encantava. Mas ela seguia, noites e noites entre sorrisos e lágrimas, com um suor que brilhava esperança. A menina dos arcos, que voava por voar, pela aventura de voar, agora, voava por amar, pela aventura de amar.

E na mais longa das noites, exausta, ela voava insegura em um passo torto, uma volta tosca, uma pirueta insana, um salto trêmulo, uma dança silenciosa... Não caiu. Flutuou como folha de papel, carta escrita a mão, perfumada, desenhada com corações e flores. Errou. E errante, na música e nas luzes da noite mágica, executou o mais lindo movimento de pássaro. 

Ele, que tudo via, acariciou as asas cansadas da menina dos arcos. E ela se sentiu renascida e amada. Sequer escutou os aplausos e o brilho da noite escorreu entre os dedos e entre os braços e entre as bocas. Sussurraram outros silêncios e outras canções se fizeram. Abriram-se as janelas para um jardim e o sol nasceu assim, sem horário certo, junto com a lua no céu.

A menina dos arcos, hoje pinta auroras, entardeceres e chuvas nas tardes de verão. Ela acha graça quando o pincel faz uma pirueta que não está certa e cria um desenho diferente do imaginado. Uma borboleta de asas mais curtas, uma chuva torta, um raio de sol ondulado, uma lua azulada... Desenhos que saem vivos do papel e colorem caminhos, rios e quintais.

E então, ele a convida para andarem de mãos dadas pelas paisagens que desenha. O castanho escuro dos olhos é sempre a aventura que ela torna a viver. E se perde em danças, em folhas soltas da ventania que despenteia seus cabelos. Vive a estreia a cada passo, embalada no olhar que ampara o erro, recria o salto, descansa a alma, descobre o amor e perdoa a vida.

E viveram felizes em todos os dias belos. De mãos dadas, para sempre.

FIM

[Maria Amelia Mano publica na Rua Balsa das 10 às 3as-feiras]

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