Quando eu desacreditei na medicina...

     Sim, isso aconteceu. No auge dos meus 15 anos, uma época reconhecidamente difícil para em geral todas as pessoas. Eu iniciei com uns vulgo “calombos” nos meus braços sem explicação aparente (afora o fato de eu tocar violão e guitarra umas cinco ou seis horas por dia além do colégio). Fui no médico e ele disse “nada de tocar violão por 20 dias”. Obedeci. Os “caroços” que insistentemente eu apertava para tentar fazer voltar para o lugar de onde vieram começaram no braço direito. E bem 20 dias aumentaram a dor e não alteraram nada o quadro inicial, mais repouso para a adolescente.

    Depois de alguns meses repousando muito e tentando fazer alongamentos, começou a fisioterapia, calor local, fortalecimento. Tudo parecia piorar, e eu que tentei inverter as cordas do violão para tocá-lo “virado” e parar de lesionar a mão direita logo desenvolvi o mesmo problema na mão esquerda. Começaram os exames: raios-x, ressonâncias, ultrassons, marcadores. Até uma conclusão insatisfeita do meu médico de que “isso aí é raro: bruxaria”. Começaram os medicamentos, doses cavalares para dor, pílulas, antidepressivos e tudo que poderia descer pela minha garganta. Eu não gostava do médico não lembrar do meu nome, ter que ler o prontuário toda a vez, não examinar meus “calombos”, e pior ser “a menina sem solução” com um olhar com um misto de pena e curiosidade. Não foi um, foram vários. Meus marcadores eram surpreendente sempre bons, negativos – as notícias eram desanimadoras, minha adolescência era desanimadora. Além da dor de ter que parar de tanger as cordas do violão.

Comprimidos. Fonte: Google imagens

    Foi mais ou menos um ano assim, de médico em médico, especialista para super-especialista, psicólogo, fisioterapeuta, hospital, laboratório, punções, e de volta para o especialista. Esgotada depois de um ano tomando e seguindo os repousos, exercícios e o que podia fazer cheguei em casa e falei: “não vou mais tomar remédio nenhum”. Cansei, suspendi sozinha tudo. Era melhor suportar a dor do que os efeitos colaterais dos remédios e dos tratamentos. Meu pragmatismo médico acabou ali. Desacreditei. Decidi tomar as rédeas do meu tratamento.

    E parti para uma nova jornada da minha vida e tratamento: seguir o que as pessoas me diziam. Primeiro fui me benzer, porque já que era “bruxaria” deveria tentar resolver isso. Fui em um benzedor, uma benzedeira, outro benzedor. Perdi a conta, mas me benzi, retornei, me benzi de novo. Tinha mudado a política de cuidado, iria tentar tudo e tudo iria me tentar. Fiz regressão, hipnose, e tomei passes. Terapia holística, cromoterapia, aromaterapia, acupuntura. Fui em um padre que dava “gotinhas”. Fiz tratamento espiritual, cirurgia espiritual, a procura do que a minha alma precisava. Tomei centenas de banhos de sal grosso e com outras ervas. Parei de comer carne, glúten, e até por um tempo tomei cinco litros de água por dia.

    Acredito que o mais difícil de todos foi tomar babosa por seis meses todos os dias, todas as manhãs. Usava suco de laranja para amenizar. Fiz homeopatia. Fui em muitos massagistas, fiz alongamento, parei de fazer alongamento. Tomei chás, de todos os tipos. Usei arnica, erva de baleeira, e misturas que me deram ou eu comprei. Li livros. Fiz, refiz e desfiz amizades. Lavei a minha alma chorando. Estudei anatomia, filosofia, antropologia, meditação. Chegou um tempo em que me perdi, não sabia mais no que acreditar. Mas me (re)construí, abri a minha mente. Estava constantemente acompanhada pela dor. Parei de tocar e comecei a escrever – minha alma inquieta não aguentava o silêncio das cordas, procurei amparo nas palavras.
A famosa babosa. Fonte: Google imagens


    Segui visitando os médicos, não tão certa. A medicina não me dava respostas, mas como em tudo que estava acreditando segui na crença em mim. Propostas de cirurgias, novos medicamentos, novos exames, novos diagnósticos para meu corpo cansado de dezesseis-dezessete anos. Mas com o tempo fui me modificando, encontrando os pontos de equilíbrio. Descobri que a acupuntura me fazia bem, que a meditação me ajudava a controlar a dor. E não tão contente e nem tão descontente fui me conhecendo, buscando a minha alma, crescendo. Equilibrando.

    Fui reconhecendo o que de fato me cuidava e me aproximei mais. Já com dezenove anos, depois de muito rodar voltei a tocar violão, e para fazer “um movimento diferente com os dedos” comecei a tocar bateria. Já sabia que não poderia seguir na carreira musical (aquela velha história: você pensa que sai da música, mas a música nunca sai de você), desenvolvi mais a minha escrita. E (re)construí no meio da minha descrença a vontade de cursar medicina. Reconstruí porque era sonho antigo, desses que ficam guardados da infância. Descobri antes de entrar na faculdade que queria abraçar meus pacientes, reformular o que eu passei, conhecer eles além da anamnese. Saber os nomes, conhecer as histórias e saber que a medicina por si só era limitada.

    O diagnóstico mesmo, veio muito tempo depois quando já estava na faculdade de medicina. Hoje não digo que desacreditei na medicina, mas passar por essa miscelânea de vivências me fez acreditar em outros cuidados que vão além dela.

[Mayara Floss publica na Rua Balsa das 10 às 4as-feiras]

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