COMO UM SOL NUM QUINTAL



A lua dilui-se lentamente e um sol menino espreguiça os braços translúcidos...
Clarice Lispector

Descubro em conversas com os gestores de Pelotas que os programas atuais do Ministério da Saúde não deram conta de manter médicos na comunidade da Vila NovaEntão, lembro do meu último momento na Vila Nova, Conselho Distrital, abril, fria noite de sexta-feira. Galpão de colônia. Mulheres fazendo remendos. Crianças fazendo barulho e bêbados entrando e saindo, opinando (às vezes com sabedoria) sobre tudo e recebendo as reclamações da comunidade, porque "bêbado nunca tem razão". Após algumas discussões sobre a mudança de porteira, onde a máquina da prefeitura vai passar pra limpar e o escoamento da produção, entre outros, eu sou convidada a falar e me despeço do meu quintal, alertando para a necessidade de se ter médico sempre, ali.

Sempre que ouço a musiquinha do Belchior, Divina Comédia Humana, sinto direitinho as palavras: "...quando você entrou em mim como um sol num quintal...". Aaah, que delícia! Pedacinho de sol no quintal é prêmio, pérola, luxo, desejo, rede posta na parede, samambaia da mãe caindo do jarro, cachorro amigo te seguindo com os olhos e um cheiro de café passado invadindo a alma... Hora do pão com manteiga... Quem dera quintal! Criança, mudei muito de cidade e, sempre que chegava na "casa nova", ia ver como era o quintal. Lembro de todos: os "mais pequenos", os maiores e melhores, os que tinham goiabeira, os que tinham pé de sirigüela. Quintal é espaço de brincadeira, de aventura, aprendizado e sonho. Assim, eu queria o espaço em que eu atuasse. Mas que fosse o quintal de muitos, o quintal de todos. Assim, o meu quintal é também "meuPosto de Saúde.

Em novembro de 2001, começo a trabalhar no pequeno Posto de Saúde da Vila Nova, parte do 7º distrito de Quilombo, distante de Pelotas, cerca de 25Km, estrada de terra. A comunidade se caracteriza pela colonização alemã, italiana e francesa. Possuía, na época, cerca de 3.500 habitantes, em sua maioria pequenos agricultores que viviam,quase todos da horticultura e fruticultura; viviam "das safras". Ainda hoje é uma região empobrecida, onde os agricultores não têm condições de comercializar a produção, dependendo de intermediários. O trabalho mais intenso em determinadas épocas do ano, como no plantio, e na colheita, eram o principal fator de influência na presença ou na ausência das pessoas no posto de saúde. Em época de safra "não se adoece". A necessidade obriga as pessoas a adiarem as dores.

A unidade de saúde era minúscula e tinha sido construída pela própria comunidade, em parceria com a prefeitura. Tínhamos uma linha telefônica que falhava com as chuvas. Havia um centro comunitário próximo e uma fábrica de doces em caldaMuitas doceiras vinham consultar com seus aventais sujos de figo e morango. transporte até o serviço de saúde era difícil, as tarifas eram bem caras, havia restrição ao transporte gratuito de idosos (permitido apenas uma vez ao mês, para receberem seus vencimentos na cidade). Isso fazia com que muitos pacientes caminhassem longas distâncias a pé para consultarem. Dependendo das condições da estradaem períodos de chuva, o trajeto podia nem ser possível. Sem falar dos casos frequentes de quebra dos ônibus.

Assim, com tantas dificuldades, era difícil organizar a demanda que dependia da safra, do tempo e do transporte e dos remédios que viviam faltando... Resolvi, então, na tentativa de escutar todos, fazer um grupo com os pacientes crônicos que eram muitos. No começo foi difícil. Isso implicava em diminuição dos atendimentos individuais, mas ampliava o acesso a todos. A servente, Lorena, se incomodava com aquele "monte de gente no posto" fazendo "bagunça" e sujando maisEra muita gente mesmo. Cada grupo juntava 20 pessoas em uma salinha minúscula. A auxiliar de enfermagem não me auxiliavaA recepcionista marcava pacientes extras que me obrigavam a sair do grupo...

Sem esperar pelas autorizações e solicitações e requerimentos, eu própria resolvi organizar o cadastramento e o planejamento, em pastas coloridas com etiquetas não menos coloridas. Elaborei fichas, carteiras de usuários e prontuários. Enquanto isso, também, dava jeitinhos na minha sala. Idas e vindas de ônibus, levando um banquinho com almofada xadrez do 1,99. Cortinas azuis, feitas pela minha mãe, de tecido de lençol. Um pôster de floresta na parede. Porta-lápis/caneta, tudo bonitinho... Enfim, "uma sala que nem na secretaria de saúde, tem igual!", como me disse uma funcionária. Era o quintal que eu queria, queria muito, ver entrar sol.

Nos grupos, o que mais aparecia eram os "problemas dos nervos" e combinamos, então, que íamos falar disso nos encontrosIncentivava que me procurassem para falarem destas outras dores que nem sabemos onde é, mas que doem até mais. A participação das pessoas nos quatro grupos foi imensa e chegou a ser comovente. Conheci muitas histórias de sacrifícios e dificuldades, a lida na roça, a solidão e as distâncias, os limites do corpo que não mais dá conta do trabalho pesado, as asperezas das mãos e dos tempos de chuvas, ventos e sol escaldante. Entendia que a compensação das doenças dependia também da escuta.

A estas alturas, depois de muito esforço e insistência, a equipe começou a enxergar resultados e, estimulada pela presença, pelo movimento, pela animação e pelos assuntos do grupo, começou ajudar mais. Lorena, que tanto reclamava da bagunça daquela "gentarada toda", resolveu, um dia, junto com a recepcionista, depois de muitas espiadinhas e caretas, servir bolinhos e chás para os participantes. Afinal, todos vinham de longe, muitas vezes a pé e passavam a manhã toda no posto, tinha que dar fome mesmo. Com o fichário e cadastro de todos os pacientes informado à secretaria de saúde, nunca mais faltou remédio 

Primeiros raios de sol clareando meu quintal...



Lorena se aposentou. Filha e neta de agricultores, ela fazia mais do que arrumar as salas e limpar os banheiros. Capinava o pátio do posto, cuidava das plantas dos arredores, plantava flores... Fazia bolo e pão caseiro. Era diabética e depois de meses de resmungos e ajudinhas discretas, na despedida, ela disse: "agora eu vou cuidar de mim e este vai ser o meu grupo!" Assim, os encontros foram se fortalecendo, criando laços, conversas animadas. Falavam dos filhos, dos netos. Era o quintal das brincadeiras, dos sonhos, das trocas, dos encontros.

Aí o tempo virou. Municipários em greve e pressões por melhores salários e condições. Não fiz greve, mas foi tenso. Precisei substituir uma colega de licença em uma outra colônia mais distante ainda. Eram dois dias fora do meu quintal. Pedi para participar do Fórum Social Mundial e não me liberaram. Comecei a ser "insubstituível". O quintal começou a criar cercas altas e os sonhos começaram a ser maiores, maiores que os limites da Vila Nova. Assim, enquanto escrevia meu memorial, para a seleção no mestrado, avaliei minha trajetória. Percebi que vaguei mil quintais, mas que, por um motivo ou outro, precisei deixá-los, às vezes quando o sol recém os invadia... seja porque os quintais começavam a erguer muros tal qual uma grande prisão. Seja porque tudo o que se faz nos pequenos quintais é de um esforço tamanho para tão pouco reconhecimento e incentivo.

Em 2002, quatro meses após a minha saída da Vila Nova, o Ministério da Saúde cria o Sistema HiperDia: Sistema de Cadastramento e Acompanhamento dos Portadores de hipertensão arterial e diabete melito. Algo que já existia desde 2000, somente com cidades com mais de 100 mil habitantes e sem priorizar a atenção primária. Anos depois é criado o Programa de Farmácia Popular disponibilizando medicamento gratuito. Depois, ainda, se estuda a forte ligação entre depressão e hipertensão diabetes, incorporando "novas tecnologias" como... grupos... para dar conta do cuidado... Tudo considerado relevante para o cuidado com doenças crônicas, tudo baseado em grandes estudos e evidências...

Em 2012 o Ministério da Saúde cria o PROVAB e em, 2013, o Mais Médicos. Ambos são um incentivo à interiorização, mas mais que isso, entendem a necessidade de manter profissionais em áreas de difícil acesso e com grandes demandas e vulnerabilidades. Parece que, apesar do clima de estreia, não há novidades. Para quem está na estrada, o que se planeja lá em cima, se vive, cá embaixo, há muito tempo. Programas, cadastros, comorbidades, tecnologias, incentivos, atrasos em despertares e iniciativas. Comissões e grandes dossiês, ensaios de realidade, planejamentos caros com experts... Tudo válido, tudo permitido, tudo com imensa importância. Reconheço isso.

Mas, sabe, em muitos momentos, penso que seria também valioso para quem planeja, para quem tem poder, conhecer essas realidades de carne e osso. Sair do papel. Pegar o ônibus, caminhar na estrada, ver a distância que as pessoas percorrem, o esforço que os profissionais esperançosos e teimosos assumem, quase sempre sós, quase sempre sem estrutura, sem certezas, sem apoios, quase sempre cheios de sonhos de mudar, não o mundo que ele é grande demais, mas só clarear um quintal, raiar um sol, abrir porteiras, derrubar cercas, construir outras moradas. Moradas que não estão escritas em protocolos, em leis, em manuais que não sabem reunir as pessoas, não pisam na lama, não esperam condução...

Agora, como supervisora do PROVABfaço questão de provar das estradas, das distâncias, dos ventos frios, das lutas mínimas, dos sonhos e decepções. Na última semana, disse adeus para a minha primeira turma de Pedras Altas, Pelotas, Pinheiro Machado, Hulha Negra e Dom Pedrito. Pampa distante e pobre. Muita atenção, amigos que criam e planejam! Neste momento, a todo momento, nestes ou em outros lugares,alguém desiste de um sonho, abandona um jardim e alguém busca um cuidado que não tem. Que o que está no papel percorra as ruas e as roças, os campos de difícil acesso.Que eu volte para a Vila Nova e veja alguém sentado na sala que foi, um dia minha, meu quintal. Que eu encontre nos olhos dessa pessoa o mesmo brilho que ainda conservo quando espero na rodoviária, com o cansaço dos dias, o próximo ônibus para o interior.



[Maria Amélia Mano escreve na rua balsa das 10 às terças-feiras]

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