"A VIDA NÃO SE RESUME EM FESTIVAIS"


“A VIDA NÃO SE RESUME EM FESTIVAIS”
Geraldo Vandré


            Era início dos anos 80, fim de ditadura, democracia, artistas retornando ao Brasil. Eu, lá com meus 8 anos, entendia nada do que se passava, apenas sabia que tinha uma “anistia” e isso estampado nos jornais e as outras palavras novas já me davam uma sensação de importância e novidade. Eu bem que podia ser personagem daqueles filmes em que a visão política de crises, ditaduras e ideologias são contadas por uma criança. Tipo: “A culpa é do Fidel!” ou “O ano em que meus pais saíram de férias”. As tirinhas da Mafalda servem também. E tudo isso misturado com cidade nova, casa nova, escola nova e colegas novos. Nada parecia ser coincidência e era óbvio que a dita “abertura” devia ter algo a ver com aquilo tudo.
            Ema manhã, a escola que estudava foi invadida de forma ditatorial e arbitrária por um grupo vestido de branco, “armado” de pistolas e que, para meu bem e, possivelmente, para o bem da nação, pretendia aplicar aquela pistola no meu braço direito. Era o que chamavam vacina da BCG. Oras, não fui avisada e tampouco consultada sobre aquela ação e sabia muito bem o que significava vacina: agulha! Aquilo era inaceitável! Precisava não só me escapar daquilo como também, proteger minhas irmãs de tamanha brutalidade. Não sei como consegui resgatar minhas irmãs mais novas e, com a ajuda de uma professora risonha e generosa (talvez irresponsável), fugimos do colégio.
            Na rua, a coragem diminuiu. Sabia pouco onde ficava nossa casa nova, em rua de cidade nova e acho que demos algumas voltas até que finalmente, chegamos. Confesso que me senti heroína em ter chegado com as meninas em casa, sãs e salvas das vacinas. O pai se surpreendeu com a nossa chegada, cedo, sozinhas. E quando falei da vacinação e toda a ameaça e toda a nossa aventura e fuga, ele só riu. Sempre adorou subversões. Não brigou. Apenas disse pra gente ir pra cozinha com ele ajudar e experimentar o almoço. Logo a mãe chegou assustada. Tinha ido nos buscar e disseram que já tínhamos saído do colégio. Ficou um pouco brava, mas depois relaxou. Fui anistiada!
            Era véspera de semana santa. O pai fazia bacalhau e ouvia rádio. Música legal do Geraldo Vandré: “caminhando e cantando e seguindo a canção...”. Aumento o volume e ele pede pra diminuir: “música proibida!”. Não era mais, mas fiquei mais interessada. Ele contou a história da música do seu jeito de contar, para uma criança de 8 anos. Disse que por causa da música, aquele homem de voz engraçada teve que fugir e se esconder. Era encantador. O dia foi encantador. Fuga perfeita, acolhida de pai, música nova-velha “desproibida” bonita, cheiro de bacalhau, feriado e o melhor pra mim, na época, escapamos da BCG. Que nem o cantor, me revoltei e desobedeci. Talvez eu fosse uma subversiva e até me agradei da ideia.
            Cresci e entendi melhor não só aquele momento político, mas também, a importância da BCG. No entanto, “pra não dizer que não falei das flores” me lembra sempre cheiro de bacalhau, me lembra eu e minhas manas, “braços dados”, “caminhando”, fugindo da vacina. A letra me lembra até hoje, nós três perdidas entre a escola e a casa. “Vem, vamos embora, vamos fugir da BCG...” Até rima! Sim, nenhuma de nós tem a marca. Não fomos vacinadas depois. A ausência da marca no braço direito é uma boa história de contar em um tempo político tão duro e uma época da vida tão doce.
            Mas a “vida não se resume em festivais”, fugas, cirandas de crianças, feriado, páscoa, carnaval, copa e almoço de pai. A vida também não se resume nas vaias nos festivais, nas manifestações, nos palanques, nas subversões públicas em palavras gritadas. Faz parte, mas o essencial é a busca incessante de justiça e ética nos nossos espaços de convívio. Simples demais para um guerrilheiro, talvez. Pouco demais para um revolucionário, quem sabe. Estamos em tempos de Comissão da Verdade para apurar os crimes da ditadura, depois copa e eleições. Esperemos que o mais valioso em uma nação jamais se torne banal: cuidar das crianças, cuidar da infância.
            Semana passada, descobriram no necrotério de um hospital público no Rio de Janeiro, ligado a uma das mais importantes universidades públicas do estado, 40 corpos amontoados de fetos e bebês que, segundo o diretor da instituição, foram abandonados pelas mães em função de “condições sociais”. As condições sociais, certamente, incluem as perversidades do estado que fecha os olhos para a epidemia de crack, sem nenhuma política pública eficiente para a proteção de mulheres e crianças. As crianças que nem nasceram, as crianças que morreram sem verem as luzes do dia e as crianças que estão aí, na escuridão de becos e ruas, sofrendo violências. Desamparo.
            Amontoam os corpos das crianças mortas abandonadas. Abandonam as vidas das crianças amontoadas nos lixos. Ameaça maior que agulha. Tristeza maior que a falta de carinho, falta de memória de uma meninice com páscoa e natal, escola e casa nova. Violência tanta que nem assassinato por subversão. Tortura que nem busca delatores. Música, ciranda proibida de uma infância censurada. Sem anistia por se nascer em contexto adverso. Sem abertura para se permitir a devida visibilidade. Sem Comissão da Verdade para diretores e gestores que responsabilizam o “problema social” e se eximem de culpas. Achava, criança, ouvindo a música e as explicações do meu pai que a dita democracia era pra ser melhor, mais feliz, mais justa...
            Quando nada fizer sentido e nem mesmo a democracia, a nova constituição, a liberdade de fazer e cantar canções salvar as crianças, a infância, a esperança, o futuro, resta a revolta para fugir para um lugar seguro. O sonho da casa com pai e mãe, quintal, castelo, sonho, gaivota no céu, feriado, escola, um avião e um navio desenhados, o mundo melhor. Resta ainda a luta. A luta nossa contra a desumanidade que amontoa corpos de crianças como se fossem entulho. Contra esse discurso perverso que culpabiliza a “mãe viciada”, o “problema social”. Contra essa democracia que, de fato, nunca se fez governo de todos, bem comum, direito de viver e morrer com dignidade.

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