Aconchego


       Deixo a água quente escorrer pela boca da térmica dentro do chimarrão. Toda semana, na quinta-feira, abro a minha agenda que recebi de presente da Liga de Educação em Saúde antes de vir para a Irlanda. Seguindo rigorosamente a promessa de não abrir a agenda antes de chegar a data da semana seguinte. O meu aconchego nas terras geladas irlandesas, recebo o carinho distante dos meus amigos. Vejo o que estão fazendo, organizando, as postagens no facebook. Leio, mas sinto falta de estar lá, dos abraços e até da dinâmica e da coreografia do "E-po-e-ta-tá". 

      É aquela presença-ausente da distância. É você perceber que você está com eles e vice-versa porque não é só o artesanato que carrego como chaveiro na mochila que me lembra as artesãs, nem a toalha que ganhei de presente da esposa do enfermeiro do posto de saúde antes de partir, é a presença no que falo, no que escrevo, nas minhas reflexões e na minha saudades.

       Não passa um dia sem falar da Liga, sem rever algo, sem conversar com alguém. Hoje, minha "Host mom" estava com dor de garganta e fiz um chá. Receita antiga de mel, limão e gengibre (quando estava em casa, certamente com o famoso chá de guaco), com a eficácia comprovada ou não, um chá que tem um ingrediente especial: o cuidado. E ela me disse: "Nunca nenhum médico cuidou de mim assim". Eu não sou médica ainda mais esse cuidado que aprendi Liga, ultrapassa as palavras, é aquela velha-nova história de não cuidar pela metade, não é só o remédio, a receita é também a conversa, o olhar, a confiança. É poder olhar pela janela da artesã e ver o mar e os leões marinhos. 


      Enquanto escrevo meus amigos, a Liga, parte para viajar para Gramado para o Congresso WONCA - Rural, muitos trabalhos aprovados, workshops e muita responsabilidade. Coração na mão, vontade de estar lá, vontade de fazer cada minuto valer a pena  aqui e o desejo de boa ventura. Dia 3 de abril, abro minha agenda e vejo os leões marinhos que a Jéssica aprendeu a modelar com a própria mão. A Suzi que é a líder das artesãs da Barra ensinou ela numa dessas tardes frias de Rio Grande durante as férias da Greve. Penso que vai ser a acolhida da Liga de Educação, a primeira reunião do ano letivo com os novos alunos e a primeira que eu não estarei presente. E a Educação Popular passa assim, de mão em mão, sabendo que não é só o conhecimento médico, é aprender a fazer leões marinhos, chás, escutar, falar, cuidar com a própria mão, sentir saudades e aconchego...
  
Voam abraços,
Mayara

[Mayara Floss publica na Rua Balsa das 10 às 4as-feiras]

Comentários

As mais vistas