Ao educador as batatas



 Este texto foi publicado no livro "A colcha de retalhos: Vivências da Liga de Educação em Saúde", conheça mais clicando aqui.

    Sempre gosto de falar que o meu pai é engenheiro florestal e a minha mãe é bióloga – talvez, goste de falar pela influência de tantos fatores diferentes principalmente em relação a natureza na minha formação. Claro que falei isso um dia na comunidade da Barra para a Celina, uma senhora muito simpática que tem um jardim vasto ao redor da sua casa, ali tem flores, árvores, plantas de chá, frutíferas, arbustos... Um “matagal” – como o filho dela diz, para ela um lugar harmonicamente organizado. E de fato é, porque ela conhece cada palmo daquele chão e daquelas plantas, tem uma mapa detalhado de onde fica cada planta, vaso, semente, flor.

    Não raro, você passa na frente da casa da Celina e ela está caminhando levemente encurvada remexendo em suas plantas. Ela quase sempre anda com um lenço amarrado na cabeça, sempre colorido, passeando pelo terreno. Quando está sentada na varanda fala com sua imensa sobre os chás e as flores com sorrisos espertos e carinhosos.

    Quando eu falei que meu pai era Engenheiro ela parou e falou imediatamente: “Então você poderia trazer umas plantinhas para mim!”. Na verdade, ela corrigiu depois e disse que eu poderia “roubar” umas plantinhas para ela, afinal como ela explicou planta roubada “vinga melhor”, ela sempre brinca com a vizinhança que está com flores bonitas e que vai passar a noite roubar uma muda da planta. Eu não esperava aquele pedido, mas não poderia negar.

    Só que eu acho que a Celina esqueceu que eu moro cerca de 1000km de distância de Rio Grande, no oeste catarinense. Mas agora estava feito, estava comprometida em ajudar com ela no seu jardim. O que certamente ela gosta muito, então enquanto não ia para casa, comecei a pesquisar sobre armadilhas de caramujos (tem uma com uma lata de cerveja que funciona bem!), receitas caseiras para formigas, plantas medicinais, flores.

    Comecei a levar para ela mudas que conseguia comprar no centro, textos de livros sobre plantas medicinais que meu pai indicava, formas de plantar, épocas, colheitas. Mas ainda não tinha levado as tais plantas roubadas, o que ela adorava me lembrar. Ela nem escolheu a planta, só colocou a condição “tem que ser de Santa Catarina”, afinal a Celina é minha conterrânea.

    Foi ai então que nas vésperas de um feriado avisei meu pai para preparar as “plantas roubadas” para quando eu voltasse do feriado então trazê-las. Foi ai que começou a saga das batatas yácon (Smallanthus sonchifolius), as quais meu pai pesquisava e estudando um pouco mais descobri que elas são um importante alimento funcional pois tem bastante frutano, um tipo de açúcar não absorvido pelo trato digestivo e empregada na dieta adjuvante para pessoas com  colesterol alto e diabetes.

    Meu pai tinha muitas batatas yacón no herbário de plantas medicinais então não seria difícil “roubá-las” e eu gostava das tais batatas que são de origem andina e são consumidas cruas. Além disso, era época de plantar o yacón. Tudo minuciosamente calculado. Fui para casa e na hora de voltar tinha a minha mala, uma mochila, meu travesseiro (companheiro inseparável) e uma caixa consideravelmente pesada carregas de mudas de batata yacón (estava levando as batatas para consumo para que pudessem experimentar). Em Porto Alegre eu teria que trocar de ônibus em pleno domingo de manhã em feriado.

    Quando eu estava atravessando a rodoviária de Porto Alegre a duras penas, rompeu a parte de baixo da caixa (que havia sido reforçada) e as tais batatas saíram rolando para todos os lados. Tive que largar tudo para catar as batatas e improvisar em um saco plástico, uma cena cômica pensando agora e desesperadora para um momento apertado no qual eu tinha que correr para trocar de ônibus.

    Mas consegui coletar as batatas naquela rodoviária vazia. Na sexta-feira seguinte cheguei triunfante na comunidade carregando as batatas. Infelizmente, a Celina havia viajado para Santa Catarina naquela semana e eu não pude entregar as batatas para ela plantar. Mas as artesãs experimentaram as batatas que eu lavei e cortei na cozinha na Unidade Básica de Saúde tradicional da Barra durante o encontro da Liga de Educação em Saúde.

    Os integrantes do grupo dividiram as batatas entre si e plantaram as mudas da Celina em um balde para entregar a ela quando ela voltasse de viagem. Hoje elas já estão no jardim da Celina, com folhas verdes e mais ou menos meio metro de altura. E claro, ela já me pediu outras plantas “roubadas” depois que cumpri a promessa do yacón. E assim se faz também a Educação Popular, com batatas! Por isso, parafraseando Machado de Assis no seu livro Quincas Borba: “Ao educador, as batatas”.
 
Voam abraços,

Mayara Floss

 [Mayara Floss publica na Rua Balsa das 10 às 4as-feiras]

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