Eco


Viver é afinar o instrumento
De dentro prá fora
De fora prá dentro
A toda hora, todo momento
Walter Franco


 Por três noites durmo em um quarto com uma caixa de instrumento musical estranha. Parece aquele desenho clássico do Pequeno Príncipe, de uma cobra que engole um elefante. Pergunto ao dono, filho de uma amiga que me acolheu nas férias e ele me responde: “é sitar!” E faz questão de dizer que não é cítara, como pensam, mas um outro instrumento. Comprou em uma viagem à Índia. São 19 cordas, sendo que tocar, tocar mesmo, somente 6. Na verdade “beliscar”, sim, sitar é instrumento de cordas beliscadas. As 16 restantes são para um dedilhar eventual, uma continuidade de notas, uma permanência que, de forma simplista, chamo de eco. Enquanto passa os dedos nas cordas que se enrolam e abraçam a madeira entalhada de forma artesanal, o músico me diz que precisa afinar as 19 cordas e que isso dá um grande trabalho.



 Minha ignorância musical impede de falar mais sobre a sitar, sob pena de dizer absurdos. Apenas quero falar da minha surpresa em saber que um instrumento valoriza mais o eco, na verdade a reverberação, o som misturado que fica “pra depois” do som direto. Ora, em 19 cordas, 13 são para “eco”... É praticamente a tentativa de se demorar no depois, de estender o durante, de eternizar para até onde o som puder ir: eterno enquanto dure. Música para além. Música mantra. Aqueles sons que ficam e ficam quase como barulho de vento, sem palavras. Música de escadaria de colégio, de salão de baile vazio, de desfiladeiro, de abismo. Música de criança que adora testar esses vãos e gritam, animadas, surpresas com os sons que voltam para elas.


 Imaginava que o eco era a resposta da terra, trazida pelo ar. Voz que volta com um outro tom: tom de música de vento, de limite, de vazio. Mas, na verdade, é a mesma pergunta feita de jeito diferente. O que lançamos para o aparente nada, volta com outras cores, outras asas. Não é resposta, é a mesma pergunta ressignificada, mudada pela natureza do ar, pelos obstáculos que o som passa, pelas distâncias e as intensidades. Talvez um pássaro no meio do caminho, uma pedrinha que cai na hora exata ou só um orvalho torne o som que volta, a pergunta que retorna, diferente, mais leve ou mais dura, mais alada, mais melódica, mais assustadora...

 Minha ignorância das leis da física me impedem também de falar mais do som, da diferença de eco e reverberação. E nem tentarei de forma irresponsável falar da filosofia e dos jeitos de pensar e viver, de cantar e de orar de uma Índia distante, exótica e misteriosa para nós, ocidentais. Lugar que, um dia, quero visitar. Só, humildemente, fico com a ideia de valorizar o eco como algo produzido em comunhão com o universo, algo para ser mais do que é, com mais tempo, algo também para ser música, arte. A nossa pergunta que, na beira do abismo, volta, e volta pergunta mesma, dúvida igual, mistério de mundo, incerteza refeita, ilusão de resposta, utopia de saídas. Assim, na minha insignificância em compreender, resta venerar as perguntas que fazemos em momentos de vácuo, labirinto, beira de cânion...

 Do que não conhecemos, do que não sabemos, do que desejamos intensamente respostas, a música-eco de 13 cordas para dançarmos, juntos ou solitários, no infinito, a incerteza dos nossos dias, as surpresas das vidas nossas e de quem amamos. Afina-se as cordas de eco, a pergunta, a angústia e o alívio, tal qual se afinam as cordas do som direto da vida. Em alguns abismos, com lágrimas e sonhos, também precisamos afinar nossas perguntas, pacientemente. Sem esperar que voltem respostas. Mas aprendendo, com o ar, que quase tudo é invisível, que quase nada podemos pegar com as mãos e que um sopro distante, um canto de pássaro, um assobio de criança ou até mesmo nossos soluços mais escondidos nos apontam um caminho novo, trilha de início de tempo, de recomeço.


 As respostas nossas, depois, são achadas em nós mesmos e aprendidas em lágrima ou sorriso primeiro. Temporárias como nós, as respostas também podem virar música. Ou podem virar poema de estrada e caminhada. Podem ser silêncio, ainda. O mesmo silêncio que nos invade quando chegamos ao fim da trilha, caminhando sem saber, passo a passo descobrindo razões. Quando avistamos a praia, a coluna de rocha do cânion com pequenas cachoeiras sangrando a terra, distantes, altas, perto do céu. Daí, nem sei se tem instrumento de corda, sopro ou percussão que dê conta. É a ausência e é a presença de todas as notas ao mesmo tempo. No fim do esforço de seguir, enfim, a canção sem eco das nossas respostas temporárias: o primeiro voo de uma ave pequena empurrada do ninho pela mãe.

 Então, a resposta está também aí, nesse primeiro susto de sair, nesse primeiro suspense de voar, nessa primeira carícia do vento na asa e mais, na descoberta da própria asa, do próprio voo. Está no descanso orgulhoso do pouso. Está na onda circular que se forma em volta da pedra que cai na água e afunda. Porque a resposta ou as respostas, os segredos, não estão inseridos somente nos fatos em si ou nas notas diretas. Mas, também, no que persiste, no que insiste em ficar, em ressoar, em ondear, em refletir... A onda que bate de levinho na margem do rio e acaricia a terra guarda mistério tanto quanto as gotas que sobem do rio quando a pedra atinge a água. Quem voa, quem atira pedras, quem caminha em cânions, quem faz canções, quem vive a beleza, afina o olhar para tudo, porque em tudo há vida, movimento, caminho, resposta e canção.






[Maria Amélia Mano publica na Rua Balsa das 10 às 2as-feiras]

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