O LUGAR DA ALMA (Maria Amélia Mano)




Em cada céu em cada chão
Minha alma lá deixei.
Fogaça

            Onde as crianças dormem” -“Where children sleep”- é um livro do fotógrafo James Mollison que conta um pouco da história de diversas crianças do mundo a partir do lugar onde dormem e sonham. Mais do que arte, mais do que mostrar culturas, diferenças e contextos, Mollison faz denúncias. As condições de vida e as injustiças sociais são reveladas. Há a menina de 7 anos do Nepal que trabalha em uma pedreira de granito por 6 horas ao dia e compartilha sua cama, no chão, com os pais e irmãos. Há o menino que dorme em um colchão feito de pneus em um lixão.

            Olho para as fotos e penso em tantos lugares que deveriam ser especiais, quase sagrados. O lugar de dormir, o lugar de saborear refeições, o lugar de brincar, o lugar de amar, o lugar de aprender, o lugar de crescer, o lugar de tecer, o lugar de plantar, o lugar de rezar, o lugar de parir, o lugar de sonhar, o lugar de seguir, o lugar de sorrir, de festejar, o lugar de chorar, o lugar de morrer, o lugar de velar, o lugar de cuidar...

            Assim, fico com imensa vontade de reproduzir e extrapolar essa ideia dos lugares onde se faz a vida em pequenas ações, onde se fazem histórias em pequenos fragmentos. Onde de forma silenciosa e anônima, professores exaustos e mau pagos insistem no ofício de alfabetizar. Onde crianças descalças inventam uma bola de futebol, um campo improvisado. Onde, embaixo de uma árvore, jovens ensaiam canções. Onde, atrás de um balcão de confeitaria, nasce a mais linda poesia em um papel de pão.

            O “arranjo” e o “improviso” para os lugares e ações valiosas são, na realidade, a invisibilidade dessa magia cotidiana que é o desejo de seguir, de criar, de insistir, apesar da luz fraca, da distância, do pouco tempo, da falta de cadeiras, da falta de papel, da falta de janelas, do frio, do calor, do vento, da solidão. Desejo que não se esmorece com a ausência, com o silêncio, com o descaso. Desejo que se vira com o que tem, sem nem mesmo questionar, mas por que mesmo tem que ser assim, esse pouco, esse quase nada?

            O lugar de cuidar...

            Profissionais de saúde, para manterem o mínimo de dignidade e privacidade, pedem ajuda à comunidade ou a famílias que cedem uma salinha na igreja, um quarto na casa. Sem desmerecer as iniciativas, sem desvalorizar o esmero e o carinho com que cedem, com que arrumam, com que recebem e compartilham da carência. Sem nunca esquecer do orgulho das pessoas de poderem ajudar, oferecendo o melhor, o que se tem. Sem falar da generosidade do café feito na hora, o bolo de laranja, a conversa, o sorriso das crianças... Sem falar do que não tem preço, porque não tem palavras.

            Mas é preciso ter palavras para falar do que tem preço, do que tem custo, do que deve ter responsabilidade, do que deve ter comprometimento, do que deve ter humanidade, dever. Nem só de poesia vive o dia, o ofício de um médico ou enfermeiro que, junto com a comunidade, improvisa da melhor forma, o espaço de cuidado. Também esse improviso, o lugar onde os médicos cuidam, tal qual o lugar onde as crianças dormem, é denúncia, é desrespeito, é desatenção, é desamor.

            Sim, gestores, poderes, quem está de longe, quem sente pouco, quem não se importa, não entende que o lugar de escutar, de cuidar, é sagrado. Não entende que esse lugar pode ser alívio. Que a luz fraca não só atrapalha o exame, mas pode diminuir a qualidade do olhar. No entanto, quando se tem sonhos, o escuro compartilhado acaba pedindo um brilho extra, o que nunca deve ser esquecido, o que deve permanecer em meio a sala de espera precária. Isso se chama amor. É ele quem mantém o dia, o sonho, a luz no escuro, o esquecimento.

            Há 1 ano faço supervisão de médicos no interior, em pampa distante, em lugares onde ninguém quer ir. Tive a honra e a oportunidade de presenciar esse amor, esse cuidado, em muitos colegas, trabalhando em condições tão indignas que cheguei a sentir pena. Apesar de tudo, vi beleza e me emocionei pela esperança renovada. Agora, recomeço um novo ciclo, com novos médicos em diferentes lugares para acompanhar, para conhecer, para compartilhar desafios, decepções e desencantos, tanto quanto, descobertas, belezas, carinho e luta.

            Nova luta...

            Dedico a um médico e a uma médica que acompanhei nesses campos cheios de ventos, essas palavras. Onde quer que estejam, com seus sorrisos, com seus sonhos, saibam, vocês deixaram um pouco de suas almas naquela imensidão verde. Vocês fizeram diferença e também carregam, hoje, um pouco da alma dos lugares, das vozes das crianças, do choro das mulheres, do sofrimento escondido dos homens “fortes”. Anônimos, como somos todos os que se aventuram na imensa e maravilhosa aventura de cuidar em casa, em Kombi, em igreja, em escola, em tenda, em chão de barro, na atenção primária, no SUS...

            A vocês, minha eterna gratidão, minha sempre esperança de que, um dia, o lugar de cuidar seja o lugar mais valioso, mais carinhoso, mais cheio de atenção e desvelo. Cheio de cortina, flor e colorido. Que o lugar de cuidar seja o lugar da alma. A alma que nos acompanha quando dormimos e sonhamos. A alma que deixamos, quando fazemos o que fazemos, com o amor que fazemos. Também estive junto com vocês nessa aventura entre porteiras abertas, frio e nevoeiro e saibam, também deixo um pouco da minha alma nesses campos. Também levo vocês na minha alma e no meu coração.


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