Diário de Uma Semana [Maria Amelia Mano]

            Juntei muitos dias, muitas pessoas, muitas histórias, muitos lugares, muitos anos para fazer "essa semana".

             Misturei nomes reais e inventados, como quem mistura especiarias e ervas em um caldeirão mágico. Mas as palavras, as falas... são reais como o fogo que queima, como a água que ferve, como a fumaça que sobe e os aromas que convidam: experimenta!

            Experimenta o dia, o instante. Experimenta a escuta. Experimenta, que é sabor de vida.

            Vida de rir, de chorar, de traduzir, de aprender, todos os dias...

            Vida de se surpreender, de levar para casa pra pensar, pra sonhar, todas as noites...

            Leia aos pouquinhos, devagar, como quem saboreia uma sopa quente de acalmar a alma, um café recém feito de acordar o coração.

 

Segunda-feira

 

14:00 – Tiana chama sua psicóloga de psicolouca, "tá surda, não me ouve!", diz que não fala nada, só fica olhando. Ainda me afirma que o remédio lhe dá um "relaxume" bom: "o diazepam lhe devolveu a memória", que precisa continuar tomando e que às vezes até ouve vozes mas nem "dá bola"!

 

14:20 - Dona Julia me conta que foi na acupuntura: "Eu peguei um médico que eu acho que é meio doente da cabeça, me fincou 15 agulhas e depois, foi tirando de duas em duas agulhas e assim foi, e em seis pacientes ao mesmo tempo! Me mandou levantar e ainda tinha três agulhas debaixo do pé... Como é que eu ia levantar?"

 

14:40 – Anita me fala do seu novo namorado: "É um rapaz preparado, tem o 2º grau completo; preciso me amigar, mas não casar que eu perco a pensão, né!?". Segue me dizendo que o namorado "é uma boa pessoa tirando os defeitos" e que "o importante é o carinho"

 

15:00 – Ana já chega e antes de tudo já me avisa: "Eu tenho transtorno de personalidade". E pergunta: "Problemas de nervos não aparece no RX?"

 

15:20 - Aluísio chega na consulta ainda com dor na barriga, vesícula com cálculos. Explica que marcaram a cirurgia 5 vezes. Foram 5 manhãs em jejum e não operou: "o médico tinha coisas urgentes...". Sorrindo, conformado, me diz: "O SUS é bom, mas é demorado, né?"


            Paro para fazer a receita de uma criança: antitérmico para a creche.

 

15:40 - José é auxiliar de serviços gerais na sala de parto e nunca viu um parto, nunca teve vontade de espiar. Quando pergunto o motivo, ele me responde: "não gostaria que o médico me olhasse limpando por isso não olho os partos!"

 

            Faço pausa para tomar um cafezinho, água e conversar com a Marta, auxiliar de serviços gerais que me confessa não saber ler. Na pequena pausa ela me conta que queria mesmo era servir cafezinho, "mas tem que ter estudo..."

 

16:00 - Seu Manoel vem na unidade fazer a dose supervisionada de tuberculostático e me explica, sorrindo: "vim bater o ponto da tuberculose!".

 

16:20 - Luísa me afirma que "o desejo da pessoa é não ser neurótico nem psicótico" e me olha, pensativa: "Eu vejo que a senhora tem saúde mental. Sabe, eu tenho inveja branca da senhora..."

 

16:40 - Seu Vicente vem pela terceira vez para que eu tire dúvidas sobre a cirurgia. Pergunta: "Doutora, pode dar um redemoinho na cirurgia de hemorróidas?"

 

17:00 - Elza perdeu um filho. Foi assassinado. Tem uma dor imensa, "como se tirassem pedaços meus". E continua: "Os médicos não me aconselharam, mas o delegado me indicou um centro espírita"

 

17:20 - Rui, convertido pela Igreja Universal, me conta que "não pecar contra a castidade é difícil" e que "a santidade é dolorosa". Não bebe mais, mas quando bebia, nem queria saber de remédio natural: "boldo não dá nada! Um Xantinon B12 é que é bom!". Sobre os pecados, Deus cura: "Gula! Deus cura... mas não é vantagem.


           Paro um instante para fazer um atestado para um trabalhador, cuja empresa não aceitou o boletim de atendimento da emergência que foi naquele dia. Teve uma crise de cálculo renal.

 

17:40 – Dona Elisabete se queixa de zumbidos: "É um zumbido que reproduz os barulhos de coisas antigas, sabe? Daí, não sei porque, eu fico pensando nos erros. Sou perfeccionista..."

 

Terça-feira

 

14:00 - "Ah, doutora, eu choro há tanto tempo... choro sem lágrima", me diz Andreia. Conta que se separou do marido e que ele, agora, está preso. Pergunto o que ele fez, que crime, e ela me responde prontamente: "ele me traiu..."

 

14:20 - "Sou bipolar", me explica Joana. "Quando me disseram que eu era 'duas' porque eu era do signo de gêmeos eu me tranquilizava", mas depois não se tranquilizou mais, buscou ajuda. "Daí, a psiquiatra disse: terminou a sua hora, no momento em que eu ia contar uma coisa de infância. Ela não me viu como pessoa que estava ali pra juntar meus pedaços..."

 

14:40 - Seu João não adere ao tratamento, diz que "eu botar remédio na boca pra viver é difícil!". Conta um pouco da vida: " Tenho 40 anos de casado e nunca traí. Tem mulher dando em cima mas eu respeito. Mas, sabe, lhe digo, eu não tenho carinho na cama."

 

15:00 - Dona Carmem, 50 anos, chega apreensiva: "Doutora, eu tenho um nódulo legível!"

 

15:20 - Ana me conta seu sonho: ser carteira. Sim, aí seria feliz. Porque adora caminhar pelas ruas: "Caminhar acalma!"

 

15:40 – Teresa perdeu um amor... Me diz que "os cientistas que foram na lua não sabem tocar no coração de uma mulher". Sobre o amado, fala: "Eu via cada pedacinho meu no coração dele". E confessa que sente "falta da migalha que ele me dava". Quer reencontrá-lo, mas queria estar mais bonita, "queria estar de cabelo arrumado, com dente..."

 

            Na pausinha usual para o café, Marta me conta que um artista da novela foi preso em Porto Alegre: "O Marcelo Antonic. Fui no presídio pra ver. Era mulher gritando agarrada nas grades e os brigadianos tirando. É, só no presídio pra pobre ver artista da Globo!"

 

16:00 – Seu Ernesto chega e pergunto: "Como é que está?". Ele me responde, prontamente: "Não consigo emprego. É batuque. Tô parado, sem serviço, vou abrir perícia, me encostar no INSS, pode ser?"

 

16:20 – Rosa me diz, pensativa: "Quero ir pra longe para ver onde eu tô... Vou para lugar longe e esquecer quem sou".

 

16:40 – Dona Sílvia reclama: "Doutora, me desenganaram dos ossos, tá tudo comido! No estalar de ossos: já tô me desencarrilhando! E cola e descola a barriga por dentro... Sabe o que eu quero? Quero a receita de milagre!"

 

17:00 – Dona Zeni vem com o esposo e explica que ele está mal: "Roubaram a carteira, fechou o bingo e faleceu o pai..." Muita desgraça em pouco tempo. Para melhorar as coisas, Dona Zeni comprou carnê do Baú da Felicidade e uma sacola pra levar remédios.

 

17:20 – Dona Cenira me pergunta: "Minha diabete é A ou B?"

 

17:40 - Fernanda me olha e diz, antes de tudo: "O meu subconsciente confiou em ti!"

 

Quarta-feira

 

14:00 – "Tenho uma esponja que se estufa no estômago", me diz Dona Wilma, e "um vazio na cabeça de manhã: tudo oco". Segue me relatando: "Também sinto uma angústia, um suspiro aqui (põe a mão no peito) e conforme vem eu tenho que pôr pra fora, sabe?"

 

14:20 – Converso com Elisa sobre sua doença e seu tratamento. Depois, a mãe de Elisa, atenta e respeitosa dá uma risadinha de lado e comenta: "Sertralina, remédio para tirar a tristeza, que engraçado! Eu faço um filme, à noite, para distrair... Adianta, sabia!"

 

14:40 – Dona Elisabete retorna: "Eu nasci velha, tenho senilidade precoce... Tenho medo de ser desinternada, porque eu tomo remédio consecutivo". Como conheço Bete, tranquilizo, digo que não vou suspender seus remédios e pergunto se está bem hoje. Ela me responde: "Tô bem, já lavei roupa, já matei as pulgas do cachorro. Sabe, já tive mutismo, mas conversei com o cachorro e com as plantas. É bom conversar com as plantas..."

 

15:00 – Seu Jorge: "A doença é o maior remédio da alma..."

 

15:20 – Seu Luís é pintor de parede, no meio da consulta, conversamos: "Deu trabalho aquela parede, mas compensou... era um amarelo salmão, uma cor de côco queimado... Ah, se eu tivesse celular de tirar foto eu tinha tirado! Ficou lindo, Doutora!"

 

15:40 – Dona Gládis, chega chorando: "Doutora, cadeei o meu filho!". E quando digo que não entendi, ela me explica que precisou trancar o filho com cadeado, em casa, pra não sair para usar crack...

 

            Hora do cafezinho. As meninas da recepção chegam com uma receita com uma letra ilegível para que eu decifre que medicamento estava prescrito. Apesar das minhas tentativas, não consegui identificar. Marta, observando todos os movimentos e esforços para entender a receita, após as meninas saírem, me pergunta: "Doutora, não sabia que existia saber ler e não saber ler, pode?"

 

16:00 – Paciente nova na unidade. "Dona Cecília?", pergunto. Ela responde: "É Cecília, mas o pseudônimo é Cenira!"

 

16:20 – Dona Selma me diz que encontrou um par no baile. Está nervosa: "Dá uma felicidade na circulação. Me engasguei e pensei nele, ele só podia estar pensando em mim! Dia de passe livre, vou procurar ele. Tomara que a gente se veja. Se não é crime!"

 

16:40 – Seu Adair veio para mostrar exames atrasados e se justifica: "Tava cuidando de uma sobrinha com uma doença moderna que todo mundo tem. A vida não deu certo daí apela pra depressão. Depois tive uma simulação de emprego pra poder pagar a tal da pensão alimentíssima!"


      Paro um instante para refazer o exame pedido há 15 dias porque o cãozinho da casa roeu a requisição.

 

17:00 – Dona Sônia chega com sorriso largo, a primeira coisa que faz é me mostrar a carterinha do passe livre: "Ó! Posso ir no centro, saí a me exibir com a carteirinha! Agora ajudo a minha família indo e vindo. Saí sem saber aonde... Tirei os 400 pila do banco, fiz uma festa no Carrefour. Fui no médico que tem o mesmo nome do traficante. Agora só dá eu no ônibus! Até o T4 eu já peguei! É um avião. Ah, Doutora, te cuida, te alimenta bem!"

 

17:20 – Seu Sérgio me diz: "Queria arrumar os dentes mas tinha que comprar os óculos" Diz que dói a cabeça feito "faca de serra que entra e sai". E me explica, "Sabe, apanhei muito na cabeça, desde nenê. Tenho dor de cabeça..."

 

17:40 – Pergunto para Dona Sara: "O que a senhora tem?" e ela me responde: "A senhora me pergunte o que eu não tenho"

 

Quinta-feira

 

14:00 – "Então, Seu Jair, o senhor está com 74 anos, né?", digo eu, lendo o prontuário de Seu Jair. E ele me responde: "Tenho tudo isso? Pelo tempo que eu respiro, achava que era menos! Eu tô é durando muito!"

 

14:20 – No fim da consulta, Jeferson me olha e me pergunta se pode tirar uma dúvida. Quando digo que sim ele me pergunta: "A Senhora chora, hein!?"

 

14:40 – Chega Dona Eulália e pergunto: "E o coração?" Ela responde: "O coração por enquanto tá resolvendo."

 

15:00 – Dona Geni chega com um envelope e me entrega, sorrindo: "Sabe, Doutora, eu vi a senhora olhando meu crucifixo com cara de choro e eu comprei esse santinho pra senhora". Abro o envelope e encontro um vale transporte.

 

15:20 – "Olá, Seu Carlos, o que o Senhor tem?", pergunto. E ele me responde: "Saudade dos meus 18 anos..."

 

15:40 - Dona Ísis chega cheia de boletins da emergência e receitas: "Doutora, eu sou cardíaca e sou nervosa. Minha receita é 'um romance'. Não consegui sinvastatina. Mas faço dieta e 'física no quintal'. Fui na emergência, mas a doutora de lá brigou porque não era pra emergência. Me desmontou o braço, o cano do braço. Quebrou e precisou colocar uma próstata na perna."

 

            Paradinha pro café. Comento com o pessoal na cozinha que preciso pagar o CRM e que achei bem caro. Marta me pergunta o que significava aquilo e quando eu expliquei a ela, ela me responde: "Baaaaaaaah, tem que pagar pra ser médico? Ainda bem que diarista não paga. Tem isso de bom!"

 

16:00 – Márcia, antes que eu me apresente ou pergunte algo, já chega falando: "Tô preocupada porque não tô sorrindo mais há 1 mês..."

 

16:20 – Seu Anísio me conta que foi cozinheiro de barco, depois estivador e a filha é telefonista de rádio-táxi: "Já vi coisa, já tomei até bala no peito, quase pegou 'no bobo' (coração), mas eu tava com uma guia de proteção!"

 

16:40 – Pedro chega calado, olha a paisagem do quadro que está na parede da sala. Um campo verde com árvores lindas e frondosas. Sorri e me diz: "O paraíso deve ser assim. A senhora me diga, qualquer um pode ter depressão?"


       Entre uma consulta e outra, acabo sempre fazendo uma renovação de receita, seja de antihipertensivos, seja de psicotrópicos. Todos os dias...

 

17:00 – Heloísa traz exames. Vejo o prontuário e noto que está atrasada no exame de papanicolau. Ofereço e ela me responde: "deixa quieto, tá sem uso faz tempo!"

 

17:20 – Seu Ernesto fala da companheira: "A mulher já é sequeladinha, já não dá pra subir e descer lomba. Mas ela é louquinha por mim! Viu São Paulo, quanto crime? O negócio é fazer turismo por aqui: Gramado, Canela. O problema todo é esse negócio de democracia. É CPI por todo lado e ninguém vai preso. Se é nós, dá quilômetros de cadeia. E isso de tráfico de órgãos, a senhora viu? Com a retirada de órgãos ter saúde é um perigo! Seu pai tá bem? Se precisar de alguma coisa..."

 

17:40 - Seu Carlos me explica: "Só fui até a 5ª série mas eu me saliento na conversa. Não posso assinar. Minha mão treme, treme... Eu tenho que pegar um caderno e  praticar meu nome. Aprendi alguma coisa na vida."

 

Sexta-feira

 

14:00 – Explico para Dona Clarita que preciso encaminhá-la para um outro colega, especialista. Ela me olha, tranquila e pergunta: "Vou mudar de doutora. Não tem ciúme?"

 

14:20 – Volta Dona Sônia, ainda feliz por circular com seu passe livre pela cidade: "Quando eu venho lhe ver eu fico bonita. Minha filha me empresta para eu ficar bonita (pega no colar no pescoço). Por isso eu fico ruim, pra vir aqui mais vezes pra lhe ver"

 

14:40 – Dona Sueli diz quando lhe pergunto em que posso ajudar: "eu quero é emendar o mundo e não posso".

 

15:00 – Dona Maria fala da família: "Meu marido tem 77 anos, ele é a minha 'relíquia'. Meus filhos, eu tenho os defeitos mas dou comida para eles. Meu mais velho 'tá caverudo' quem vai pegar pra trabalhar?"


         Um usuário chega agoniado e pede um atestado para a perícia médica do INSS, para segunda-feira. Peço para passar no fim do dia que já estará pronto.

 

15:20 – Janete me conta que comprou um livro de inglês pra entender os filhos da patroa. Diz que está em "estágio interessante" e quer começar o pré-natal. Foi na Santa Casa por uma dor na barriga e tanto estudante pegou nela que "parecia a banca do peixe."

 

15:40 - Seu Juvenal me explica que "Deus melhora a impotência. Há vários vultos com o vento que carregam também a dor. Um passarinho que soltei um dia: ele disse ' viu que quero ir'. É deus falando comigo..."

 

            Café quentinho... Marta está calada, cabeça baixa. O rosto esconde algumas manchas rochas, hematomas. A equipe faz que não vê e quando lhe perguntam, ela diz baixinho que caiu em casa...

 

16:00 – Sandra, chega e antes que eu pergunte: "Meu problema é que eu não tenho vila, eu tô na rua."

 

16:20 – Dona Julieta se queixa: "Cai umas areias no corpo, parece que meu cabelo tá encrespando dentro da cabeça. O cérebro embala. Tenho impressão que o meu cérebro gira."

 

16:40 – Elisabete volta novamente, e desta vez com a filha: "Minha filha é grande né? Olha como meu olho brilha! Ela tem saúde, gosta de música, de roupa e de dormir! Me dá a mão, tô limpinha Doutora! Vim dizer pra senhora que vou escrever um livro da minha vida. Escreve a Fênix. O nome do livro: vazio"

 

            Corto as duas últimas consultas. Faço o atestado prometido. Deixo o fim do dia para fazer uma visita domiciliar.

 

            Visito Seu Antônio, ele tem um câncer avançado e perdeu a esposa há dois anos: "Sabe, Doutora, eu tô sempre perdido no sonho, tem uma montanha... é tão difícil..."

 

            Ganhei presentes, vela perfumada, caixa de chocolate, sanduíche natural, potinho de sagu, saco de laranja, pano bordado, colar...  Ganhei promessa de presente, um pano verde de crochê que ainda está na agulha. Acima de tudo, ganhei um cansaço bom e um "obrigada por ter me ouvido tanto"...




[Maria Amelia Mano escreve no Rua Balsa das 10 às Terças feiras]

Comentários

As mais vistas