MARCHA SOLDADO, CABEÇA DE PAPEL...

            Eu, Aninha e Raquel, manas de todas as tardes, árvores, bonecas, bolas, calçadas, brincadeiras. Mas as coisas mais arriscadas, as maiores aventuras, era ele mesmo...


            Pai.


            Me colocou na garupa de um cavalo, ainda bebê. Me deu pato, pinto, cachorro, carneiro e pedras de lugares especiais. Se embrenhou com a família inteira em uma mata fechada pra pegar uma árvore de natal e inventou estórias fantásticas em trilhas de terra.


            Atravessou o Brasil inteiro mais de uma vez. Uma vez, dentro de um carro em cima de um caminhão e em outra vez, em ônibus clandestino, com boia fria. Comprou um gravador para gravar nossas vozes e comprou fita K7 do Roberto Carlos pra ouvir na brasília amarela com placa de Quixeramobim, em mais uma viagem atravessando o Brasil.


            Sim, ele que me ensinou a gostar de Roberto Carlos, também de Globo Rural e Rolando Boldrin. Me ensinou a levar toalha pequena pra viagem. Me fez amar pão com manteiga, pão com ovo, pão com carne, farofa de ovos, banana na comida, limão no feijão e na sopa, café preto, doce de gergelim e suco de manga.


            Não guarda segredo. Diz o que pensa e nem sempre agrada. Sonhou demais. Sonha demais, sempre demais... Confia em quem é pouco confiável e desconfia de gente boa, se achando esperto. Esquece dos erros com a mesma facilidade com que embarca em algum plano mirabolante.


            Me ensinou e ser honesta, a ser íntegra, a trabalhar e a respeitar a terra. Me ensinou a não temer ou matar insetos à toa,  porque fazem parte do equilíbrio da vida, do mundo. Me ensinou a pegar em lagartixas e sapos, que são bichinhos bons e anunciam chuva. E me ensinou a desejar chuva, a gostar de chuva, do cheiro da chuva, do banho de chuva...


            Dos cheiros, aprendi com ele a gostar de cheiro de vaca, de cavalo, de curral e de besouro mal cheiroso que ninguém gosta. Mas não aprendi a adivinhar a planta pelo cheiro da folha macerada. Algo que ainda insiste em me desafiar! E das plantas, me fez descobrir o nome, o que era fruto, o que era flor, o que era inflorescência, o que era parente do feijão e da papoula. O que é praga, o que é veneno e o que é defesa e sustento.


            Dirigiu jipe no meio do mato e plantou, plantou tanto que ainda não parou. Mostrou o que é curva de nível. Jeito da plantação não destruir o solo, jeito que respeita a terra, protege, cuida. E também construiu casas e constrói sonhos e danças malucas. Inventa canções e palavras estranhas que jura, sorrindo, que existem.


            Limpou rua e calçada, brigou com vizinho e disputou com a mãe o espaço do jardim pra plantar alface. Faz o melhor doce de leite, a melhor canjica, a melhor saladinha verde com cebolinha e coentro que ele mesmo planta. Também me ensinou a jogar futebol, a jogar bola de gude, a nadar, a andar na mata.


            O melhor, esse menino que chamo pai, me fez e me faz descobrir. Prova que as pessoas são múltipas, são muitas, são imperfeitas, são mágicas, sempre recomeçam e algumas nunca cansam, nunca desistem. As pessoas dão o que tem, o que podem, o que sentem, o que vivem.


            Velho, nenhum conselho teu tem muito cabimento porque nem tu mesmo consegues te seguir, não te obedeces... Desordem que brota no olhar menino e na lógica sem lógica. Aprendo a conhecer teu mundo, teu rumo. Te encontro em muitas coisas em mim e isso encanta e assusta. Me surpreende.


            Há amores e solidões. Aventuras e desejos de voltar. Há magias e desesperos e sonhos que acalentamos sozinhos, na rede, na fronha, na grama, no sono depois do almoço, no sol que se aproveita pra esquentar. Somos esperançosos. Somos viajantes. Somos inquietos. Somos desejantes. 



            Gostamos de música alta, de sonhar e dormir de tarde.

Amamos feira, mercado e experimentamos comidas novas, temperos, pimentas, caminhos, histórias, atalhos e destinos com uma certa dose de irresponsabilidade. Erramos...



            A imagem que embala e alegra. Sala séria e vazia do teu trabalho. Muitas cadeiras e mesas. Nós três, pequenas, atrás de ti, em fila, marchando. Tu na frente, desviando dos móveis, batendo forte nas mesas: "marcha soldado, cabeça de papel, quem não marchar direito vai preso no quartel..."



            Lá vai tu de novo, em viagem pelo Brasil. Me preocupo porque já não és tão forte. Porque és metido a esperto e mais que tudo, porque te amo muito e mesmo que já não inventes brincadeiras e aventuras malucas, ainda és o primeiro da fila, na marcha de soldados, menino e meninas, em fila, na memória mais acarinhada da minha infância. A infância que sempre vais fazer parte.

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