O ROQUE E EU

Faz alguns dias que o Roque me disse que tem diabetes. O médico da empresa lhe passou uma medicação de mais de 100 reais. Absurdo, eu disse. Dê ai seu endereço completo que vou lhe conseguir uma consulta em uma Unidade de saúde de Curitiba.
Primeiro Roque disse que não queria incomodar, que isso daria trabalho. Mas insisti, disse que falaria com um amigo que ajeitaria as coisas. Aí ele disse:
- Eu odeio médico. Respondi que meu amigo é enfermeiro.
- Eu odeio Enfermeiro também, disse Roque.
Fiquei preocupado, mas a vida é assim mesmo. O Roque vai sobreviver.
Mas quem é o Roque?
Bem, o pai dele é o Diabo, disse Raul, sendo assim eu morava ao lado do diabo quando era adolescente. A porta da cozinha de minha casa dava para porta da sala do Roque, em um conjunto habitacional em Pirapó, distrito de Apucarana, no norte do Paraná. Temos a mesma idade e servimos no mesmo quartel - Trigésimo Batalhão de Infantaria Motorizada (30° BIM). Mesma companhia: 1ª companhia – vanguardeira. Ele no terceiro pelotão e eu no Pelotão de operações especiais (PELOPES) - onde ninguém queria estar: lembram-se do treinamento mostrado no filme Tropa de elite?
O treinamento do PELOPES era bem parecido. Foi, talvez, o pior ano de minha vida. No final, próximo da gente finalmente deixar o exercito, fui preso por zombar do coronel ou de um sargento (não lembro mais). Era fim de ano, festas natalinas e, nessa época, alguém sempre faltava à guarda no final de semana. Tanto no Exército quanto na Enfermagem, se alguém falta, outro tem que substituir. A guarda não para. Um soldado teria que perder o domingo (ou o natal) e desta vez quem se deu mal foi o Roque.
Quando fiquei sabendo quem teria que dobrar a guarda, avisei:
- Fale para o Borba (Sargento) que eu fico no seu lugar (não era nada de mais, eu já estava preso mesmo, teria que passar o domingo na cela). Roque falou! Mas Borba contra argumentou:
- O Prado? Ele não foi voluntário nem para servir. Imagina se vai ser voluntário para dobrar a guarda!
De fato. Não fui voluntário. Sempre odiei a ideia até de usar farda. Fiz tudo que podia para escapar, mas não deu. Muitos garotos, como eu, vão forçados para o quartel, porém, uma vez não podendo sair, são forçados a declararem-se voluntários, sob pena de aumentar o sofrimento. Naquele ano, 1988, apenas dois soldados não se declararam voluntários até o fim do ano. Eu e outro louco que nunca cheguei saber quem era. O Batalhão era enorme, mas diziam que era um cara da Companhia de Comandos e Serviços (CCS) e que vivia preso, que até já tinha batido em um sargento, mas acho que era tudo lenda. Mas a coisa era tão sinistra que volta e meia, até o último dia de quartel, soldados, cabos, sargentos, tenentes e capitães continuavam me questionando sobre eu ser voluntário. E eu neguei até o fim:
– Estou aqui obrigado. Mas fui voluntário para dobrar a guarda, mas isso porque era o Roque quem seria condenado.
O Roque odeia Enfermeiros, mas eu continuo amando o Roque.

 [Ernande Valentin do Prado publica na Rua Balsa das 10 às 6tas-feiras]

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