PAREDE-MEIA (Maria Amélia Medeiros Mano)

Parede-meia

Olho que não fecha espera o dia
Entrar pela brecha da veneziana
Sono que não chega, noite que não cessa
Dia que só dá a luz com cesariana
Olho que não fecha fica de vigia
Ladra quando passa a caravana
Bebe luz elétrica, semeia ventania
Olho que não fecha queima que nem taturana
Vento de bala perdida zunindo na orelha
É de parede-meia é de parede-meia
Carro de bombeiro, grito, velha que chuleia
É de parede-meia, é de parede-meia
É de parede-meia, menino/ É de parede-meia
Não dorme que a tristeza mora/ É de parede-meia

Kléber Albuquerque

            Em casas de vilas de classes populares, não é força de expressão dizer "compartilhar o mesmo teto". As pessoas compartilham, sim, porque as divisórias das peças não vão até o telhado, mas até uma certa altura. Meias paredes trazem, os sons que se escutam em uma única peça dividida: prazeres, choros de filhos, lamentos de velhos, brigas de casais, tosse e suspiro, vida sob as mesmas vozes, cheiros e dores.

            A parede é de um material duro que fala muito pouco, seja tijolo, seja madeira, seja lata, seja papelão. Mas para quem conhece um pouco das histórias compartilhadas, semi-divididas, a parede tem vida. As paredes contam das guerras diárias, das destruições e construções diárias dos amores e dores que não têm tempo, mas têm verdade na metade, inteireza de sentidos, de sentimentos.

            Para enxergar a meia parede além da parede, além, acima do espaço vazio de partilha até o teto, é preciso calma, é preciso alma. A poesia-música que escolho para iniciar este texto fala de um dia que entra pela brecha. Fala dos olhos atentos, das vozes, dos barulhos das balas zunindo, do sono difícil, do sonho difícil, da tristeza que mora em parede-meia.

            É o simples, o miúdo que diz muito, anuncia música e cena. Consigo fechar os olhos e ver melhor a casa, a parede, a família, o menino com seus olhos de semear ventania... Olhos semiabertos, busca distante do dia que nasce, do dia que morre, da esperança que passa correndo com o cachorro, com a carroça, com a bola correndo no campinho de areia...

            Essa é a alma da imagem única que ajuda a entender, a construir o sentir e o criar, o cuidar. O que vemos somente com os olhos é mera cor, o que vemos além olhos é mero cor-ação. Coração de ventos nas roupas estendidas nos varais, das frestas das tábuas. Coração-vão. Vão: pequeno espaço de entrar luz, luz repartida por mil mãos e entre os dedos, brechas de olhares e carinhos por onde escorrem os dias.


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