(Des)encanto com o popular


Tarsila do Amaral
 A ideia deste texto não é culpabilizar nem encontrar os “vilões” ou verdades, mas questionar. Quando estávamos gravando para o próximo podcast que está por vir da Rua Balsa das 10 caímos nesse denso assunto do desencanto com o popular, com o trabalho, com a Medicina de Família. A discussão que durou cerca de duas horas me acompanhou por dias de reflexão. E aqui seguem algumas reflexões.

Talvez esse desencantamento não vem das amarras que construímos, do SUS que fizemos? Talvez fazendo um paralelo com Paulo Freire um SUS que se torna bancário e deposita as metas nos profissionais de saúde Um SUS que pela pressão do atendimento não permite a curiosidade. Além disso, penso se estamos focando no paciente ou na epidemiologia. Estamos sendo sujeitos do sistema ou objetos? Quando ouço e converso com colegas em geral vejo que o que incomoda o profissional de fato não é paciente, mas a papelada, os colegas desestimulados, burocracia, a “medicina que eu queria fazer mas não consigo”.

Reflito se estamos olhando para os lugares certos. Se estamos de fato avaliando a nossa qualidade e usando isso como motor para transformações, ou estamos apenas nos ajustando nos programas, fechando as estatísticas? Porque tem serviços em que os profissionais continuam com o brilho no olho e outros serviços que não? Porque não estamos aprendendo com quem consegue conciliar as coisas? Se existem os desencantados, existem os encantados e precisamos buscar a troca entre esses.

Aparentemente, chegou-se em um momento histórico em que muitos acham que a construção do SUS terminou ou está muito encaminhada. Acho que isso faz parte de perder a curiosidade, desencantar-se. Assim como é a “inconclusão do ser humano” também é a “inconclusão do sistema”. Não consigo determinar se o desencantamento é de fato com o popular ou “como as coisas funcionam”? Estamos parando para escutar nossos residentes, alunos e profissionais? Estamos avaliando o nosso dia-a-dia e avaliar sem punição apenas para melhorar ou estamos reforçando o sistema bancário de cuidado com os profissionais? Não estamos usando uma “ideologia imobilizadora”, como disse Freire, que adapta os educandos (profissionais) a uma realidade que “não pode ser mudada”?

Penso também se os pacientes deixaram de se encantar ou se desencantaram com os profissionais. Talvez a falta de encanto seja mútua. Quem sabe a busca pelo brilho no olho deva não ser apenas dos profissionais, mas também da comunidade. Quiçá buscando um consiga-se alcançar o outro e o encanto também ser conjunto. Afinal,  parafraseando o Luan Menezes, o cuidado é como um abraço, não tem sentido fazer sozinho.

Acredito que encantar-se depende da liberdade, criatividade de tempo e dedicação. Tenho a impressão que criamos tantas ferramentas que muitos não sabem usar e disso derivou uma ideia de contemplação e reclamação dos meios. Tenho minhas dúvidas quanto ao sistema bancário e condenatório não só em relação a cobrança do sistema aos profissionais mas entre profissionais e entre usuários e profissionais.  Mas antes de desencantar penso que existiu primeiro um encantamento e penso na busca para encontrá-lo.


[Mayara Floss publica na Rua Balsa das 10 às 4as-feiras]

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