E TEVE COPA... [Maria Amélia Medeiros Mano]


BRASIL X CROÁCIA
            Lúcia, em tratamento para tuberculose, estava em casa febril e muito abatida. Lá fomos nós pelo Porto Novo, pela vila vazia, enquanto rolava a bola depois da grande festa de abertura. Chegamos e obviamente a família estava reunida em volta da televisão. Nanda, a enfermeira, tinha nas mãos um exame recente de escarro com resultado negativo e estávamos felizes com o resultado.
            Logo que chegamos, Nanda fala do resultado do exame. Lúcia se emociona, sorri e baixa a cabeça. Poucos minutos depois, vimos a família gritar “goooool!”. Olhamos a imagem na tv e era mesmo gol da seleção brasileira. Sorrimos novamente e já aproveitei para afirmar que esse era um bom sinal, de sorte.
            Saímos felizes, Nanda certa de que era o primeiro gol da Croácia e eu, certa de que era o segundo gol do Brasil. Na verdade era o gol de empate. Alienadas, chegamos até a unidade e tivemos a certeza de que para Lúcia, o mais importante, era o resultado negativo. Ao contrário do que dizem os jogadores de futebol, que querem sempre o “resultado positivo”...

BRASIL X MÉXICO
            São Lourenço do Sul. Uma supervisão rápida do PROVAB com as três médicas. Duas trabalham em zona rural, distante. Mais uma conversa, já que nossa combinação caiu justamente na tarde de jogo do Brasil. Uma delas descobriu um quilombo bem no meio de uma região de colônia alemã. Eles vivem de forma precária, são segregados e pouco frequentam a unidade. Muitos são hipertensos e diabéticos. Ela quer conhecer essa realidade peculiar, ir até eles, intervir.
            Volto no ônibus das 15:30 e o jogo iniciava às 16:00 horas. Escutava a conversa das raras passageiras, senhoras mais idosas que falavam um dialeto de região da Alemanha. Uma delas, no banco ao lado, podia ser mais jovem do que parecia ser. A pele clara e o ofício da vida enrugam a pele mais cedo. Jeito de agricultora, ela tinha várias marcas no rosto e um curativo em algumas possíveis lesões que, imaginei, seriam causadas pela vida dura na lavoura. Coisa que o sol sabe fazer é ferir e, muitas vezes, ferir mortalmente.
            Penso nessa diversidade que somos, que temos. Penso no quilombo no meio da colônia e nos vários dialetos, cores e dores que param por 90 minutos para torcerem. Por mais que essa copa, em especial, tenha me dado um certo desconforto pelos gastos, pelos superfaturamentos, pelas remoções, há que se ver o mundo aqui, agora, em diferentes gentes e jeitos de viver nesse verde amarelo que às vezes suportamos, mais que adoramos.
            Comecei a ter carinho pelas bandeirinhas, sim, ingênuas, mas mais carinho pelo bêbado na frente da loja no calçadão da Rua da Praia que cantava “Menina Veneno” e no intervalo da música, cantava também as balconistas e fez um sério comentário sobre a seleção brasileira, apontando as falhas e as mudanças necessárias... Acho que o Felipão devia ter ouvido. Achei coerente.

BRASIL X CAMARÕES
            Novamente eu na unidade aguardando pacientes até a hora do dito combate. No fim da tarde, sem agendamentos, claro. No início, sala de espera bombando! Somente duas faltas de todos os agendados do dia. Saí de carona com a enfermeira Nanda. Dessa vez resolvemos ser mais generosas e respeitosas e não visitarmos as famílias na hora do jogo. Saímos da unidade com um placar de 3 a 1 para o Brasil.
            Lembro do eletricista que foi na minha casa, após uma vitória, com chapeuzinho verde amarelo de paetês. “Coisa muito fina!”, comentei. “É pra dar sorte!”, me disse ele. E, assim como foi com o bêbado na rua, me encho de certo carinho por esse jeito ingênuo e simples de ser feliz por 90 minutos e pelos dias que se seguem ao gol da vitória. Difícil ignorar. Mesmo o não visto vira história porque mesmo na resistência de não participar, ainda há o silêncio da rua, a família que se reúne, o bêbado comentarista e cantor, o eletricista que se enfeita.

BRASIL X CHILE – BRASIL X COLÔMBIA
            E mais duas partidas vieram com vitórias apertadas contra o Chile e a Colômbia. Acordada, dormindo, acompanhada, sozinha, em casa, distante, em trânsito, caminhando. Dessas partidas, como das anteriores, lembro mais das pessoas do que dos gols que fizemos ou sofremos. Sim, outros jogos virão e outras histórias vão sempre nos tirar da vida real e nos colocar em algum tempo parado, em algum campo distante.

BRASIL X ALEMANHA – BRASIL X HOLANDA
            Aniversário da minha mana que mora mais distante e vejo menos. Anos sem ver um jogo juntas. A torta era verde e amarela e quando partimos, era recheada de morangos... Rimos, porque apesar da decoração ser das cores do Brasil, o recheio era da cor da Alemanha. Cantamos um “parabéns a você” meio decepcionado, mas juntas. Como juntas estivemos, em 1982, quando rasgamos as tabelinhas dos jogos, guardamos as bandeirinhas e choramos juntas.
            Prometi não mais chorar por futebol como quem promete não chorar por um amor perdido. Nem sempre cumprimos promessas e não é por desejo de não cumpri-las. Mas porque o mundo é mesmo uma bola, gira, serpenteia e vez ou outra, caímos em armadilhas, jogos, campos e decisões em que, como nos pênaltis, nem sempre ganham os melhores.
            Contra a Holanda, eu e uma amiga caminhamos juntas, paramos em um café, falamos da vida, das coisas da vida, do coração, das escolhas. Os belos momentos dentro dos 90 minutos. As pessoas, mais que os gols. A vida fora dos estádios, viver que segue e chora derrotas silenciosas tanto quanto ergue taças em sorrisos compartilhados, muitas vezes, só entre duas pessoas. Porque assim como no jogo, na vida, o que vale é aprender e ter esperanças porque novos campos e novos tempos, prorrogados ou não, sempre virão. 

[maria Amélia Mano pública na Rua Balsa das 10]  

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