TUM TUM TUM... rs [Sergio Ramos]


O que há de espesso na memória é o coração... que bate no presente... tum tum tum... A cada batida contrai o tempo que foi e que virá... O presente é esse passado que por ter tamanho de não caber no que foi, deseja ser futuro, lança-se... mais fica no meio do caminho, sendo o meio do caminho, ponte... Deus me livre da saudade sem desejo, desse passado que recusa oferecer-se passagem... Como diria o poetinha: "a vida tem sempre razão"... Saudade... Saudar... Saúde... Tum Tum Tum... 



dezembro de 2008
Reinventando a roda da Saúde

"E foi tanta a imensidão do mar, e tanto fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: Me ajuda a olhar!" (Eduardo Galeano)

O que é a educação popular? Uma pedagogia? Uma teoria do conhecimento? Um projeto político-pedagógico? Uma visão de mundo? Qual será a saúde deste nome? Poderá caber inteiro numa definição?

As palavras são sedutoras de sentidos, descaminhos do aprender. Para que elas não virem termos, já que nada terminam, é preciso estender o discurso além do ponto... até as pontes. Pontes que ligam, que linguam e agem... que estendem um ser a outro, numa espécie de ética das linguagens, e ensinam a olhar. Como na imagem de Galeano, saber e sentir parecem tarefas existenciais impossíveis de se realizar senão pelo outro... como pontes de si.

  "...como é que faz pra sair da ilha? Pela ponte, pela ponte."
(Lenine / Lula Queiroga)

O legado cearense para a rede não foi outro senão achar-se em processo, descobrir-se inacabada, fazer-se ponte. Ponte entre o popular e o científico, entre a poesia e a explicação, entre redes, entre o saber e o ser e entre o ser e o vir-a-ser. Os acontecimentos tiveram a marca do riso acolhedor, do prazer do vínculo, da maturidade das tensões... Rede que se preza trança pontos a partir do arranjo harmônico das tensões... e assim foi.

Marco Polo descreve uma ponte, pedra por pedra. "Mas qual é a pedra que sustenta a ponte?", pergunta Kublai Khan. "A ponte não é sustentada por esta ou aquela pedra...", responde Marco, "mas pela curva do arco que estas formam". Kublai Khan permanece em silêncio, refletindo. Depois acrescenta: "Por que falar das pedras? Só o arco me interessa." Polo responde: "Sem pedras o arco não existe."
(Ítalo Calvino)

A transcendência do projeto humano, sua infinitude, está na superação das ilhas de ser, na possibilidade das pedras encontrarem-se em arcos... São infinitos os caminhos para essa grande saúde humana. A Educação Popular é um deles, uma utopia da humanização. Seu arco é acirandado. Nele encontram-se profissionais de saúde, representações de movimentos sociais, organizações não governamentais, academia, instâncias de governo, artistas populares, religiosos, estudantes. Roda de saúde, para a saúde e com saúde. 

"As coisas estão no mundo, só que eu preciso aprender."
(Paulinho da Viola)

Quem compartilhou desta vitalidade cearense, teve a clareza de que a Educação Popular em Saúde está acontecendo. A Rede vem desenhando um importante papel agenciador de diálogos, não só entre seus diversos atores, mas, mais profundamente, entre diversas temporalidades, forças e saberes. Reinvenção da roda, pela roda...

“Em situação de poço, a água eqüivale
a uma palavra em situação dicionária:
isolada, estanque no poço dela mesma,
e porque assim estanque, estancada;
e mais: porque assim estancada, muda,
e muda porque com nenhuma comunica,
porque cortou-se a sintaxe desse rio,
o fio de água por que ele discorria ...”
(João Cabral de Melo Neto)

Há aí a semente de construção de uma nova práxis para a Saúde. Isto, porque, na medida em que engendra práticas educativas inseridas em cenários múltiplos de linguagens, a EPS fortalece a integralidade, não como princípio, mas como meio para o SUS. Saúde não é palavra dicionária, estanque no poço dela mesma. Mais do que isso, é por si só integral... oriunda de sentidos mais elementares, vivos. Religá-los possibilita a construção da integralidade como maneira essencial da Saúde.

“Essa ciranda não é minha só ...
ela é de todos nós, ela é de todos nós ...”
(folclore nordestino)

Talvez tenha sido essa a maior grandeza do IV Eneps: tornar meio o que, por definição, é princípio; mostrar que o movimento da saúde é vivo como um rio que, por rebeldia natural, não obedece a placas de orientação, mas vai construindo seu curso num líquido acordo com a vida. Sua integralidade não se sabe com idéia, mas com mergulho.

Viva a saúde da Educação Popular!!!
Viva o Ceará!!!



[Sergio Ramos publica na Rua Balsa das 10 às 4as ou 5as ou nos finais de Semana]



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