UM NOVO SENTIMENTO DO GRÃO [Maria Amelia Medeiros Mano]


            
Tempus Fugit

Quem poderá fazer

Aquele amor morrer

Se o amor é como um grão

Morre, nasce trigo

Vive, morre pão

Gilberto Gil

            Neste 26 de julho de 2014, são 5 anos sem um amigo que sempre digo, foi meu desorientador. Há 2 anos escrevi esse texto para ler em um evento onde se prestavam homenagens a pessoas importantes para a educação popular. Embarguei a voz. Caíram lágrimas. Aprendi que as maiores homenagens são as cotidianas, as silenciosas, as que nem sentimos que fazemos. As que, quando, repentinamente percebemos: “ele está aqui”. Mas não é só de grão que se faz a saudade. Ainda tem forró na noite...

Um novo sentimento do Grão

                                                                     
            Um dos últimos e-mails que o Nilton me enviou foi sobre uma entrevista com o Mia Couto sobre seu novo livro Venenos de Deus, Remédios do Diabo. A entrevista que se chamava um novo sentimento do tempo, dizia dessas emoções que nos assaltam quando vemos o tempo passar. Um trecho da entrevista sobre a angústia do passar dos anos:

Não chamaria, no meu caso, de angústia. Mas existe a sensação de que estamos no limiar de um abismo e, nesse abismo, vão desabando e se extinguindo os nossos pais e os da geração deles. A consciência da finitude é uma aprendizagem impossível. Talvez essa impossibilidade resulte de que não existe fim. Carecemos, sim, aprender a recomeçar em outras vidas, outros seres.
            Assim, a impressão é que o Nilton, assim como nós, não entendemos, não aceitamos o fim. Penso que ele sentia a vida como sem fim, sem pressa. Aquela expressão de que “viva a vida como se fosse o último dia” não servia pra ele, mas, sim, viva a vida como se ela fosse eterna, como se fosse pra sempre, sempre com novos planos, novos projetos, novos amores. Ele pensava que tinha todo o tempo do mundo e por isso dizia:

Quero que as pessoas se inspirem a produzir conhecimento científico mais lentamente.

            E por isso o Grão. Isso mesmo, o grão de café. Nas mais ruidosas e acarinhadas reuniões de orientação ele não trazia café pronto, mas o grão. E fazia questão de, lentamente, moer o grão na sua maquininha mágica de moer grãos de café e só aí depois, é que vinha o café, pronto pra ser feito e degustado. Dizia que o saber vinha junto com os sentidos, o cheiro, o sabor. Tanto que em um dos e-mails dizia que a minha escrita estava em ponto de bala e colocava entre parêntesis (vide expressão nas receitas de bolo que usam açúcar em calda): a doce escrita ou a escrita doce. O sabor da vida nas páginas, nas reflexões...
           Descrever o currículo é impossível. Foi capaz de orientar trabalhos que iam desde a capoeira de Angola nas ruas da urbe, a educação nas escolas do MST, a educação espírita para "pais gestantes", a educação nas escolas abertas para meninos de rua, a formação médica a partir de cuidadores populares, a confecção de cartilhas educativas para e em conjunto com a comunidade, a educação em arte para o EJA, a alfabetização de adultos, a escolarização de mulheres papeleiras, os movimentos sociais e a educação, as lutas sociais e suas contradições apontadas de forma sensível e amorosa em quase 80 orientações em que sempre lembrava:

Espero simplesmente que a vontade de duvidar, de perguntar criticamente e de exercer a palavra como condição de liberdade possa ajudar nos processos de pesquisa.

            E com esse espírito de esperança, liberdade e eternidade, Nilton não se conformava com o fim. Em um momento, escreveu uma carta após a morte de uma papeleira importante no galpão em que, um dia, trabalhamos juntos:

Aos 60 anos teu tempo entre nós terminou, parou e se foi. Neste dia 5 de junho teu coração parou de tocar a música da vida. Todos nós - (aqui do Rubem Berta, da Unidade de Reciclagem e bem como os familiares e amigos) - ficamos com um sentimento que só a dor da perda nos fala. Os jeitos de te chamar transmitiam um recado de afeto: A velha. A baixinha. A tua forma de ser e trabalhar no galpão a gente identificava: aquela que picava fumo e tragava seus palheiros, aquela que trabalhava no pátio e nos vidros (cacos). A tua presença que circulava no trabalho e nos intervalos: era aquela que dizia coisas meio resmungando. A que tinha senso de humor na roda de colegas. Aquele que era voluntária nas atividades da horta. (...)
Ao te olharmos ao longo desses anos todos de convivência a gente sabia o que estava atrás de um boné que disfarçava uma mancha roxa no rosto. A pele enrugada trazia o sinal dos tempos e as necessidades de cuidados com alimentação e saúde. Ao te ouvir, ao te escutar, ao prestar atenção em tuas palavras tinha uma estranha compreensão das coisas que te aconteciam. No limite físico da existência tu também encontrava palavras de humor e amor para fazer que as pessoas ao teu redor pudessem ter boas gargalhadas. (...)
Nair, fica dentro de cada um de nós e nos represente bem junto ao Pai Celestial. Agora que estás com ELE por favor, puxa um pallheiro e ao soltar a fumaça... diga junto a ELE algumas palavras para o nosso conforto nesta vida que um dia chegará aí junto contigo.

            Pouco mais de um mês depois dessas palavras, o tempo do Nilton também terminou. Volto à ideia do Mia Couto de inconformidade com o fim, de  imortalidade, do desejo do Nilton de vida longa. E penso que ele deve estar sempre presente de um outro jeito, nos nossos projetos, nos nossos reencontros, nas nossas saudades. Não precisamos aprender sobre o fim, mas ter a certeza de que ele continua e como o grão de café, é a promessa saborosa de tempos de trocas e sonhos que estão e virão.

Porto Alegre, 19/11/12

   
Vita Brevis

Licença, que eu vou rodar
no carrossel do destino

Antônio Nóbrega

            Faz 2 dias e fui ver o Antônio Nóbrega com bons amigos. O primeiro show que vi dele foi com o Nilton, que também me presenteou com um CD, tempos depois. No canto, na música, no poema, na alegria, na dança, fiz minha homenagem silenciosa.
       
        Naturalmente, era o nome do show. Naturalmente, música instrumental de Dominguinhos que também se foi faz pouco, como Ariano Suassuna, como Rubem Alves e como Leonardo, um amigo distante que me ensinou a dançar forró. Aliás, ensinou toda uma geração de meninas desengonçadas. Meninas que revi, mulheres, e cheias de histórias, faz pouco mais de1 ano, em um encontro da minha antiga turma de oitava série.

            E Leonardo estava lá, dançando com todas, sempre. E eu não dancei com ele. Nem sei bem por que. Acho que por me achar enferrujada ou, por pensar: “tem tempo”. Fui deixando pra depois e a festa acabou.

            Assim foi quando vi o Nilton passar na frente do cinema com a namorada nova. Parceiros, íamos sempre juntos. Mas olha lá, ele com a namorada nova e nem me dava mais bola! Se eu chamasse ele ia querer me apresentar, essas coisas... Bateu ciuminho. Sabe, deixa pra outro dia! E outro dia não veio.

               A vida é breve, não sabemos quando vai ser a última dança, a última música e o último encontro. Amigos se vão sem avisar e o que resta é esse caminhar. No entanto, como diz a canção há que se manter a presença mesmo quando ausente. Há que se ter o silêncio e a palavra para as nossas homenagens solitárias ou entre os pares. E há que se sorrir quando se lembra, porque a nossa festa ainda não acabou. Ainda dá tempo de compartilhar uma poesia cantada em frevo. Ainda dá tempo de dançar um forró arrastado. Em alguma reza nossa, em alguma noite mais bonita, em algum salão, algum palco, algum lugar que nos faça estar juntos.
 

https://www.youtube.com/watch?v=oT_KFDH8Pco
https://www.youtube.com/watch?v=vQGw97w54Do

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