NOVA PALAVRA (María Amelia Mano)

NOVA PALAVRA

Meu amor
Me ensina a escrever
A folha em branco me assusta
Eu quero inventar dicionários
Palavras que possam tecer
A rede em que você descansa
E os sonhos que você tiver
Oswaldo Montenegro
       Negra, Joana nasceu em família humilde e cedo saiu de casa. Teve paixão grande, casou cedo, criou 5 filhos em casa quase caindo. Casa de papelão e lata. Aguentou a bebida e a violência do primeiro marido. Passou pela fome e pelo abandono. Voltou a amar e, aos poucos, melhorou a casa, a vida e foi removida da vila por conta das obras da copa. 
       Já na casa nova, Joana perdeu um filho para o tráfico e sua família, ela própria, teve que sair da casa, da comunidade. Teve noites longas, trocou de casa, trocou de vila. Passou dias sem sentido para viver a não ser se proteger e proteger os filhos. Conseguiu se adaptar a um novo lugar, novos vizinhos e mesmo distante, queria continuar a ser atendida por mim, na unidade de saúde.
       Lembro de quando chegou em consulta, após a perda do filho: “doutora, agora sou mãe de um filho a menos...”. Lembro de falar de uma dor que não sarava. Lembro de quando falou do medo, da necessidade de sair e seguir. Senti falta quando Joana se ausentou e fiquei feliz quando voltou a consultar, a falar de si e dos rumos. 
       Voltou a sorrir, aos poucos e, um dia, Joana não perdeu a oportunidade de resgatar um sonho antigo: estudar. Então, ela voltou a estudar e a cada consulta, me contava de um conhecimento novo, com o olhar de criança que aprende a ler. Com a surpresa de quem descobre um mundo novo.
       Um dia Joana chega iluminada, bem enfeitada, vestida de vermelho. Diz que aprendeu uma palavra nova que gostou muito: resiliência. Pergunto o que entendeu da nova palavra. Ela me responde que resiliência é a capacidade de fazer uma coisa boa de uma coisa ruim. E sorri... Sorrimos e, ao final, como de costume, nos despedimos, marcando um novo encontro.
       Penso na palavra resiliência, conceito da física: propriedade de acumular energia a ponto de não romper sob estresse. Tem a ver com elasticidade, plasticidade. Na ecologia, é definida como capacidade de recuperação de um ambiente frente a um impacto ambiental. No mundo dos negócios, é qualidade de quem retorna ao equilíbrio emocional após sofrer pressão.
       Na psicologia é a capacidade de superar obstáculos, resistir às situações adversas, mantendo-se firme. Passando para o coletivo, é a capacidade de comunidades e populações de seguirem seus caminhos, superando traumas, catástrofes. Mas para mim, a partir daquela tarde, fica a compreensão da Joana, porque ela é aprendiz e professora de vida.
       Para Joana, ser resiliente é mais que sobreviver, superar. Para ela, ser resiliente é fazer de uma coisa ruim, uma coisa boa. Assim, não basta se erguer do chão e seguir, é preciso dar um salto. Não basta se olhar novamente ao espelho, é preciso se tornar mais bela. Não basta parar de chorar, voltar a sorrir, é preciso apostar em uma alegria maior. Não basta recuperar a esperança, é preciso apostar em um sonho novo.
       Aprendo com Joana, que a definição das palavras não está no dicionário, mas em outras linhas que cada vida percorre. A palavra só tem significado quando conta a nossa história. A nossa história ganha nome quando a palavra tem sentido. Assim, cada palavra pode ser nossa e é única. Cada palavra é uma invenção nova, um jeito novo de nomear o vivido. E pode mudar, quando muda o passo, quando muda o tempo.
       Para amantes ausentes, a palavra saudade tem nome, cheiro, toque e sabor. Sonhar pode ser a experiência ou o desejo, nas definições, mas é rosto de criança, jardim florido ou encontro de irmãos distantes. Tudo depende do dia e do sonho e depende de quem sonha. Assim, para mim, em 20 minutos de um fim de tarde de agosto, ternura é o sorriso de Joana, esperança é o olhar de Joana e Joana é essa escolha, essa aposta, essa vida que vale a pena escutar e ter a honra de partilhar.  

 
 [Maria Amélia Mano pública na Rua Balsa das 10 às tercas]

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