QUANDO HÁ CIGARRA [Maria Amélia Medeiros Mano]


QUANDO HÁ CIGARRA

Cigarra canta pra se libertar
Eu canto pra não mais chorar
Esquecer a dor de viver
Descansar no zoinho docê
Naruna Costa

            Era uma escola de música antiga no interior do nordeste do Brasil. Prédio doado. Janelas sempre abertas. Cadernos comuns de espiral com riscos, notas, palavras, desenhos e técnicas. Professores voluntários. Instrumentos de baixo custo ou doados. Alunos e alunas, crianças carentes que não poderiam pagar por aulas de música. Mas não só...

            Seu José* tem pouco mais de 60 anos. É Maestro Zé. Foi da primeira turma da faculdade de música do estado. É aposentado e há 20 anos, passa seus dias na escola de música. Fala de um aluno brilhante que começou ali, junto com outras crianças pobres e, hoje, está em uma orquestra sinfônica. Orgulho de todos. Mostra os encartes de notícias nos jornais falando da escola e toca Carinhoso de Pixinguinha.

            Maria tem pouco mais de 10 anos. Toca flauta doce e, ao ser convidada, sem timidez, com orgulho, toca o comecinho de Asa Branca de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga. Maestro Zé me pede para eu observar a agilidade dos pequenos dedos. Diz que tal habilidade é disciplina, é esforço, é arte.

            Seu João tem pouco mais de 50 anos. Sofreu um acidente vascular cerebral há uns 5 anos e como sequela maior: a perda da memória. Era músico. Esqueceu seu nome e o saber ler partituras, bem como a habilidade de tocar seu instrumento: o violão. Com o apoio de amigos e familiares, foi lembrando, voltando. Na escola de música, conseguiu um espaço para reaprender a música lida, a música tocada.

            Seu Tonho tem pouco mais de 80 anos. Não sabem de onde veio, mas sabem que ele não tem paradeiro. Ele não lembra de muita coisa. Não fala muito. Diz-se até que não tem família e vive só. Gosta de vir para a escola e mexer na gaita tentando ler a partitura do método Mário Mascarenhas, a cartilha dos gaiteiros iniciantes. Maestro Zé diz que ele abre e fecha o fole e fica feliz porque entende que está tocando uma música. Passa a manhã assim e tem até nome artístico: Tonho do Acordeon.

            Lugar de aprender música. Lugar de acolher quem ainda tem tempo e desejo de ensinar: magia no olhar quando fala do ofício, dos alunos... Lugar de acolher sonhos de jovens, resgates dos que querem achar novo caminho, carinho aos que precisam de um sentido, a ideia de tirar a música da vida, lida em partitura da alma.

            Lugar de cuidar assim deve ser. Maestro Zé nem percebe. É cuidador e quem sabe, na simplicidade da flauta doce e na beleza do olhar de menino, cura a dor do coração, ajuda a erguer o olhar para um novo ciclo, diminui a lágrima do abandono, faz florescer esperança em asas brancas e carinhosas, produz cigarras em música que abre as janelas, atravessa as ruas e ladeiras e faz as formiguinhas caminhantes, trabalhadores, operários, vendedores e turistas, dançarem e serem mais felizes.

            Lugar de cuidar assim deve ser. Maestro Zé nem percebe. Lugar que contamina de esperança, que espalha canção, que injeta alegria. Lugar de chegar e sentar ou ficar de pé, requebrar. Lugar de se reinventar e de inventar uma nova nota. Lugar em que se cura da estrada, se liberta, lugar de vida cantada, encantada, reencantada.

            E começa a festa! Estrelando: Maestro Zé e Maria na flauta doce, João no violão, Tonho do Acordeon na gaita e, na percussão, o bater dos nossos corações. Então, a música vai começar! A hora de cuidar da vida é de um jeito assim que a gente nem pensa, nem percebe, que nem Maestro Zé. É de um jeito assim que a gente só olha e sente vontade grande de estar junto e comemorar a descoberta emocionada de um amor sem partitura, de um carinho sem nota musical. Vamos dançar?

*nomes modificados



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