QUIMERAS, UTOPIAS, DEVANEIOS E ANDORINHAS [Maria Amélia Medeiros Mano]

QUIMERAS, UTOPIAS, DEVANEIOS E ANDORINHAS

Ai tanta coisa não devia se fazer
Tantas vezes a gente chora
Por deixar seu bem querer
Minha cabocla foi-se embora do sertão
Fez que nem as andorinhas
Foi buscar outro verão.
Breno Ferreira

            Minha mãe cantava canções para nos fazer dormir ou na lida do dia, varrendo a casa. Muitas delas, dizíamos, “não existem!” porque nunca tínhamos ouvido na vida. Assim é que fomos crescendo e entre uma descoberta e outra, uma rádio e outra, fomos aos poucos reconhecendo as músicas “inexistentes”. Uma vez gravei um CD para minha mana com as canções inexistentes da mãe. A “pior delas” era a tal da Andorinha Preta que ela cantava só uma frase repetidas vezes. Lembro da gente rindo e dizendo que era invenção, que não existia música assim, tão tola.
            O mesmo acontecia com o pai, só que com as palavras. Volta e meia ele trazia palavras rebuscadas de um tempo distante. Lembro quando disse “lupanar” com ar de satisfação. Ria com a nossa desconfiança e com nossas buscas constantes ao dicionário. Ficava triunfante quando encontrávamos a palavra exótica que jurávamos não existir. Essa e outras tão estranhas ou mais, ele só usava pra impressionar. Mas algumas, de uso mais restrito à escrita, ele tinha e ainda tem certa afeição e repete com frequência até hoje.
            Pai e mãe. Nenhum dos dois é diverso e parecido em gosto de música e leitura. A mãe gosta de samba de raiz e lê livros espiritualistas, otimistas ou de autoajuda. O pai já é mais romântico, adorador de Roberto Carlos e de romances regionais e crônicas em geral. Leu quase toda a obra de José Lins do Rego e relê Fernando Sabino devagar “para não terminar logo o livro”. Diferentes e donos de músicas e palavras inexistentes, esses dois, um dia, resolveram caminhar juntos e no meio de tantas diferenças, nos fizeram, nos criaram e, de forma engraçada, somos as três irmãs mais diferentes que conheço.
            Mas e as palavras que ficaram! As principais que permanecem e que o pai usa com são tamanho gosto são: quimera, utopia e devaneio... Se a fala pudesse expressar as reticências elas estariam ao fim de cada uma delas Pronuncia todas com tom distante, às vezes, até misterioso. Às vezes melancólico. Às vezes como se estivesse em algum lugar que, tal qual as músicas da mãe, na infância, desconhecemos. E, de alguma forma, como as canções, com os anos, com a vida, as palavras vão se achegando em seus mais profundos significados, aos poucos..
            Quimera é de origem grega e se refere a um ser monstruoso, mistura de homem e animal que solta fogo pelas narinas. Figurativamente, em linguagem popular, significa qualquer fantasia, algo que é produto de imaginação, sonho. Utopia traz a ideia da civilização ideal, fictícia, um lugar inexistente onde há bondade e igualdade, lugar de sonho. Devaneio é fantasia visionária, o sonho do homem acordado. Assim, essas três palavras que ele usa com tamanho ar de importância são todas parentas e de uma forma ou de outra podem ser usadas com a mesma ideia: sonho.
            O pai cria histórias para dormir. Às vezes se anima tanto com o que inventa que chega a querer dormir logo para seguir em mais um capítulo da sua aventura. Às vezes me diz o que imagina e de forma perigosa, em muitas ocasiões também, quase chega a planejar e esperar pelo que sonha à noite, sem prestar atenção em muitos elementos reais que juntos dizem do absurdo que é buscar esse caminho. Enquanto isso, a mãe gosta de cochilar na frente da televisão e quando acorda, é como se dia fosse e segue puxando conversa e contando coisas.
            A mãe ainda canta Andorinha Preta. O pai segue com suas quimeras e utopias e suas palavras de devaneios. Uma manhã perguntei a ele qual era a história que estava inventando agora. Ele me respondeu imediatamente, sem vacilar: uma casa na árvore. Disse que segue noites e noites construindo, mas não consegue resolver a questão do vento que desestabiliza e balança “sua” morada. Diz que chega nesse ponto e acaba dormindo e, na noite seguinte, persegue a mesma ideia e a mesma pergunta.
            Então, sorrio e me alegro de ser feita de matérias tão diversas, coloridas, sonoras, sentidas, cantadas e sonhadas. Andarilha como meu pai, cumpro algumas migrações tal qual a andorinha que fugiu da gaiola na música tola mais bela. Faço meu ninho pequeno e protegido da chuva e nem tenho a pretensão de cantar tão terno quanto a mãe. Mas em voos próximos e distantes, em aventuras e ventos de verão, também pouso levemente nos galhos de uma árvore frondosa e de aroma doce onde lá em cima, no galho mais forte, vejo um menino, vitorioso, terminando de construir uma casa que não balança com o vento.

https://www.youtube.com/watch?v=DN6N-HzB5Sc

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