TRILHOS [Maria Amélia Medeiros Mano]


Trilhos

Para Cecília, Tia Gládis e Tio Paulo

E assim, chegar e partir
São só dois lados
Da mesma viagem
O trem que chega
É o mesmo trem da partida
A hora do encontro
É também despedida
A plataforma dessa estação
É a vida desse meu lugar
É a vida desse meu lugar
É a vida

Milton Nascimento

            Trilhamos. Caminhamos fora e dentro de trilhos, entre e com as utopias cotidianas. Passos fora das nossas casas, das nossas lidas e vidas com os nossos familiares, amigos, amores... Levamos da partilha, da história nossa, nossos saberes, nossos ideais e sonhos que nos tornam mais inteiros. O que produzimos de inteireza nas nossas cozinhas, quintais e jardins é semeadura da rua, das andanças próximas e distantes dos portões das nossas infâncias.
            Somos um pouco meninos desbravando caminhos, puxando seus caminhõezinhos de madeira, carregados de vontades, curiosidades e medos. Brincadeira da vida por subidas, descidas, atalhos, pontes e muros. Obstáculos e belas paisagens.
            Movimento de andar, chegar e partir de casa, de fora, e voltar, também de dentro de nós. Viagem eterna. Também trazemos presentes nas malas de retorno e novas paisagens nos ajudam a re-compor o que fomos, o que somos, o que nos importa. Reencontros com o que é nosso e a cada retorno, uma cor diferente, porque somos outros. Assim é que nos damos conta de que as grandes descobertas estão sempre próximas, do nosso lado.
            Passei parte da infância ouvindo sobre a infância e juventude da minha mãe, Cecília, filha de ferroviário. Ela ainda conta com olhar de carinho e aventura, a vida de uma menina que cresceu entre trens, trilhos, estações, partidas, chegadas e esperas. Lugares distantes que tinham como a maior atração, o trem. Nada disso era novidade até que eu me envolvesse com um projeto de memória de uma comunidade. Apurei os sentidos e mudei o olhar.
            Assim, em um dia de primavera, convidei a mãe para retornar a uma casa de infância que sempre citava, na beira dos trilhos. Mais de 50 anos depois e estávamos nas ruas movimentadas de uma cidade nova. Ela reconheceu pouco dos lugares de menina e moça: a possível casa de seu primeiro namorado, o cinema em que todos da família iam, barulhentos e animados. Mas o principal era retornar à estação de trem. E voltamos...
            A estação se transformou em museu com reformas e modificações e, próximo à plataforma, mantiveram um pedaço de trilho de trem que, solto no solo, acompanhava o prédio, somente. No entanto, o entorno estava em péssimas condições. Havia ruínas de prédios antigos. Algumas casas não existiam mais. A casa que foi da minha mãe, seus irmãos e meus avós, se transformou em parede, somente, envolvendo um matagal. Na presumível entrada, solto, o pequeno portão de ferro.
            Observei os passos dela nas ruínas da casa e na plataforma vazia da estação. O trilho que ia do nada a lugar nenhum e o portão da casa que se abria para o relento não a impediram de revisitar as brincadeiras, as festas de esperas e chegadas. Sorriu, lembrando dos dois viralatas da família que correram atrás de um padre, com batina e tudo. “Isso tinha tanta vida...” me disse a mãe.
            Então, penso nas estações de trilhos fantasmas e nos portões soltos no ar. Penso na forma displicente com que se lida com os lugares de vida comum, simples. Lugares que se tornam ruína, seja pelo obsoleto, seja pelo fracasso, seja pela tragédia ou pela ganância de outros movimentos que expulsam. Lugares de “tanta vida” não devem ser abandonados. Será que as casas de vida vivida também não são memória, patrimônio, tanto quanto a estação de trem?
            Recentemente fui a uma exposição em que se mostravam os pedacinhos do reboco da casa de infância. Cada qual com uma cor, eram identificados pela artista: quarto, sala, alpendre... Soltos assim, já eram especiais. Imaginei a história que cada um desses pedacinhos desbotados contava. Daí, sim, viraram mágicos. Mas esse tempo que desbota as paredes, também ressignifica e redimensiona as experiências.
            Tempos depois, eu e a mãe, fomos, juntas, a um show do Milton Nascimento. Ela levantou da cadeira ao ouvir “encontros e despedidas”. Cantou a canção. Um trem antigo de menina apareceu soltando fumaça e apitando. Moças arrumadas esperando. Meninos barulhentos brincando. Surpresa e reencontro sempre. Porque em corações mais ternos, não há ruínas, portões soltos, trilhos sem sentido ou paredes solitárias.
            Pedacinhos desbotados de história sempre renascem. Ganham cores fortes e vivas. Serão sempre mágicos e contarão aventuras de um tempo que nunca vira abandono e tristeza. Tempo sempre contado aos pulos entre trilhos, amarelinhas, cordas, canções e cães viralatas. São as lições dos meus, de quem amo, que sempre me convidam a aprender, a sorrir e a voltar pra casa.










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