A PRIMEIRA SOLIDÃO PROFUNDA [Maria Amélia Medeiros Mano]



Tudo, a este instante, é como um grande grito
Quase a romper as cercas do infinito
Alphonsus de Guimaraens Filho

            Fim de semana de caminhadas pelo meu bairro, leituras e uma música para enfeitar a alma pintada de sábado de sol...
            Na estante da livraria, perto de casa, um título curioso: Dicionário de Pequenas Solidões. Folheio, curiosa, e não vejo palavras e seus significados. Vejo histórias, pequenos contos urbanos. Saio sem muito desejo de conhecer os personagens. No entanto, lembro do meu reencontro com Rilke e suas cartas ao jovem Franz, aspirante a poeta e, portanto, de certa forma, um buscador de inspirações, momentos e solidões. Algo que a beleza das palavras juntas em significado, sentido e sentimento de alguma forma exigem. De verdade, concordo que as pequenas solidões estão mesmo nas histórias cotidianas e não em palavras soltas...
            A primeira solidão profunda é o termo que Rilke adota ao falar das dores deste jovem poeta que lhe confessa prováveis experiências iniciais de desamores. Conversa de pai e filho. O “pai” explica ao filho que assim é com os assuntos mais densos e importantes, “estamos indizivelmente sozinhos” e que tal sensação necessária de tristeza é bela, é construtora de coisas novas, mesmo que não percebamos. Afirma que somente há tristeza ruim e perigosa quando a carregamos em meio às pessoas para dominá-las. Essa tristeza se acumula e passa a constituir a vida. Uma vida desdenhada e perdida.
            De tristeza e solidão entendemos todos, um pouco. Ou muito. O grande escritor ainda explica que tudo inicia na infância. A criança que não entende os afazeres e obrigações do adulto ocupado é só. Também assim é em relação ao mundo e a vida, esse par de desconhecidos. Um dia, crescemos e percebemos, em alguns muitos, a mesquinhez deste “ocupado”. Rilke aponta ocupações tão rígidas que não mais se ligam à vida, exatamente por que não olham mais para ela, a vida, como olha uma criança. O viver perde a magia quando passa a ser sem estranheza e sem curiosidade. Assim, melhor o solitário não entendimento de uma criança à atitude de desprezo para com a aventura de estar vivo.
            Estar perdido, incompreendido ou sem compreender é estar sozinho, mas ainda é melhor do que estar desencantado. O desencanto fecha portas e janelas deixando a vida escura, sem frescor, sem cor. Sofrer pela incompreensão ou solidão, sem ser cooptado pela mesquinhez e injustiça, sem submeter a tristeza ao outro, é a possibilidade. Rilke diz que não há motivos para desconfiarmos do mundo; ele não está contra nós nestes momentos. Os terrores, abismos e perigos, se existirem, são nossos e não do mundo e “precisamos aprender a amá-los”, entendendo que, talvez, em última instância, o terror venha do desamparo, de algum medo que requer nossa ajuda mais do que nossa revolta e aversão.
            De forma tranquila, o escritor ensina ao jovem poeta que as dores, inquietudes e melancolias não podem ser excluídas da vida sem que a gente as entenda e que isso exige tempo. Também exige paciência em relação a tudo o que não está resolvido no coração, explica Rilke. Que a impaciência de encontrar respostas seja substituída pelo amor às perguntas, que são “como quartos fechados e como livros escritos em uma língua estrangeira”, diz. Não é prudente buscar por respostas que não podem ser dadas, mas vividas. Estar vivo se trata de viver esse tudo: as perguntas e as respostas que, aos poucos, nos aparecem.
            Sedentos de caminhos certos ou da certeza dos caminhos, perdemos essa experiência dolorosa e deliciosa de vivenciar solidões e reencontros. Trajetórias apressadas. Rilke pede ao poeta, também, a necessidade de observar o mais simples. A conquista do amor pelo ínfimo e aparentemente mais pobre nos reconcilia com a vida. Mesmo os sentimentos nascentes, pequenos, quase sementes, devem ser observados no germinar, “dentro de si, na escuridão do indizível” e na espera com profunda humildade, pela hora do nascimento de uma nova clareza. Ele entende que isso é viver com arte. Para mim, talvez, seja a arte de viver.
            A nova clareza de Rilke é o instante em que algo de novo penetra em nós. É quando “nossos sentimentos se calam em um acanhamento tímido, tudo em nós recua, surge uma quietude, e o novo, que ninguém conhece, é encontrado bem aí no meio, em silêncio.” Diz que é fácil pensarmos que nada aconteceu, mas nos transformamos, “como uma casa se transforma quando chega um hóspede”. Não sabemos quem chegou, talvez nunca saibamos, mas sinais indicam que o futuro chegou para se transformar em nós e para nos transformar. Cada momento é de ouro se soubermos reconhecer como diz Henry Miller.
            Lágrimas, muitas vezes, anunciam esses momentos que são parte de nós e somos nós nos recriando e criando novos futuros, as respostas vividas, o enigma de viver. Conforme Hesse, a felicidade é de quem não exige nada do amanhã e aceita, grato, o que o hoje tem para oferecer. Para estes, “a hora mágica chega sempre”, porque ela nasce mais do dia calmo e da simplicidade única de um silêncio. Assim, quem está pronto para as lágrimas, quem não exclui nada viverá a vida e viverá o amor com toda a profundidade que merece.
            Rilke compara nossa existência a um cômodo que pode ter dimensões maiores ou menores e que se revela conforme caminhamos por ele, desbravamos. Podemos conhecer só um canto do quarto, ou “um local perto da janela, uma faixa na qual se anda para lá e para cá”. Mas o amor pode nos mostrar todos os lugares e ainda, construir novos. Porque o amor é a “oportunidade sublime” que cada um tem de se tornar algo e de se tornar um mundo diferente, por si, pelo outro. O amor “convoca para longe”, é aventura dentro do coração.
            Assim, a grande viagem e a grande descoberta é para o amor, para o simples, o próximo, o dentro de nós que nos reencontra. Até mesmo a ideia de destino é entendida por Rilke como o que vem de nós e não o que parte de fora: “Assim como, por muito tempo, os homens se enganaram a respeito do movimento do sol, eles ainda se enganam quanto ao movimento do porvir.” E, para tanto, silêncio, paciência, atenção e simplesmente, deixar a vida seguir e acontecer. Melhor se puder amar de verdade. E nada de buscar explicações do lado de fora se tudo ou o mais importante está “aqui” e vai aparecer no seu tempo anunciando novo amanhã, plantinhas filhas daquela semente que deixamos germinar, lentamente, no escuro.
            Compartilho esses saberes, neste sábado de sol, caminhada, bisbilhotada em livraria e parque, leitura e música, como quem partilha o bolo de milho da manhã na feira. Com a magia ainda presente do caminho da criança que desconhece e se sente só com a tormenta que trás o vento necessário e a canção: “El vuelo se consigue conociendo el viento”. Vento que produz, tanto quanto a solidão, o voo da semente que desbrava os verdes desses dias de primavera que, na outra canção ouvida, também, é invadida pela ternura.
            Da minha janela, a ternura já chega de mansinho, ventinho meio sopro, silenciosa. É ela quem guarda o segredo do porvir. Menina curiosa que caminha sozinha e a seu tempo, ela mesma sou eu e eu sou ela, em um instante que se diz: momento de ouro, nova clareza, hora mágica... Mas que eu chamo, simplesmente, de chorar ao vento e descobrir que esse vento cria caminhos na face, faz a lágrima correr para outros lados, outras bandas, outros canteiros, novos, enquanto seca, enquanto segue, enquanto sonha, enquanto semeia.







 [Maria Amélia escreve na Rua Balsa das 10 às 3as]

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