EU SOU COMO UM ANJO QUE VARRE A CIDADE [Maria Amélia Medeiros Mano]


Eu sou como um anjo que varre a cidade...

Labucci escreveu Caminhar, uma revolução - livrinho pequeno que devorei nas minhas viagens de ônibus de ida e volta ao trabalho. Entendo que o verdadeiro caminhante é como o autor descreve, não caminha para chegar logo, mas para se ter sentidos despertos, para contemplar o mundo encontrado, para se ter experiência de vida. Para os apressados dias de hoje, conforme o livro, caminhar é quase um ato de insubordinação, um ato revolucionário porque caminhar vai contra a velocidade. E a pressa, essa eterna produtora de tensão, de doença, de falta do olhar para a beleza da estrada é a ordem do dia.

O autor defende que as coisas boas e importantes devem ser preparadas, atingidas, alcançadas a pé, para que o tempo passe sua energia, para que as flores se abram como os pensamentos e possamos ver o mover das pétalas, tanto quanto o balanço das palavras e das ideias. Ainda diz que caminhar é um triplo movimento: não ter pressa, acolher o mundo, a estrada e não nos esquecer de nós mesmos no caminho. Sim, estamos presentes em nossos pés, nos fazendo humildes como todo caminhante. E o livro lembra que a palavra humildade tem relação direta com o húmus, a terra...

Passos, rastros... As páginas lidas definem o andarilho, o nômade, o errante, a rua, a estrada, a vereda, as buscas, os ires, os retornos, os detalhes, os riscos, os cansaços, as pausas, os descansos, as perdas, os vazios, as angústias, os encontros, as descobertas de quem opta em ter surpresas, habitar asas e sentir o chão. Assim, penso e tento caminhar sem esquecer de mim, sem esquecer do sol que seca as poças que, depois da chuva, refletem o céu, margeiam meus passos em curva e dança esperançosa e curiosa, buscando o mistério de cada dia.

Saio, na manhã, em mais uma caminhada leve, com destino e hora marcados. Na minha frente um casal de mãos dadas. Ela, com o uniforme azul do SAMU escrito técnica de enfermagem. Ele com um uniforme camuflado que parecia ser de algum batalhão do exército. Ambos uniformizados e, de alguma forma, preparados para uma espécie de guerra. Sim, eles convivem e convivemos todos com a violência cotidiana das ruas que passa por nós nem sempre percebida, às vezes banalizada, mais cruel assim. Mas eles seguem pelas ruas de mãos dadas. 

Observo a insistência do passo a dois, a conversa solta. Torço para que as mãos dadas sejam um antídoto para a desumanização frente ao dia a dia, que o esforço dos dois em permanecerem juntos, seja também expandido e contamine suas ações. Que as ações sejam impregnadas dessa luta pela ternura, apesar dos uniformes duros. Que não sejamos dois seres tão separados, o de casa e o do trabalho, o das mãos dadas e o da palavra de desalento, da atitude que machuca e mata. Que a gente possa ser o melhor e levar o melhor do que somos para os espaços, sejam eles os mais difíceis de serem vividos.

O casal some em uma esquina e sigo esperançosa, caminhando. Penso, ainda, antes da eleição, nos nossos então candidatos a governantes. Na batalha de palavras que trocam e saem, violentas, com mais facilidade que a necessidade de provar o quanto são dignos. Nas redes sociais, a briga continuava, a intolerância em relação ao diferente, ao contrário. No território onde trabalho, a luta pelo poder do tráfico faz vítimas semanais entre os jovens que se vão, entre as mães que sofrem, entre a comunidade que dorme sobressaltada com o ruído das balas na madrugada...

Violências de ontem e hoje. Tempo que passa e passou. Caminho e a eleição termina e a semana começa na busca pela arte e pelo sorriso. Música que anima meu andar, andar. Encontro e me encontro na embolada do poeta-palhaço andarilho que assobia, percorrendo ruas de pedra. Alceu Valença em rima e rota, rumo, tempo em frente e verso, avesso e direito. A beleza nas palavras que, desarrumadas, arrumam as ideias e o coração, porque ditas em canção e caminhada, refazem o andar como um “grito aflito na rua do sossego” de “um anjo que varre a cidade”.

Varrendo a cidade, assobio torcendo pelo casal de farda. Canto esperando por dias menos zangados, menos tristes, mais ternos. Caminho, em revolução e resistência esperançosa, com mais respeito aos errantes que observam os ventos, tormentas e brisas. Sigo, sem pressa, acolhendo o mundo em volta e o mundo em mim. Sei que as pedras do chão tanto quanto a vida, se faz e se sente, na mágica aventura de persistir, de prosseguir, enquanto pés que se descalçam, enquanto mãos que se desarmam, acarinham, semeiam e colhem flores brancas com cheiro de poesia andarilha de paz.

https://www.youtube.com/watch?v=ueiB5NGD7Qk
https://www.youtube.com/watch?v=ArVskTctdfw
https://www.youtube.com/watch?v=Fz2NML0YXPA
https://www.youtube.com/watch?v=dV7K8MVWh4E
https://www.youtube.com/watch?v=7jFxgxtHDGs

[Maria Amélia publica no Rua Balsa das 10 às terças]




Comentários

As mais vistas