QUANDO UM POETA MORRE [Maria Amélia Medeiros Mano]

QUANDO UM POETA MORRE

                É quarta-feira e saio para mais uma visita domiciliar com a agente comunitária de saúde. Mãe e filha me esperam com bolo de abacaxi com calda de chocolate. A mãe é muito idosa e tem sequela de acidente vascular cerebral. Não consegue se locomover, mas está sempre bem e de bom humor. A filha, Luísa, 50 anos, cuida sozinha da mãe e faz flores para complementar a renda. A mesa tem um arranjo grande de flores feito por ela.  Luísa reza muito e sempre que vamos na casa dela, o que mais pede é um abraço. De tanto cuidar, Luísa pouco se cuida. Abraço é alívio e cuidado. O principal objetivo da nossa visita, sabemos, é o abraço para Luísa.

                É quinta-feira e um poeta morre. Atendo seu João, 65 anos, que gosta de conversar e falar do passado, das coisas de antes. Pergunto o que ele diria a si mesmo aos 20 anos; que conselho daria ao jovem João. Ele me disse que aos 20 não fazia besteiras, não precisava de conselhos. Aos 30 anos, sim. Diria a si mesmo: trabalhe menos e abrace seus filhos.  Afirma que se esforçou muito no trabalho e sempre que chegava em casa, pensava: “amanhã abraço” e quando viu, estavam adultos e fora de casa. O amanhã chega em um piscar de olhos, o tempo passa rápido demais, me diz ele, e temos que fazer as coisas mais importantes hoje, não amanhã.

                O dia segue. Um menino sem mãe e sem pai é atendido por um colega, por um ferimento grande na perna, provocado pela trave em um jogo de futebol. Tia usuária de crack, atrapalhada. Prima e irmã cuidando das vidas confusas, sem tempo. O colega se oferece para leva-lo até o hospital para fazer a sutura e o curativo. Ele que já esteve abrigado em instituição e não quer voltar, se recusa a ir. Sabe que chamarão o conselho tutelar. Os amigos do futebol permanecem junto com ele. Meninos suados e unidos na frente da unidade de saúde e uma bola de futebol.  Jura que virá no dia seguinte. Só 10 anos e tantas decisões.
                É sexta-feira e converso com Ana, 37 anos, triste pelo esposo etilista. Diz que a infelicidade é sina de família. A mãe não é feliz. Ela mesma é feliz por poucos momentos. Faço a mesma pergunta que fiz a seu João. Ana de 37 deve aconselhar a Ana de 20 anos: o que deve dizer? Ana ri e se lembra dos 20 anos. Diz que “fervia” nos bailes do Centro de Tradições Gaúchas no interior, na zona rural. Conta do primeiro baile que foi sem os pais, com a irmã mais nova. As duas vestidas de prenda, a pé pela estrada escura, de mãos dadas quase abraçadas, com medo pelo desafio. Ana diz para irmã que até poderia ter uma alma penada atrás delas e na mesma hora um cavalo relincha e as duas se apavoram e saem correndo segurando as saias longas. Ela ri com olhar leve, lembrando da cena. Não me diz o que diria a si mesma, mas não importa tanto. O que importa é que aquele foi mais um raro momento de felicidade na vida de Ana.
                O dia segue. O menino do ferimento na perna não veio. Tomo um café com dona Dora, que faz a limpeza da unidade. Diz que o que vive hoje, aos 52 anos, é lucro, que já fez tudo na vida e aproveitou bem. O que lhe faltava na vida era a filha caçula ser mãe e isso já aconteceu. Diz que é feliz. Criou 4 filhos, dois são vigilantes, um é motorista e essa filha que se tornou mãe faz um curso técnico de administração. O genro não é bom, mas decidiram que iriam morar juntas sem ele e vivem em um pequeno apartamento junto com o neto recém-nascido. Em 7 anos se tudo der certo, se aposenta e, quem sabe, volta a morar no interior, na terra natal. Gosta de cuidar da limpeza e dos outros e diz que cuida de todos na unidade de saúde quando deixa tudo limpinho e faz seu melhor café. Verdade. Nas minhas viagens, pede pedrinhas. Gosta de envernizar e pintar o nome do lugar de onde veio. Jeitos de viajar.

                Fim do dia, fim da semana. Descanso com olhar no tempo que foi, no tempo que vem, consumido de sonhos, idas e vindas. Termina a semana em que o poeta-passarinho nos deixou. Poeta das pessoas e coisas desimportantes, das pequenas velocidades, da descoberta da insignificância, da profundidade sobre o nada, dos recantos, dos desvãos, da poesia fora da asa. Foi o poeta que quis ser outros, ser muitos porque não se bastava ser um. Carregou água na peneira, encheu vazios com peraltagens e quis ser amado pelos despropósitos. Quis crescer para se tornar criança.  E se tornou estrela do céu, pequena, de olhar com olho apertado e nem chorar, só brilhar o olho em espalhamento de lágrima pelo cristalino da alma.

              Manoel, feito do barro do João de Barro, pássaro que constrói ninho na ponta do bico. Feito do barro que fica entre os dedos dos pés do menino abandonado que corre na lama e cai e se machuca. Barro nos pés dos outros meninos que acolhem. Manoel feito da flor artificial de Luísa e do pequeno sorriso que esconde no abraço que dou. O abraço que o menino sem mãe e sem pai não tem. O abraço que seu João não deu no filho menino e sonha em dar no filho homem. O abraço que as duas irmãs dividem na terra batida da noite escura do primeiro baile. O sorriso da lembrança que produz um instante feliz. O cuidado no simples de limpar uma mesa ou passar um café: dona Dora e suas pedrinhas envernizadas.  O segredo de ser feliz.

             Quando um poeta de barro, de asa e instante morre, o mundo fica mais descolorido. Mas se a gente inspirar a poesia simples do cotidiano, vai ver o barro, o Manoel, o passarinho em cada detalhe desprezado e escondido da vida. Vida essa que se faz de café passado, lembrança, susto, perda, pedrinha, nascimento e principalmente, de abraços. Que abraços sentidos criam asas e asas ajudam a ganhar mundos. Não os mundos grandes vistos de longe, de cima. Mas os mundos pequenos, vistos de pertinho, do lado, de dentro, de casa, de alma, de poesia e dessa lama que insiste em ficar no meio dos pés do menino, esperando o colo, na minha lembrança, esperando que ele venha e que, por instantes, ele se sinta criança, como Ana se sentiu feliz. Poeta, Manoel, que já voa em asa-abraço-poesia, se encontrar o menino sem pai e sem mãe, sopra uma brisa no ouvido dele e faz ele vir na segunda. Por favor!
               
                
[Maria Amélia Medeiros Mano escreve na Rua Balsa das 10 às terças-feiras]



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