O COLAR DE CONTAS DE UMA CRIANÇA [Maria Amelia Mano]







O COLAR DE CONTAS DE UMA CRIANÇA

Aprende do pranto,
o parto das fontes
– sempre que chorares
nascerás uma outra vez.

Mia Couto

        Acompanhar quem está morrendo significa celebrar o passado, viver o presente e lamentar o futuro, tudo ao mesmo tempo. Este é um dos aprendizados do livro de Will Schwalbe que acabei de ler. Ele Conta a história real de um filho que acompanha a doença terminal da mãe, Mary, uma mulher fabulosa que trabalhava com refugiados na África. Ambos acabam adotando um jeito de discutirem sobre os temas da vida: comentar livros que liam simultaneamente. Assim, faziam uma espécie de clube do livro e conseguiam, a partir da história de terceiros, falarem das próprias histórias e das próprias vidas e ideias de mundo. Foi a maneira que encontraram para enfrentarem, juntos, a dor, a perda e ainda, partilharem sonhos e saberes.
        Uma pena que não tinha essa referência quando fui convidada a dar aula sobre terminalidade e finitude em um curso de especialização. Confesso que estava relutante pois não era o tema que tinha escolhido e uma série de compromissos e prazos estavam se acumulando. Mas acabou sendo um dos grandes presentes do ano. Queria levar para turma algo que não pudesse ser encontrado nas apostilas, nos manuais técnicos... Todos adultos, profissionais de saúde. É subestimar a inteligência das pessoas copiar conteúdos e colar em power point. Assim é que levei as questões técnicas e legais necessárias e ainda, busquei nos livros algo que fizesse diferença, algo que não fosse exatamente inédito, mas que proporcionasse um novo olhar.
        Achei no livro da Rachel Aisengart Menezes, a ideia de resgate: releitura, reencontro... Logo que expliquei o que era o resgate e dei exemplo, vários alunos e alunas foram me contando histórias de suas vidas e de situações onde aconteceram resgates. Uma moça jovem falou do avô que após um acidente vascular cerebral não conseguiu mais falar, mas entendia tudo. Quando estava muito doente, ficou ansioso, desejava dizer algo. A neta, então, teve a ideia de lhe dar papel e caneta e ele escreveu: “sejam felizes como eu fui” e partiu. E resgate então era essa possibilidade de se buscar algo, dizer algo, encontrar alguém e poder diminuir a frustração do não feito, do não dito.
        Pedir perdão. Dizer eu te amo. Uma técnica de enfermagem que trabalhava na pediatria, quando viu que uma criança estava morrendo, conversou com ela e perguntou o que ela queria comer naquela noite. A criança disse que era um iogurte. A técnica pediu para o setor de nutrição que, depois de checar de onde vinha o pedido, desautorizou pois era quarto do SUS e não tinha direito a iogurte. A técnica foi no setor, berrou, ameaçou e quase recebeu uma advertência, mas conseguiu um potinho de iogurte. E a criança faleceu na manhã seguinte. A técnica diz que com instituições violentas, é preciso transgredir, subverter.
       E entendo então, que mãe e filho do livro citado de Schwalbe, vivem um resgate cotidiano em um tempo mais prolongado que o momento derradeiro. Há pérolas nas longas conversas comentando livros. Em um comentário sobre personagens de um romance, ambos lamentam a separação do casal protagonista e Mary afirma que para terem ficado juntos, era preciso que tivessem amor e paciência ao mesmo tempo. Ainda questionava que as pessoas não deviam usar sentimentos para justificar ações: raiva não justifica violência, mágoa não justifica vingança, dor não justifica crueldade.
       Mary  citava um autor, Strout, quando ele diz que a vida corre em impulsos, os pequenos e grandes. Os grandes impulsos são as grandes decisões – casamento, filhos, mudanças radicais, etc – e os pequenos impulsos são os pequenos presentes cotidianos. A ideia é de que a nossa felicidade, ao contrário do que se pensa, é regida pelos pequenos impulsos: uma tarde de sol e conversa boa com amigos. Uma noite de lua entre nuvens e uma canção distante. A escrita do avô que quer passar uma última mensagem e o sabor do iogurte do menino que morre na manhã seguinte. Pequenos impulsos... São eles os que fazem a vida valer a pena.
       Outro comentário sobre um livro sobre a vida de refugiados, questão que ela conhecia e causa que abraçava, era a de que todos estão procurando um retorno a alguma coisa: um país, uma casa, uma família... Mas é impossível voltar... Acontecem coisas demais na vida, tempo demais, mudamos muito. E penso que também conosco, meio que refugiados de algumas experiências, buscamos retornos em terras seguras e nem sempre estão onde pensamos que estão. Sim, diz Mary, “O mundo é complicado, nem sempre a gente tem uma emoção por vez”. Sim, tudo se mistura e, lembrando dos refugiados, “no fim, a vida era isso: uns poucos pratos, um pente favorito, um par de chinelos, o colar de contas de uma criança...”
      Pequenos impulsos. Coisas mínimas. Os pertences que escolheríamos se tivéssemos que partir na madrugada, em fuga, para atravessar desertos, navegar clandestinos em porões de barcos, alcançar fronteiras... Coragem, diz Mary. E a maior coragem não é a física, dos enfrentamentos corporais que, por vezes, é insensata e coloca em risco a vida própria e de outros. Coragem, diz, é a de pessoas que assumem posturas contrárias, opiniões que desagradam uma maioria: pensar diferente e agir conforme o que se pensa e acredita é um ato de coragem. A coragem da técnica de enfermagem em fazer o enfrentamento e o risco de perder emprego por um pote de iogurte. Essa coragem muda destinos.
      Sim, porque é preciso coragem para mudar o destino. Mary lembra que destino e caráter estão juntos: pessoas que não mudam seu caráter não mudam seus destinos, não mudam suas vidas. E ainda sobre o caráter, ela explica que assim como a beleza da vida está nos pequenos impulsos, a maldade não nasce grande, ela quase sempre começa com pequenas crueldades nem sempre perceptíveis, ainda mais na nossa vida moderna que Mary identifica como máquina de interrupções: celulares, sirenes, buzinas, regras e nós mesmos que somos interrompidos e interrompemos na ânsia de terminar, de completar o assunto, de passar para outro tema, de não escutar.
       E o ano agoniza em seus últimos suspiros, últimas folhinhas do calendário. Neste ano, tivemos partidas de poetas, tivemos exílios, refúgios, interrupções, amor, paciência, fuga, busca e enfrentamentos corajosos que exigiram noites e alguma saúde. Tivemos pequenos impulsos que fizeram os dias mais mágicos e as noites mais sonhadas. Ainda, nestas horinhas que nos restam, que possamos iniciar resgates que não servem somente para momentos únicos de confissões e declarações ao leito de morte, mas resgates cotidianos, que não se resumem a um “parto” de partir, ir embora, mas um “parto” de parir, de chegar agora, cheio de histórias novas, desafios novos, lágrimas novas, renascimentos e reencontros.
      Mary fez uma biblioteca no Afeganistão. Clarice pediu demissão. Emília não foi pro Canadá. Fernanda se formou. Rita teve um filho. Gessi perdeu uma filha. Carla se aposentou. Sueli foi pra Itália. Ana se tornou avó. Adriana se separou. Rodrigo viajou para o exterior pela primeira vez. Dani reformou a casa... Mas o parto das fontes é o que está no segredo dos dias vividos entre os nossos: pequenos impulsos, o colar de contas da criança. Que o ano que vamos parir venha repleto de contas coloridas, resgates de vida em leito de vida, transgressões e coragens que mudam destinos e que possamos descobrir o essencial, o que levaríamos de sentimento e história e saber se tivéssemos que partir para uma fronteira. A fronteira entre ser feliz e ser triste.



Indicações:
- Em busca da boa morte: antropologia dos cuidados paliativos – Rachel Eisengart Menezes. Ed. Fiocruz.
- O clube do livro do fim da vida – Will Schwalbe. Ed. Objetiva.


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