CHÃO (Maria Amelia Mano)





CHÃO

O chão é um ensino
Manoel de Barros

- Ô tia Amélia, tá tirando foto de chão?
- Sim, querido... Esse chão é bonito, né!?

                O “chão” da escola do meu sobrinho de 7 anos, Arthur, é feito de ladrilhos hidráulicos em verde branco, formando estrelas, bonito... Depois de ter o instinto ou o impulso de tirar, com o celular, a foto do piso da escola. Depois de registrar nossos pés neste chão. Depois desse diálogo simples, Arthur que, antes, pareceu surpreendido pela ideia maluca da tia, aceita, gosta e começa a me mostrar “outros chãos bonitos”. Desde então, meio sem razão, começo a bater fotos de pisos que percorro, assim, meio sem plano, sem pretensão, só pelo prazer de registrar caminhadas e chãos, em vão.
               Os bonitos, cheios de flores. Os tristes que abrigam gente. Os românticos que guardam declarações de amores. Os políticos que protestam. Os coloridos que as crianças brincam. Os sujinhos que um velhinho lava, todas as manhãs, com um regador de planta quando passo na Rua da República. Os que se fazem degraus. Os que guardam raízes que avançam pelo cimento. Os mágicos que prometem saúde, dinheiro e amor. Os que nascem cogumelos de um dia para outro. Os “brutos” de tijolo e terra. Os sofisticados de brilho bonito, assoalho. Os acolhedores, casa de mãe. O que o cãozinho descansa. Os que se movem, chão de ônibus. O que o passarinho atravessa na faixa de pedestre. O que pousa a borboleta...
            Tento erguer a cabeça para não ser vencida pelo cansaço dos dias, para não parecer triste. Deixo de olhar para o chão. Olho de menos e sou surpreendida por degrau sorrateiro: “O chão quando foge dos pés. Tudo perde a gravidade. Então ficaremos só nós. A um palmo do chão da cidade”. Pé torcido e volto a olhar para o chão, vagarosamente agora, prestando atenção em cada desnível. E mais fotos de chãos aparecem entre cuidados, temores, dores e a lentidão necessária da recuperação que exige paradas, pausas que (me) permitem (me) olhar mais demorada e profundamente para o que tenho (me) percorrido e o que tenho a (me) percorrer.
           Chão que exige calma no passo, na alma, no pensamento, nas decisões... Chão que ensina a parar, a medir as distâncias com mais cautela, a perceber perigos antes invisíveis, a calcular o anoitecer da rua para não pegar a escuridão. A fragilidade, a incerteza, a instabilidade visível do passo chama atenção, torna alvo. Não poder correr é ser vulnerável de algum modo. Estar vulnerável, em condição inferior de fuga e defesa no chão da cidade é buscar compreensões, atenções e abrigos. Jeito diferente de caminhar. Aprendizado. Chão que ensina. A lição, entre tantas, é a humildade e a paciência.
            Abaixo dos meus pés, qualquer superfície, mesmo que suspensa, mesmo que incerta, mesmo que em declive, mesmo que móvel, é chão. É a partir desse lugar tão desprezado que a ave dá o impulso do voo, que bebês surpreendem ao se equilibrarem sós, que semeamos e colhemos. Abaixo dos meus pés, cimento, argila e imensos rios subterrâneos. Em alguns lugares vulcões e movimentos que destroem. Alicerces que constroem. E o dia que resseca com sol e molha com chuva o chão que andamos, nos diz da rara compreensão dos atos, das experiências, das conquistas e das imagens mais simples. Simples como o pó da estrada. Poeira estelar de onde viemos. Pó de lembranças, para onde voltaremos.
            “Eu tinha apenas 17 anos, no dia em que saí de casa”, diz a canção e lembro de mim mesma que pisava olhando mais para o céu. Assumo mais uma mania do tempo, de procurar tesouros também no chão. Mania de pai que me presenteia com seixos das terras por onde passou, dos chãos que amou, contando com ar de mistério que aquilo é um pedaço sagrado de mundo criado muito antes de nós pelos ventos, pelas águas e pelo fogo. Jeito simples de criança de levar histórias no bolso da calça, na boleia do caminhãozinho de brinquedo, na alma da tarde no quintal, nos pés descalços nos galhos de árvores, no vermelho centro da terra onde todo o calor serve para nos lembrar que chão tem paixão, coração, tem vida, tem caminho, distância percorrida e por percorrer.
            Mas, ainda, e sempre, chão tem alma, calma, de semente, de saudade, de abrigo e descanso: sono e sonho embalado pelos passos das travessias das gentes pelas vidas. Cantiga de ninar do mundo, canção de caminhada é cantada mesmo pelo chão. O que fica de longe é vento nas folhas, canto de pássaro e voo de criança curiosa buscando a boniteza simples de pequenos tesouros, de raridades comuns, das pedras achadas nas ruas, nos caminhos de mãos dadas, para casa.

https://www.youtube.com/watch?v=Jn5C5X255Ao

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