MENINAS SEM FIM [Maria Amélia Medeiros Mano]


MENINAS SEM FIM

O mundo que é nosso
é sempre tão pequeno e tão infindo
que só cabe em olhar de menino.
Mia Couto
Para Aninha e Raquel

          Venho de mundos libertos, mundos desertos, mundos repletos, onde os pés no chão são orgulho, marca de vida, heroísmo de fortes, pretensão dos que brincam soltos, brilham nas tardes em calçadas, alpendres, quintais, jardins, açudes e céus azuis. Joelhos esfolados. Pés cobertos de lama, de sal e feridos de alguma pedra de estrada, de alguma árvore subida. Os olhos curiosos espiam os cheios e os vazios em pequenas janelas abertas. Abertas as veredas, os portais nas matas, as fendas nas tábuas das portas de vizinhas dores, amores, sonhos ouvidos e inventados para dormir. Casa sem forro. Telhas no alto, insinuando o fio do dia que nasce. Cadeiras na calçada e riso que voa para o outro lado da rua. Pula corda. Bambolê. E dividimos histórias, invenções, esconderijos, segredos e quebra cabeças de peças que sobram, que faltam. Não importa... Pois esse que é divertimento de sentar, quietude não basta. O que encanta é a correria na rua, atrás da bola, do cão, da galinha, do céu da amarelinha, da chuva que começa em neblina fina. Esconde-esconde, passa-passará. Caminhão de lata. Comida de flores. Cidades de barro. Personagens de vassoura. E um oceano imenso no tanque de lavar roupa. Barcos conquistando mundos, carregando mundos, inventando mundos. Casa de vó: aventuras no pé de siriguela, sapoti e tamarindo. Passear no centro pra ver movimento, lojinha e sorvete. Varal, vento e cata-vento no alto, na mão, verde-amarelo. Feriado, dia da pátria, de pentear especial o cabelo, maria chiquinha amarrada de elástico de pular e de cós de saia, dia de bater forte o pé direito em marcha. Fila na escola. Merenda de bolacha maria com leite. Aprender a ler e a fazer verso: tia Cleine, Benedita, Irmã Marcela. É vaca, boi e cabritos nas ruas. Gira roda de bicicleta na rampa da estação do trem. Tesouros nos bolsos: botão, pedra bonita e anel de conta azul. Quadrilha, fogueira e cheiro de pólvora: “traque” nos pés. Fogueira e sombras de assombrações. Passeio no mercado de comprar manga. Passeio na feira de comprar pinto, pato e bolsinha de palha. Festa da padroeira. O bom é depois da missa. Bandeirinhas coloridas e música de dançar junto. Carrossel pros pequenos e roda gigante pros grandes. Praça, coreto, banco que se conhece cada nome e um desenho de coração. Medo da capital que diminui com caldo de cana e pastel. Mar, mar e mar. Violão da prima cantando “veja você, arco-íris já mudou de cor...” Olhos assustados. Mãos dadas. Meninos que assombram nas janelas dos ônibus: “olha a banana seca!”. Pega-pega. Chicote queimado. Pula-corda. Roda ciranda de marré deci. Cansaço de menina. Um doce sabor de dia que se vai e o profundo balanço da rede na noite de estrelas nuas. Balanço de corda e madeira onde se voa no vai e vem da tarde na praça. Balanço do pedal da máquina de costura da minha mãe, onde ainda deito minhas bonecas para dormir, nas minhas boas saudades de mim.




[Maria Amélia escreve no Rua balsa das 10 às terças feiras]


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