A improvável visita a comunidade da Costa da Caparica

Água.
Escrito em 12/07/2014

 Pelo jogo das probabilidades e as chances de um dado, isso dificilmente aconteceria duas vezes. Decidi fazer couchsurfing (dormir na casa de desconhecidos sem custo algum) em Lisboa enquanto estava no Congresso de Internacional de Medicina de Família, certamente para conseguir fazer algumas economias. Fui acolhida por uma “família” de amigos todos já voltando para o Brasil nesses meses de julho e agosto, mas que ainda assim deixaram o quarto pronto e foram me buscar no aeroporto. Foram poucos dias de convivência e muita correria: eles arrumando as malas e eu no congresso.  Mas ainda assim madrugada a dentro conversávamos um pouco sobre a faculdade, outro pouco sobre a volta para o Brasil. No meio dessas conversas falaram de uma amiga que desenvolvia um trabalho na comunidade “Costa da Caparica” e começaram a descrever a comunidade. Deu saudades da comunidade da Barra no Brasil, lembrei de outros caminhos percorridos nas estradas de areia de Rio Grande. Conheci a amiga dos meus amigos no sábado em uma festa de despedida, conversamos um pouco. Ela iria visitar a Costa da Caparica no dia seguinte, domingo cedinho e ela perguntou se eu queria conhecer a comunidade. Peguei o número do celular e mandei uma mensagem para nos encontrarmos no metro no domingo.

Domingo cedo, dia de descanso, fui me despedir dos meus amigos e colegas que vieram do Brasil para o Congresso. Um abraço apertado em cada um, um carinho, um sorriso e as lágrimas que ficaram entre descer e não descer. Decidi que ia para a comunidade: corri para pegar o metro. Corri, tropecei, cai, mas cheguei (um pouco atrasada), mas a Aline estava lá me esperando sentada na escadaria ela e o seu amigo Lúcio. Dia meio chuva, meio sol. Lágrimas do céu de Portugal pelos brasileiros que estavam partindo.

  Viemos conversando no ônibus, um tanto de conversa, um tanto de sono. Enquanto nos afastávamos um pouco do centro da cidade. A parada era logo depois da ponte Vasco da Gama, cruzei o rio Tejo. Quase tão poético quanto Fernando Pessoa. Descemos, cruzamos o asfalto e a rodovia correndo (não tinha faixa de pedestres). E entramos em uma estrada de chão. Ao longe já era possível avistar a comunidade, as casas, a fumaça, as cores e uma bandeira do Brasil (ainda na esperança da vitória na copa) hasteada de uma pequena casa ao lado de uma bandeira de Portugal. Aline começou a me contar sobre a comunidade, falou que eles não tinham acesso a água, que tinham que ir buscar andar até uma árvore onde tinha uma torneira. Isso até acabou criando uma nova profissão na comunidade os “aguadeiros” que buscam água em troca de dinheiro. Logo ao lado de uma grande horta que recebia água e fazia a fronteira com a comunidade. O contraste era desconcertante: uma horta aguada pelo encanamento e a comunidade ao lado sem um único cano, sem água tratada e potável.

Difícil de entender para o que eu via em “País de Primeiro Mundo”, pessoas já há muito tempo, mais de 40 anos, sem água. Falaram que os proprietários da horta não podiam dividir a sua água com a comunidade, porque a comunidade é ilegal, não devia estar morando lá. E se acontecesse isso os proprietários eram multados. Mas isso de deveria ou não deveria já não importa aos meus olhos, eles já estão lá. E como disseram cuidam e vivem naquela terra: acordam de manhã com o sol, o campo aberto, cumprimentando o vizinho, nas casas que eles construíram. Cada casa tem o suor das mãos, carinho, lágrimas, dor e esforço. Se aos olhos de quem vê a comunidade do lado de fora são casas simples e pobres (como andei lendo pela internet) é porque nunca encostaram a mão naquelas paredes e pararam para ver a diversidade e os sentimentos que aquelas casas levam.


Antes de chegar na comunidade Dona Vitória uma senhora muito simpática estava colhendo milho no acostamento da estrada entre a horta com água e a estrada. Lugar que ela encontrou para plantar o seu milho. Carrinho de mão, sorriu ao ver Aline, olhou com olhos desconfiados para mim e para o Lúcio, mas logo puxou para um abraço. O Lúcio se ofereceu para levar o carrinho de mão cheio de milho, no meio do caminho os milhos caíram no chão e todos nós corremos para ajuntar. Ela deu risada como quem diz “Eu levando esse milho não deixaria cair”, nós rimos também. Entramos na comunidade, deixamos o milho perto de um fogareiro improvisado que a Dona Vitória fez para cozinha-los. Alguns gatos no meio do caminho, um de olhos azuis ficou certo tempo me encarando. Começamos a entrar em uma ruazinha estreita que Dona Vitória nos guiava com seus chinelos e meias, pisando em pedaços de pedra, azulejos e outros materiais para não pisar no barro. Fomos conhecer a sua casa na chegada eu já vi vários tonéis amarelos, azuis e brancos com água armazenada e ela se explicando que “aqui a gente guarda a água da chuva” e a água de beber é do mercado.  A casa da Dona Vitória era tão bonita, ela foi mostrar para nós 30 e tantos anos construindo e ainda inacabada. Com muito orgulho de cada tijolo, com um amplo banheiro todo colorido com azulejo português. Casa de material, quartos grandes, quanto esforço nessas paredes. Ela estufa o peito e diz com orgulho que ali na Costa da Caparica criou os seus filhos, trabalhou na horta que recebe água e se aposentou. Como estava chovendo mostra ao longe sua plantação de bananas, feijão, milho e outras plantas. Além das cabras, ovelhas e outros animais que cuida com carinho. Uma alegria e orgulho que só sentindo para conseguir entender. Logo deu duas ameixas para cada um e disse para eu lavar com a água da chuva que escorria do telhado, lavei e comi, duas ameixas amarelas e gostosas. O meu café da manhã, depois de tanto correr para conseguir dizer “até logo” e depois chegar na comunidade. Dona Vitória foi buscar seu caderno, passou a vida inteira sem saber ler e agora com orgulho mostrava seu caderno preenchido pela metade. Nele estava escrito seu nome repetidas vezes e outras frases como “Pintei a cozinha”. E ela falou para a Aline que tinha feito as lições de casa. A Aline estava, antes de voltar para o Brasil, ensinando os moradores da comunidade a ler e a escrever.

Meu nome.

  Estávamos conversando sobre a água e apareceu um moço jovem de boné, camiseta verde e calção – o nome dele era Daniel. Veio caminhando e falando que tinha escutado a voz da Aline e que decidiu levantar para ir cumprimenta-la. A risada inconfundível da Aline o fez levantar. Ela logo começou a chama-lo de escritor e eu comecei a perguntar sobre o que ele tinha escrito. Naqueles olhos dava para ver muita sabedoria numa voz calma e tranquila. Dona Vitória pediu para nós sairmos da chuva e voltamos na entrada da comunidade que ela estava cozinhando e preparando o milho para nós.

Decidimos ir na casa de Dorval, mais conhecido como Du, um imigrante de Cabo Verde que se tornou a liderança da comunidade. Eles cuidam de um bar. Cheguei lá e encontrei um tambor embaixo de uma mesa, um Djembe como um morador local que estava sentado no bar me falou. Fiquei curiosa com o som, um certo instinto de percussionista que me corre pelos dedos. O bar ainda estava fechado e ficamos conversando. Fugindo um pouco da chuva. Sentamos nas cadeiras do bar, com os pés no chão batido. Daniel começou a contar sobre repórteres, fotógrafos e a mídia que estava com frequência na Costa da Caparica. E falou com veemência “A comunidade não é museu” e contou das notícias de quem não vai conhecer a comunidade que em poucos minutos acreditam já ter um panorama da comunidade. As fotos distantes e mesmo as fotos de satélite não contam as histórias que correm por aqueles caminhos. São muito mais julgadoras do que informativas. Daquela conversa aprendi muito e eles contaram também da árvore de natal que tinham construído de garrafas PET no último dezembro.  Somou-se a conversa pouco tempo depois o Du.

Ele me cumprimentou com um aperto de mão, e um olhar profundo desses que alcançam nossa alma e falou que o seu nome era Du. Sentou ao lado da Aline, meio tom de despedia, meio tom de “até logo”. Logo começaram a contar sobre o governo querer mudar toda a comunidade para um bloco de apartamentos. Quatrocentas pessoas para os apartamentos. Mas alguns já se mudaram e já voltaram e falam muitos quer dizer que é bom para todos. Definitivamente apartamentos com água encanada não são bons para muitas pessoas da Costa da Caparica, assim como a comunidade da Barra. Para eles o melhor ainda é continuar com as paredes levantadas pelas próprias mãos. Onde iriamos colocar os cabritos, feijão, banana da Dona Vitória? Como seria dançar e celebrar a cultura africana com tambores em um condomínio apertado? Como seria tirar essas pessoas das casas que eles construíram com tanto esmero ao longo de anos, criaram seus filhos, cresceram? Como dizer que eles estão “a invadir” uma terra que já faz parte dos seus dias, que já acolheu os seus pais e filhos? Ora Portugal, quanto do teu sal são lágrimas?

Criou-se uma ideia do que é “bom para uma comunidade”, como um bloco de apartamentos com água encanada, luz e acesso a vários confortos da vida moderna. Mas nunca perguntaram para aquela comunidade o que era bom para eles, é claro que eles querem o conforto que eles querem qualidade de vida melhores. Isso está enraizado na vida deles, mas ao invés de construir um projeto junto com a comunidade de ver quais são os desejos da comunidade, de juntar as nossas mãos humanas. Não, há uma imposição de mudar eles para condições “mais humanas” mas cadê a humanidade nesse processo de construção?

Reflexões sobre a nossa conversa abrigada da chuva nas lonas do bar do Du. Antes de irmos embora ele presenteou a Aline com uma máscara africana, herança da sua terra de Cabo Verde. Pedi se ele tinha saudades e ele disse: “Tenho saudades das coisas que lá já não mais existem”. E falou da infância e da condição do país que foi colonizado pelos portugueses, da guerra depois das seis da tarde, das proibições de ficar sentado do lado de fora de casa, das mortes, do desassossego. E falou da Costa da Caparica do aconchego de levantar e manhã e ver o sol iluminando a comunidade, de poder tocar tambor no final da tarde, de conhecer os vizinhos, cuidar da terra, cuidar das crianças que correm e brincam por aquelas ruas.

Azul.

A chuva acalmou e fomos encontrar dona Vitória que estava cozinhando o milho com carinho. Dona Vitória não se contentou até ter buscado cadeiras e ter deixado todo mundo confortável em baixo de uma pequena tenda que poderia tanto proteger do sol quanto da chuva. Nessa hora, passando do meio dia o sol já estava a pino, esquentando o frio que a água havia trazido. Ficamos conversando e dando risada com o Daniel e alguns moradores que paravam para nos cumprimentar. Um antigo morador que lutou na guerra e ainda sofre entre memórias e uma nova realidade que criou a sua volta para lidar com a dor.

Dona Vitória nos deu o milho primeiro assado e comprou cervejas. Eu sem graça falei que não bebia e ela foi buscar um suco de pera - de pera portuguesa. Tomou a cerveja com nós e depois foi buscar mais uma espiga de milho para cada um, agora milho cozido. Não ficou satisfeita até todos terem comido, e as espigas que sobraram ela colocou em uma sacola plástica para levarmos para comer depois. Deu um abraço apertado e pegou o rosto da Aline entre as mãos em despedida, deu algumas batidas nas bochechas dela, num daqueles olhares alongados que falam mais do que todas as palavras juntas. Um abraço no Daniel e era hora de voltar pelas mesmas marcas que deixamos na chegada.

Cheguei em casa com o rosto queimado em meio a chuva e sol de Portugal. Não, certamente não conheci a Costa da Caparica, mas tive a chance de me aproximar de estar com os olhos abertos para perceber e encontrar essas pessoas maravilhosas que ali vivem. Conhecer vai mais longe, mais profundo, talvez conheci um pedacinho ínfimo da diversidade e beleza que vivem escondidas em Portugal. Fica a minha gratidão por terem me acolhido e recebido em suas casas e o desejo que as autoridades cuidem com mais cuidado e menos superficialidade dessa comunidade. E a sorte ou destino nas probabilidades da vida de ter ficado na casa de estranhos que se tornaram amigos, ter conhecido amigos desses amigos, feito novas amizades, traçado novos passagens inesperadas, e ido parar na comunidade da Costa da Caparica. E a vida é assim, surpreendente em cada caminho que segues.

Costa da Caparica.

Voam abraços,

Mayara Floss

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