Aniversários (Julio A Wong Un)




para muitos e
especialmente para os que me cuidaram
no hospital em casa e em vários consultórios
e ainda o fazem
e ainda sempre o farão



1.

Disseram-me recentemente que a pessoa pode nascer várias vezes sem completamente ter morrido.

Sou, assim, depois de ter aberto a cabeça, provavelmente, um renascido. Sem perfeição nem santidão, simples. Cheio de medos, confusões e esperanças. Sem ter morrido completamente.

Seja como seja eu não aceito a morte completa.

A vida fica. Plena. Principalmente na forma de um fazer-se poema do mundo, na lembrança e nos gestos dos outros queridos e amados. Seja no gesto invisível de acariciar o rosto daquela que se pensará para sempre. Seja no passar os dedos pelo cabelo liso e novo das três filhas - cada uma com seu tempo, seu caminho, seus desafios e sofreres, e com suas buscas inominadas por eternidades feitas de instantes. Plenitude de vida, mesmo na mistura inevitável com doença, finitude, morte, e  renascimentos.

É por isso que amar intensamente e  sentir que  esse "é" o amor da vida inteira (ou de várias vidas / embora a verdade absoluta da afirmação seja possível objeto de discussões sem final) ou se enxergar nos gestos e costumes nascentes (sempre novos) das filhas, é a forma prístina da imortalidade.

Não aquela eternidade terrível da solidão e da monotonia do "pra sempre" que "sempre acaba". Essa não existe. Essa é armadilha mental e de existência. Essa é a maldição dos deuses "eternos" e sem paixão.

Porque, no fundo, a sabedoria nos indica o instante como o verdadeiro perdurável. Fazer do amor e do abraço algo eterno, sem tempo, acima do chão e do mundo e dos relógios (mesmo que sejam de celular). E sentar-se ao lado do caminho, discreto, para assistir o espetáculo das jovens filhas desabrochar em vida sempre plena porque maravilhada e instantânea.

Ser transcendente no beijo longo que nunca sacia, no despertar suave juntos, com luz ténue e calor de pessoa adormecida em sorriso leve e satisfeito.

Paradoxo. Os instantes verdadeiros, que nos despertam e nos transformam, são verdadeiramente, "para sempres".

Outro paradoxo: viver e procurar os instantes eternos não nos exime do cotidiano, do planejar, do projetar-se. Eu tenho mais e mais esperanças, quero construir e percorrer trilhas, viajar, inventar, criar na conversa leve e bem humorada, no sabor inesperado de um doce, do desafio de uma indiada, de uma fruta espinhada como a tuna, do cacto como forma da paciência em tempos de secura. Quero tudo e mais. Renasci.

E foi essa imortalidade do instante que me fez ficar e voltar.

2.
Renascido, farei assim dois aniversários a cada ano. O primeiro amanhã a cada dia 17 de março. E o segundo dia 25 que é mais celebração da força da minha mãe do que meu próprio.

Dois aniversários, que não somam anos, mas que somam instantes de eternidade. E o lugar central da minha alma é hoje o lugar da gratidão. Pelos que me fizeram viver, ter esperança. Renascer perplexo e feliz, sem diminuir essa intensidade de vida louca, incompleta, aberta ao novo,  aos erros e às descobertas felizes e alquímicas.

E a elas e eles meu presente, muito  meditado, muito claro hoje: a maior forma da gratidão será seguir meu próprio caminho. Mesmo que pareça divergente do costumeiro e mesmo que gere algumas dores de ruptura e reorganização.

Aquele caminho que o coração indica com força renovada, aquele  que se chama cumplicidade de indiada e universo ténue e feito de infinitos "para sempres" fugazes.

Fugaz, por tanto, eterno.

A mim desejo novos renascimentos - que não sejam tão assustadores.

Aos que amo, agradeço e agradecerei sempre.

Me descobro no instante absoluto do pequeno poema, da foto, do cheiro de mulher, da visão do palácio de Maitreya dentro de mim.





[Julio Alberto Wong Un escreve na Rua Balsa das 10 às 2das-feiras]




Comentários

  1. QUE BOM QUE VOCÊ ESCREVEU ESSA MARAVILHOSA REFLEXÃO SOBRE A VISA...UM GRANDE ABRAÇO PELOS DOIS ANIVERSÁRIOS...ODILA FONSECA

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  2. Julio, feliz primeiro aniversário, atrasado. Grande abraço e muita saudade.

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